Sobre a felicidade de se amar em paz


Delícia nessa vida é a gente voltar a versos que a gente conhece há anos e realmente parar para pensar neles com a serenidade que os anos nos trazem. Estou aqui agora ouvindo o poetinha na voz de Gal Costa e de repente me vieram elucubrações a respeito do amor.

Eu sempre me perguntei, quando mais nova, o que vinha a ser a expressão "amar em paz" dos versos de Vinícius. Isso porque durante os meus vinte e poucos anos, aquilo que eu chamava de amor vinha acompanhado de um série de outros sentimentos que mal sabia eu, denotavam a efetiva inexistência do amor. É que junto do bem querer, havia também medo, insegurança, ciúmes, por vezes raiva e mais outros tantos sentimentos que não permitiam que eu vivesse essa experiência, até então para mim utópica, de amar em paz.

Isso não quer dizer que eu não tenha nutrido pelas pessoas que cruzaram a minha vida sentimentos bons de bem-querência. Pelo contrário. Eles existiram. Mas, devido à imaturidade que os tenros anos de juventude o amor nunca vinha em sua forma genuína, sempre se fazia acompanhar de seus fiéis mosqueteiros do desamor.

Solidão, União e Felicidade

Definitivamente descobri ao longo desses anos que se passaram após meu divórcio que talvez eu não seja mesmo uma moça "pra casar". Muitas pessoas leriam isso aqui com certa tristeza no coração ao pensar que talvez eu esteja jogando a toalha e desistindo da minha felicidade. Mas de antemão digo que certamente não é isso. Eu não digo que eu não seja uma moça para se ter um relacionamento duradouro. Mas é que hoje, a configuração de casamento que a sociedade considera como a normal, talvez não se encaixe tão bem assim a mim. Eu não sei se de fato seja possível se amar em paz estando dentro desta estrutura.

Muitos diriam também que ao dizer que não sou mocinha casadoira, isso eu estaria contradizendo o trabalho que faço com tanta seriedade e afinco com o meu outro blog, o Lugares Românticos que Já Fui. Afinal de contas, as pessoas sempre associam Lugares Românticos a cantinhos para se ir junto de alguém especial. Inúmeras vezes recebo pelo direct do instagram do blog mensagens de pessoas que dizem que adoram o meu perfil, mas que estão sozinhas. Tanto homens quanto mulheres.

Sempre que recebo essas mensagens eu fico ali pensando: onde foi parar o romantismo das pessoas que não são capazes de se enxergarem amando acima de tudo elas mesmas? Sempre respondo às pessoas que enquanto o príncipe ou a princesa não chegam, que eles podem curtir as minhas dicas com amigos, familiares ou até mesmo sozinhos. Há espaço para Lugares Românticos que nós nos damos de presente, ora bolas! Estou cansada de frequentá-los sozinha ou acompanhada!

O tabu de estar só

Existe por ai um tabu antigo e machista segundo o qual uma mulher precisa de um homem e um homem precisa de uma mulher. Quanta bobagem, gente! Sim, é bonito ver as pessoas caminharem juntas. Mas vejam bem: pessoas que se bastam e optam por caminhar juntas, sem cobranças, sem posse, sem ciúmes, sem promessas impossíveis de serem cumpridas. A vida me levou por um caminho que me fez enxergar poesia na honestidade, seja ela qual for. E nessa honestidade não só enxergo poesia, mas também a valorizo sobremaneira. Para mim não há declaração de amor mais linda do que alguém dizer: isso eu consigo fazer por ti, no entanto, mais do que isso eu estaria traindo a minha integridade.

Relações no geral dão errado em função de expectativas. Com o fim do meu casamento e com mais uma meia duzia de tropeços que levei depois do meu ex-marido percebi que a leveza da vida está justamente no não esperar absolutamente nada de ninguém. Hoje, acho temerárias expressões tão comuns e arraigadas socialmente como "meu" marido, "minha" mulher, "meu" namorado, "minha" namorada. O possessivo é temerário. Ele serve para delimitar laços indissociáveis, como pai, mãe, filho, irmão... Não tem como escapar, não é mesmo? Se a gente nega a genética vai lá e comprova. No entanto, para as demais relações da vida não vejo mais tanta necessidade de se afirmar a posse. No fim das contas, se formos pensar friamente, nem mesmo filhos são nossos para sempre. Uma hora eles se vão para o mundo e por lá se perdem.

Liberdade para amar em paz

A coisa funciona meio que como uma descida ao inferno, com pitstop no purgatório para então se chegar ao paraíso. Na infância dos nossos relacionamentos afetivos, no geral, passamos pelas fases do apego extremo, da posse, do não amor travestido de paixão. Muitas pessoas nesta vida nunca saem deste lugar. Muitas por opção, mas tantas outras por falta de oportunidades de enxergarem a vida sob outro prisma.

O exercício de desapego nas relações afetivas não é simples. Pelo contrário: é um processo trabalhoso. E ele não tem necessariamente algo a ver com a solidão. Esse exercício somente tem a ver com o espaço e o lugar que reservamos em nossas vidas para aqueles que amamos. O ato de amar passa de um momento de tensão que gera posse, ciúmes, preocupações, para um momento que simplesmente traz calmaria, prazer, compreensão e aceitação, de si e do outro. O caminhar junto com serenidade requer esse desprendimento de entender que apesar de juntos, cada qual segue a sua própria vida.

Então, finalmente agora, eu entendo o que de fato o poetinha quer dizer quando diz amar em paz. É somente a partir das várias experiências de não-amor que descemos ao inferno, passamos pelo purgatório para então chegarmos ao paraíso. É lindo quando topamos no caminho com alguém que divida conosco essa experiência de amor. Mas mais lindo e libertador é descobrirmos que podemos também vivê-la simplesmente amando a nós mesmos. Depois da descoberta do tal amor, a gente realmente não consegue se contentar com pouco. Ou é amor de verdade, ou é amor de verdade. Quando chegamos a esse ponto na vida, não conseguimos dar espaço para um meio termo: como é bom ser livre para amar!



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