Sobre olhares e inocências

Ontem me coloquei a pensar sobre a nossa incapacidade de naturalmente dar passos para trás e questionar o mundo. Acostumamo-nos a ver e ouvir coisas em nosso dia-a-dia que a primeira vista nos parecem lógicas. Entretanto, quando somos provocados a olhar melhor sob outro ponto de vista, nos vemos diante de pérolas dos nossos absurdos. Ontem, meu aluninho de 8 anos de idade me emprestou suas lentes grande angulares para enxergar a vida.

Conversávamos sobre a cidade. Ele está começando a entender que geograficamente nos localizamos em cidades, bairros, ruas. E que as casas, por sua vez, precisam ser numeradas para que possamos encontrar os endereços no mapa. Ele estava orgulhoso me mostrando pela janela do seu quarto todo aquele novo mundo que se descortinava diante de seus olhos. Agora, com seu novo olhar, sua vizinhança não é mais a mesma.

O olhar

Na infância é natural esse processo de reconhecimento do mundo. E no geral, esses novos olhares que formam repertório das crianças vêm carregados de surpresas e alegrias. É que eles ainda possuem dentro de si essa capacidade de encantamento pelas suas descobertas. Meu coração se encheu de vida ao ver os olhinhos do meu aluno brilharem enquanto ele verbalizava empolgado todas as ideias que corriam pela sua cabecinha neste processo de compreensão do ambiente no qual ele vive desde que nasceu:

-Maestra! (em italiano as professoras da escola primária são as Maestre) A minha casa não está isolada como essa que está desenhada no livro! Olha aqui! Quantos prédios em volta!

-Olha, Maestra! Eu estou vendo a garagem daquele prédio ali! Quantos carros será que cabem lá! Será que é igual aqui?

- Olha, Maestra! Aqui em volta tem muitos prédios como o meu! Mas olha, tem uma casa ali embaixo. Parece que ela entra pela rua de trás!

-Maestra! Aqui no livro esta casa tem telhado. A minha casa não tem um telhado assim. É porque eu moro em um prédio. Então o meu telhado é quadrado. E você sabia que aqui em cima (apontando para o teto) na verdade não é teto? Na verdade a gente está no sete (sétimo andar), e lá em cima é o oito! Então, o meu teto é o chão do oito!

A Inocência

-Olha, Maestra! Aquelas casas ali do morro (a favela que tem lá perto): por que eles não terminam de construí-las? Sabia que aquelas casas são tipo as casas dos porquinhos preguiçosos? (a historinha dos Três Porquinhos! Abençoada Ciranda da Leitura!) Se bater um vento elas caem!

Então, ele pegou o papel que estávamos usando para desenhar mapas, cidades e escrever endereços e desenhou ali uma casinha. Então olhou pra mim pensativo e disse:

-Maestra, eu não consigo entender uma coisa. Por que é que as pessoas não podem entrar nas casas vazias e morar nelas?

Na hora olhei pra ele curiosa para saber qual seria a profundidade da dúvida dele. Então perguntei:

-Como assim? Casas vazias? Mas elas têm donos!

Então ele retrucou:

- Não, Maestra, estou falando dessas casas vazias mesmo, essas que não tem objeto dentro delas e nem pessoas.

Sentindo os pontos de interrogação nos olhinhos dele pensei: sim, a dúvida é mais profunda e existencial do que eu poderia imaginar. Ele olhou para a página aberta do livro de história dele e uma das fotografias que ilustravam o capítulo sobre as casas era um mendigo deitado no banco de uma praça pública. Ao lado tinha uma legenda dizendo que nem todo mundo tinha casas para morar, e que essas pessoas dormiam nas ruas ou em abrigos públicos.

Pois é... lá estava eu, às 18h tendo que explicar a uma criança de 8 anos o que é uma propriedade privada e que o sistema vigente acha normal alguém morar na rua ou estar em uma casa inacabada em uma zona de risco... Estão lembrados lá no início do texto, quando eu disse que meu aluno de 8 anos me emprestou as suas lentes grande angulares para que eu pudesse enxergar melhor o mundo? Pois é... Ontem eu tive que dormir com esse barulho!

A reflexão


Naquele momento, calmamente peguei um lápis e comece a explicar:

-Meu amor, se eu estou na loja de lápis, eu posso simplesmente pegar esse lápis que eu gostei e coloca-lo na minha bolsa para que ele seja meu?

Quanta insensibilidade a minha achar que aquela criança de 8 anos não me questionaria da forma como se seguiu.

- Mas Maestra! Isso é um lápis! Eu estou falando de casas! Casas são diferentes de lápis!

Fiquei muda. Ia falar o que? Ele está certo. Casas são muito diferentes de lápis!

Então, para ilustrar melhor o que ele estava querendo me explicar, ele pegou o papel e desenhou uma mesa com uma cadeira me dizendo assim:

-Maestra, eu não vejo nessas casas nenhum moço atrás de uma mesa assim, ou um balcão, dizendo que a casa é dele e que ele está vendendo!

Dei-me conta da complexidade daquele assunto e da crueldade que eu havia feito ao comparar uma casa a um lápis. Mais do que isso, apesar de até hoje eu não ter conseguido enxergar algum sistema de governo melhor do que a democracia e um sistema econômico melhor do que o capitalismo, a grande verdade é que ambos, no mundo em que vivemos, possuem problemas estruturais muito graves que levam a injustiças e desigualdades.

Essas são as coisas com as quais nos acostumamos porque sentimos que não temos poder para muda-las: vivemos em um mundo que tem uma sociedade que legitima a partir da meritocracia ou da esperteza o fato de alguns terem mais oportunidades do que outros. O problema não é nem tanto o sistema da meritocracia. É justo que a gente consiga ter exatamente os frutos das sementes que plantamos. E isso é algo louvável de se ensinar aos filhos. Não precisei nem dizer muita coisa, o meu aluno continuou.

-Maestra, o moço da foto não tem casa porque não tem emprego. Ele não tem emprego porque não procurou? Para termos as coisas nós precisamos trabalhar, não é isso?

Então, neste ponto, meio atordoada com a complexidade daquela nova realidade que se descortinava para mim a partir do estranhamento inocente do meu aluno, respirei fundo e resolvi dar uma solução temporária para aquela inquietação. Não! Não é justo alguém ter que dormir nas ruas por qualquer que seja o motivo! Não! Não temos que nos acostumar com isso! Mas também, aqui entrando um pouco da serenidade que a vida adulta costuma trazer, infelizmente não podemos fazer pelo outro mais do que o que ele está disposto a fazer por si mesmo.

Mesmo sabendo que casas são diferentes de lápis, expliquei ao meu aluno que mesmo os imóveis estando vazios e sem mesas ou balcões com vendedores lá dentro, eles estão trancados porque aquele que possui as suas chaves é o dono da casa. Então chamei a atenção dele para os adesivos de vende-se nas janelas. Expliquei que o vendedor das casas não fica lá dentro delas, mas sim do outro lado do telefone.

É fato que casas não são como lápis. Mas quem as construiu teve custos para isso, e mesmo com todo o significado que uma casa possui, elas são produtos... assim como os lápis. O pequeno entendeu. Ele me disse assim:

-Entendi, maestra, então quer dizer que para eu ser o dono da casa eu preciso ser também o dono das chaves. Então as pessoas precisam ir ao chaveiro, mandar fazer uma chave para entrarem na casa.

Pois é... expliquei a ele então que não era preciso ir ao chaveiro. Que no momento da venda o dono da casa entregava as chaves para quem a havia comprado.

-Chaves e lápis são mais parecidos no tamanho, não é, Maestra? Eu fiz que sim com a cabeça.

Conclusões e aprendizados

Não é fácil explicar a uma criança que no mundo existe maldade, desigualdade e injustiças. Assim como não deve ser fácil também explicar a uma criança de 8 anos, que não tem as mesmas oportunidades que este meu aluno tem, que infelizmente ele não pode viver e ter tudo o que gostaria. A verdade é que por mais abastados que sejamos, nunca temos condições de termos tudo o que queremos. E é importante deixar claro que nas condições em que o mundo está, estamos saindo no lucro sempre que podemos dizer que temos tudo o que precisamos.

E a cada escolha que faço, a cada passo que dou na minha vida, percebo que a medida da nossa necessidade é muito mais emocional e afetiva do que material. Isso é um valor que identifico sempre mais quando em contato com crianças de todos os tipos. A imaginação é sempre mais fértil na hora de brincar do que o brinquedo mais caro do mundo. A fantasia é o segredo. A inocência também.

Esse exercício que meu aluno me convidou a fazer ontem durante nossa aula talvez seja a resposta para os grandes problemas do mundo. Se o capitalismo e a democracia estão falidos, os regimes comunistas também não nos apresentaram nenhum avanço para manterem uma sociedade equilibrada e pacífica. Nenhum tipo de ditadura que cerceie as liberdades do ser humano pode representar algum bem para a sociedade.

Estamos precisando urgentemente de ideias novas. Novos modelos, novos modos de enxergar a vida em sociedade. E só seremos capazes de fazer isso no momento em que conseguirmos dar os passos para trás para enfrentarmos as pérolas dos nossos absurdos cotidianos.

O pequeno entendeu que casas precisam ser compradas. Eu entendi que casas não podem ser comparadas a lápis, embora sejam vendidas como eles. O pequeno e eu concordamos que não é justo as pessoas morarem nas ruas, mas entendemos que é preciso correr atrás, sermos uteis à sociedade, trabalhar, para conquistarmos aquilo que precisamos, desejamos e sonhamos. Apesar de toda a desigualdade e de toda a tristeza que o choque de vida real gera, saímos vitoriosos e mais sábios dessa aula de história.

E antes de acabarmos a aula e brincarmos de mágica, o pequeno tinha mais uma pergunta a me fazer:

-Maestra! Os Três Porquinhos são bonzinhos, não são?

Então eu disse: - Sim, meu querido. Por quê?

-Então, Maestra. Eu não entendo. Sabe o Porquinho mais inteligente? Pois é! Se ele é bom, por que ele colocou um caldeirão cheio de água quente debaixo da chaminé pro lobo mau cair dentro dele e se machucar?

Pois é! Quando a gente acha que todos os problemas da noite haviam sido resolvidos, já no finalzinho da aula, o lindinho me presenteia mais um tema pra reflexão: Por que as pessoas tem a tendência de responder o mal com o mal? Não daria tempo ontem para delongarmos essa questão. Eu simplesmente devolvi a ele uma pergunta:

-Querido, se o porquinho não tivesse feito isso, o que o lobo mau teria feito?

-Ah Maestra... o lobo mau teria comido o porquinho, né?

Então eu disse:

-Sim, querido. O porquinho estava apenas se defendendo. Mas olha, nem sempre a gente precisa fazer mal ao outro para se defender, viu!

Dei nele um beijinho na testa e fomos fazer mágica, afinal de contas, já tinha sido filosofia demais para uma aula de história só!


Até a próxima!

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