Sobre ser mulher no século XXI

Minha tatuagem que tanto amo
Quando eu tinha 12 anos de idade, na metade dos anos 1990, um exercício de redação do colégio me pedia para dizer quem eu acreditava que seria a mulher do ano 2000. Eu me lembro que disse no texto que eu achava que haveria mais igualdade entre os gêneros no mercado de trabalho, que a violência contra a mulher seria extinta, que as mulheres conseguiriam ter apoio de seus companheiros para serem mães e profissionais. Enfim... uma série de coisas que a luta feminista vem gritando há tempos.

Eu me lembro de que nesta época eu era menina, mas eu já bebia de fontes feministas clássicas. Eu já sabia quem era Simone de Beauvoir e gostava de acompanhar o que Camille Paglia dizia. Parecia coisa meio adulta? Eu fui uma menina precoce em muitos aspectos. Mas hoje, olhando pra trás, eu realmente não passava de uma menina de 12 anos que queria falar e se comportar como gente grande.

Pra vocês terem uma ideia, eu era tão menina naquela época que nem me liguei que aquela redação sobre mulher do ano 2000 seria, na realidade, uma redação sobre quem eu esperava ser no ano 2000, porque aquela mulher do século XXI seria nada mais, nada menos do que eu.

Onde e como nascem as mulheres?

Simone de Beauvoir disse em seu livro Segundo Sexo que ninguém nasce mulher, que se torna mulher. Talvez eu pense que seja muito extremista não levar em consideração uma serie de fatores biológicos que me definem como mulher. Homens e mulheres são seres formados por células, órgãos, membros, hormônios... Apesar de sermos seres aculturados e de termos um controle invejável sobre os nossos instintos, não podemos nos esquecer biologicamente de onde viemos.

Mas eu concordo em parte com o que ela dizia. Para mim, mulheres e homens são forjados através dessa mistura de força da natureza que conduz o nosso desenvolvimento como seres vivos, de um lado; e de outro lado somos sim fruto da forma como o meio no qual crescemos nos molda.

Fui forjada dentro de uma família que de um lado tem como referência forte essa mulher poderosa, que sempre dá um jeito de conseguir o que quer, consegue impor a sua vontade e no final tudo e todos estão ali, obedecendo. Essa é a essência da mamma italiana. As pessoas dizem que as mulheres não tem poder? Não conhecem uma mulher italiana que está à frente de sua família!

Por outro lado, minha referencia conta também com uma avó paterna que sim, foi um alicerce familiar e cuidou zelosamente de um marido e sete filhos, mas ela era mais do que aquilo que se esperava que uma mulher fosse. Ela é uma mulher extremamente culta, instruída, uma mulher que botou meu avô para frente nos estudos. Exerceu o seu papel de mulher que era esperado, mas foi além.

A garota do pedestal dourado

Fui criada para ser uma vencedora no mundo lá fora, instrução e preparo não me faltam, mas também fui criada para ser a rainha do meu lar. Já militei fortemente feminismo por ai. Já enchi a boca para dizer que não tenho medo dos homens e que sou livre para fazer o que eu quiser. Quando penso em mim com 19, 20 anos, morro de rir internamente. Eu militava por direitos que eu nem entendia ainda o que vinham a ser.

Quando adolescente, me apaixonava platonicamente pelos meninos que tinham medo de se aproximar de mim. Era sabido pela escola afora que a Nicole era uma menina linda, que tinha um corpo já desenvolvido, e que portanto gerava desejo nos meninos. Todos queriam ficar comigo, mas tinham medo de se aproximar. Isso porque eu era a menina que estudava demais. Eu era a menina que vivia com a cabeça nas nuvens e escrevia coisas que eles não conseguiam entender. Eu era muito diferente, e dentro da minha insegurança e dificuldade de fazer parte do grupo, talvez como uma forma de defesa, eu acabava reforçando ainda mais essa diferença.

Fui a garota do pedestal dourado que todos desejavam, falavam maravilhas, sonhavam, mas que poucos tiveram coragem de se aproximar. Fui perceber isso quando no fim da adolescência, já na faculdade, encontrei na praia com um ex colega de escola. Naquele momento, já bem menos inibida do que antes, resolvi dar uma chance ao rapaz, que depois de ter me beijado disse que estava realizando o sonho de muitos colegas da época. Aquele beijo foi para ele um troféu de vitória sobre a impossibilidade de se chegar a mim anteriormente. Fiquei brava na hora. Hoje vejo que foi ali que comecei a sair de dentro do meu casulo e me tornar efetivamente uma mulher que não precisava de todas aquelas teorias, filosofias, citações alheias, fala complicada para se proteger do mundo. O mundo seria meu, se eu quisesse, e acima de tudo, se eu permitisse.

Don Quixote de saias, mas por burrice e não por nobreza



Eu hoje vendo as mulheres com as quais convivo, com as quais já tive problemas (e não são poucas!) percebo o quanto Camille Paglia está certa quando diz que o feminismo não tem sido muito honesto com as mulheres. Após anos de luta as mulheres estão mais perdidas e frustradas do que nunca! Essa mulher do século XXI está remando desesperada buscando algo que talvez nem ela mesma saiba o que é. E ela está fazendo isso vestida com uma armadura de teorias e filosofias da moda, conselhos de revistas femininas e medo do futuro. As armas que ela está levantando para a sua luta contra os moinhos de vento são as frases de efeito que escutam e leem nos livros de autoajuda e em redes sociais. Entre suas armas estão também atitudes polêmicas impensadas, que servem para que ela reafirme a sua identidade de mulher livre, de bem com a vida, realizada profissionalmente, que exerce o seu direito de viver a sua sexualidade sem limites e sem ter que dar satisfação alguma a qualquer pessoa sobre suas ações.

Quando me vi enveredada nessa confusão de referencias e expectativas femininas eu surtei. Pensei que eu estivesse realmente ficando maluca. Chorei rios de lágrimas. Olhei para trás e enxerguei tempo de vida perdido. Arrependi-me da vida que havia vivido até aquele momento. Eu estava com 30 anos, casada há sete, e não conseguia entender como é que a vida havia me levado até ali. Meu corpo gritava porque cada célula minha queria ser mãe. Eu achava que amava a minha vida, minha casa, meu marido. Eu tinha um medo louco de perder tudo o que eu tinha. Mas, ao mesmo tempo, eu não conseguia me enxergar dentro daquilo.

Eu me vi de longe, como se eu estivesse separando-me do corpo, e me enxerguei vestida com a armadura que descrevi acima, empunhando as armas sobre as quais falei. Aquela para mim foi uma cena perturbadora. Ninguém gosta de se ver como um ratinho correndo numa rodinha sem ter rumo. Senti-me Don Quixote, lutando contra moinhos de vento. Mas não porque eu estava lutando por uma causa justa, remando sozinha contra uma maré imensa de injustiças. Senti-me uma inútil, sem rumo, empunhando armas à toa, sendo infeliz e fazendo as pessoas ao meu redor infelizes. Quem era aquela mulher do século XXI? A questão estava kafkiana demais para que eu conseguisse responder. Naquele momento, sozinha, baixei as armas, sentei-me no chão (literalmente, no chão branquinho da sala do meu apartamento) e chorei.

Descobrindo quem eu era e o que eu esperava

O divórcio foi inevitável. Fiz sofrer um homem bom. Sou uma mulher boa, e sofri o dobro junto. Ambos fomos responsáveis pelo nosso insucesso. Culpei-me mais do que ele por muito tempo. Mas hoje percebo o quão injusta eu estava sendo comigo mesma. Chorei um ano inteiro a dor pela perda do homem, que era o homem da minha vida. Depois eu ainda continuava a chorar, desta vez porque não havia sido mãe. Chorei ainda esse ano inteiro tentando entender como é que eu retomaria o caminho dali pra frente. Eu mal entendia a mulher que eu tinha sido até ali, como é que eu poderia entender a mulher que eu estava sendo e aquela que eu me tornaria?

Pulei de galho em galho. Conheci homens bons e honrados. Mas conheci também o lixo do lixo. Os bons e honrados deixei passarem mais rapidamente. Como é que eu poderia fazer aqueles homens se envolverem comigo sendo que eu não sabia nem mesmo se estava disposta a me casar e a construir família novamente? Entendi como sendo maduro de minha parte permitir que eles encontrassem mulheres que estavam na mesma página do livro da vida que eles. Eles não tinham que lidar com o meu passado, principalmente porque eles não tinham um passado como o meu: foram quase 15 anos de convivência com meu ex-companheiro. Esse é um fantasma que aqueles moços bons, “para casar”, não mereciam ter que enfrentar.

Ai, eu acabei gastando energia demais com o que não prestava. Sentindo-me um ser caminhando rumo à redenção, que estava praticando o auto perdão por ter vivido tanto tempo sem saber onde queria chegar, eu acabei acreditando em um dos maiores contos da carochinha que qualquer mulher pode acreditar: eu achei que eu conseguiria recuperar, ou no amor ou na amizade, a alma de um homem perdido. Entreguei-me de corpo e alma a uma amizade distante (morávamos em estados diferentes) e acabei me distraindo com os problemas dele e usei isso como muleta para me esconder dos meus próprios fantasmas. Afinal de contas, eu ainda não conhecia ao certo a mulher que estava vivendo dentro de mim naquele momento.

Toda burrice merece ser exemplarmente punida

Preciso dizer que nessa história toda eu me fodi inteira, na violência e sem vaselina? Desculpem a crudeza das palavras, mas essa é a mais pura e cristalina verdade. Se tem uma coisa que ao longo dos anos eu desenvolvi foi o senso de observação. Mesmo estando a mil quilômetros de distância, eu conseguia enxergar a merda que o cara estava fazendo. Sozinho numa cidade que não era a dele, acabou se envolvendo com uma mulher que ele queria ter como amiga, queria foder de vez em quando, mas com quem jamais assumiria namoro sério. Tinha uma outra, na cidade dele, que a família torcia para que tudo desse certo e por quem ele tinha enorme carinho (talvez de fato gostasse dela). Tinha mais um monte de mulher que estava desesperada em busca de uma figura masculina altiva e protetora que ele chamava de amigas, mas que ficavam digladiando entre si para terem a atenção dele. E no meio dessa mixórdia toda estava eu. Eu dizendo a ele para parar de iludir a pobre coitada da cidade dele que queria se casar e ter filhos. Eu, que me dispus a ajuda-lo a criar um plano de negócios para sair do país e empreender fora juntos. Eu, que depois de ter perdido tudo aquilo que eu achei que tivesse, perdi completamente o medo de jogar merdas no ventilador e dizer verdades. Eu, que não sabia se estava apaixonada ou se estava somente ocupando espaço na minha vida com aquele monte de problemas que não eram meus.

Gente, me fodi, me fodi, mil vezes me fodi. Fui querer ajudar, disse o que pensava, enfiei o dedo nas feridas e o resultado? Fui chamada de louca, apaixonada, desesperada por um homem. Tive que suportar uma avalanche imensa de mulheres com ciúmes, inveja, despeito, medo, ou sei lá mais o que, vasculhando as minhas redes sociais e criando mil histórias fantásticas a meu respeito. Me vi na boca de pessoas que nunca haviam se encontrado pessoalmente comigo e que, portanto, jamais poderiam tecer opiniões abalizadas a meu respeito, simplesmente porque se tratavam de pessoas que não me conheciam.

Por puro livre arbítrio, por medo de continuar encarando a mulher que estava vivendo dentro de mim, essa mulher que eu não conseguia reconhecer, acabei me enfiando voluntariamente em um sofrimento imenso que eu não merecia e nem precisava ter. No momento em que me dei conta disso me questionei: que merda é essa de mulher do século XXI que você se tornou, a ponto de permitir que um cara que pensa que ser homem é ter pau pra meter e cartão de crédito para pagar o motel, tire a sua paz desta maneira?

Não estou dizendo que o cara é ruim, mal caráter, nem que as meninas sejam pessoas ruins. Ninguém é ruim. Todo esse evento foi uma fatalidade idiota que ocorreu com pessoas boas que se encontraram na hora errada e no lugar errado e que tinham expectativas muito diferentes entre si do que deveria ser o relacionamento que estava sendo travado ali. Mas a verdade é que enredada nessa teia de surrealidade, se eu não tivesse conseguido me afastar, eu talvez estivesse também agindo feito doida. 

Eu até tenho esperanças de algum dia conseguir ter com essas pessoas um relacionamento positivo. Uma amizade de fato. São pessoas que no início não significavam nada para mim, mas que hoje passaram a ser causa de reflexão, e todos aqueles que me fazem pensar e crescer são pessoas por quem tenho apreço, respeito e carinho. Mas, é bem verdade que meu amigo lá estava se comportando exatamente como um macho alfa idiota cercado de mulheres sobre as quais ele não tinha o menor controle, embora quisesse parecer que todas estavam em suas mãos.

Estão vendo só? Quando lá em cima eu pensei que a questão era kafkiana, eu não tinha ideia do que aconteceria depois. Minha vida havia se tornado palco de uma surrealidade absurda, que teve requintes de non sense, com direito a mulheres malucas imitando meus passos, minhas profissões, inclusive, numa tentativa de dizer ao mundo que elas poderiam ser eu, melhores do que eu mesma. Fiquei absolutamente assombrada com tudo aquilo, porque quem elas tentavam imitar, na realidade era somente um simulacro do que elas imaginavam que eu fosse. Quem eu realmente havia me tornado, nem eu mesma sabia definir ainda.

Desta vez parei de sentar no chão e chorar. Resolvi seguir o conselho que sempre dou a todo mundo: pare, respire e beba água e reflita. Foi o que eu fiz... durante mais um ano...

Entre mortos e feridos o que espero do futuro: casamento e filhos

No fim das contas as coisas sempre se ajustam. Sumi das redes sociais no geral, as poucas que tenho peço para pessoas atualizarem para mim em função dos blogs. Eu não precisava ficar botando lenha nas loucuras alheias, não é verdade? Assim, comecei a olhar mais para mim e para meus dilemas. Fiz alguns juramentos muito justos e honestos comigo. O primeiro deles é que em primeiro lugar eu. Mas não de forma egoísta, calcada nas fórmulas das revistas femininas e nas filosofias de banheiro. Primeiro eu porque eu precisava tomar um rumo na vida. Precisava saber se ia casar ou comprar uma bicicleta: vender o apartamento, ir embora pra Itália, virar chef de cozinha?

Algumas certezas eu consigo ter, e elas acabaram aliviando imensamente o meu coração de mulher angustiada do século XXI. A primeira delas é com relação à minha felicidade junto a alguém. Todas aquelas loucas da minha vivência surreal acabaram me mostrando os limites do inimaginável: até que ponto o desespero de uma mulher, que acha que o destino máximo de todas nós é sermos esposas e mães, pode chegar para que ela conquiste o seu “macho alfa”? Fiquei assombrada demais com as técnicas, manipulações e meias verdades e comecei a me questionar se aquele objetivo era de fato algo assim tão magnânimo.

Vi-me, de repente, nas histórias da Jane Austen, onde o tempo inteiro as famílias estão procurando noivos para suas filhas não ficarem para titias. O que é um homem bom? O que vem a ser um bom marido? Pera ai, gente! Eu tive um bom marido! Mas eu era infeliz e não sabia. Então, as loucuras alheias me ajudaram a ver que a mulher que eu sou hoje não consegue conceber um casamento, família e filhos como a única fonte de felicidade feminina. Parece obvio o que estou dizendo? Não julguem a coisa assim tão óbvia. Sejam verdadeiros e verdadeiras consigo mesmos! Entre dizer e sentir existe um oceano no meio. Hoje eu digo isso, respiro aliviada, porque estou convencida de que a minha auto realização não está nas mãos de um casamento. Menos um peso nas minhas costas.

Hoje para mim é mais importante dar risadas ao lado de alguém do que cobrar dessa pessoa que ela se apresente a mim e à minha família como namorado, noivo, marido, pai... Aliás, pai? Nem sei mais. Estou com 35 anos de idade. Todos os médicos me dizem que eu tenho que me apressar. Apressar pra que? Para botar mais um ser humano neste mundo cão? E quem vai ser o pai da criança? O cara que eu vou ludibriar e transar sem camisinha para engravidar e finalmente de forma absolutamente egoísta ter um filho? Ou será que o pai da criança vai ser um Zé das Couves frouxo, que só sabe ter pinto e machismo, que tem medo de mulher inteligente e que vai ficar por ai esbravejando a sua autoridade de merda nenhuma para o mundo porque ele tem testosterona e é pegador? Ou será que vou olhar para as contas bancárias de quem vai se relacionar comigo para avaliar se aquele cara vai ou não ser um bom ($$$$$) pai, mesmo sabendo que o tipo de pessoa que o cara é, o seu porte físico não me atraem em nada?

Sinceramente?! Não estou com a mínima vontade de ser a responsável pela infelicidade de uma criança que ainda nem nasceu por conta de um egoísmo meu. E também não quero pensar em entregar a minha felicidade a uma situação que para mim está longe de ser a ideal somente porque estou colocando como objetivo máximo na vida o fato de ter que dizer para o mundo que estou me casando e tendo um filho com um cara que vai me bancar e bancar a criança. Não, não, mil vezes não. Aqui também, menos um peso nas minhas costas.

Hoje estou curtindo a felicidade de estar ao lado de pessoas interessantes, cabeça aberta, que sabem valorizar e querem ser valorizadas. Não existe tesão maior do que tomar um vinho com um cara atraente, na cozinha da casa dele, cozinhando para ele, conversando sobre coisas inteligentes. Sabe? Dando risadas de bobagens, mas estando dentro de um nível de maturidade que te permite curtir plenamente e com respeito aquele momento sem precisar rotular o que está acontecendo.

Meninas, pergunto ai a vocês: quem ai sabe o quanto é delicioso passar 7 horas (sim, eu disse sete horas) ao lado de um homem interessante, batendo papo, sabendo que ele sabe que você é interessante, e ele sabendo que você sabe que ele é interessante, sem precisar acontecer absolutamente nada entre vocês, mesmo que durante este tempo tenham existido 4 garrafas de vinho e comidinhas deliciosas?

Quantas de vocês iriam querer repetir a dose? Pois é. O mundo anda impaciente demais e as mulheres de 30 (40,50...) estão cada vez mais desesperadas para darem o bote, estão indo com sede demais ao pote e estão se esquecendo de que saborear lentamente as beiradas é uma delícia. Assim como é uma delícia também se perder no desconhecido. Há certezas que não precisamos mais ter. Esse desespero de cumprir com os scripts que já vem desenhados para a nossa vida acaba fazendo com que a gente perca os pedaços mais saborosos. E essa foi a segunda promessa que me fiz: não perder mais os pedaços saborosos que a vida me dá. Não tenho mais pressa. O mundo pode acabar ou eu posso morrer. E daí? Não posso viver em função de um futuro que não depende somente de mim. É melhor viver o presente. Acabei aprendendo que essa é a forma mais segura de ter o futuro que almejo, casada ou solteira, com ou sem filhos. Independentemente desse status quo angustiante para as mulheres, decidi que meu futuro vai ser feliz.

Entre mortos e feridos o que espero do futuro: trabalho

Então, vendo a verve profissional de outra das doidas do episódio non sense, acabei repensando minha postura profissional também. Essa garota tem uma preocupação absurda com a vida corporativa, quer sempre se mostrar como uma profissional impecável, irrepreensível, que segue à risca o passo-a-passo de coaches de carreira e manuais da felicidade empresarial. Não entendam aqui que acho isso errado, é só que percebi dentro dessa busca desenfreada outra questão kafkiana. Só que essa eu entendi que não precisaria me delongar muito nela, porque ela não faz parte da minha vida e nem precisa fazer.

Explico-me: primeiramente espero que todos me entendam quando falo em questão kafkiana. Ao me referir os problemas como tais, quero somente dizer que no momento em que me distancio e olho para a problemática posta, observando à distancia, percebo o quão pândego e surral o problema é. Entendo como problemas kafkianos todos aqueles que nós colocamos a nós mesmos e que nos fazem gastar imensa quantidade de energia e que no fim das contas não nos levam a lugar nenhum. A questão é um pouco mais complexa e filosófica, mas em outra oportunidade, caso eu tenha vontade, escreverei sobre Kafka, (risos).

Querem um exemplo? Outro dia eu estava conversando com a minha tia sobre essas promessas de ganhos exorbitantes que empresas de vendas diretas de estrutura de marketing piramidal fazem àqueles que eles querem arrebanhar. Disse à minha tia que eu não acreditava em nada do que eles diziam porque no fundo é sempre muito difícil dar cabo dos estoques imensos que eles nos obrigam a comprar. Então ou acabamos consumindo os produtos, ou acabamos perdendo mesmo o dinheiro.

Foi quando ela me contou das moças que compravam imensas quantidades de produtos A ou B para concorrerem a uma viagem para Dubai. Aquelas criaturas de Deus, cegas no objetivo delas, gastavam um dinheiro que elas nem tinham e que seria muito difícil de ser reposto, por conta de uma viagem. Esse era o objetivo de vida delas. O produto era caro, custava mais de 300 reais um creme, e ficava lá, no armário, enquanto elas colecionavam pontos, estrelas ou o que quer que fosse, para ir pra Dubai. Suponhamos que a pessoa consiga a viagem. Ela tem passagem e hospedagem. Vai fazer o que sem dinheiro em uma das cidades mais caras do mundo? Será que ninguém parou para dizer isso a elas? Agora, considerando a dificuldade de se conseguir pontuação suficiente para ganhar a viagem, será que essas criaturas não pensaram que talvez existisse no mundo algo melhor para elas fazerem com o dinheiro? Por exemplo, uma viagem aqui no Brasil mesmo, para um lugar onde elas pudessem pagar?

Quem sou eu para discutir sonhos e objetivos de vida, mas honestamente, vendo essa verve empresarial toda para virar uma executiva respeitável, um exemplo de dedicação... vendo esse exemplo ai das vendedoras do cosmético de mais de 300 reais que querem ir pra Dubai, comecei a me perguntar quais eram os meus objetivos de vida como profissional. Então consegui dizer pra mim mesma que eu jamais trabalharia com afinco para alguém tendo diante de mim como objetivo virar uma diretora e ganhar um carro cor-de-rosa. Não quero que pareça que estou desmerecendo isso. Não estou. Só estou colocando que esse objetivo não serve para mim.

Se eu vou trabalhar mais de 14 horas do meu dia, precisa ser em algo que transpire pelos meus poros e que encha o meu coração de amor e realização. O objetivo final não precisa ser um carro, pode ser simplesmente o cliente feliz. Pode ser simplesmente a satisfação de ter a certeza de que fiz um trabalho bom, bem feito.

Já conversei com vários coaches de carreira e aqui quero fazer o meu pedido de desculpas generalizado a todos. Nunca contratei o serviço de nenhum. Não sei o dia de amanhã, mas acho que continuarei não contratando. Quando a gente cresce estudando filosofia e discutindo questões filosóficas desde muito cedo, a gente aprende a conversar com o nosso eu. Sempre que me vejo impelida a procurar consultorias para descobrir o que eu quero da minha vida, percebo que é hora de dar uns passos para trás, respirar, beber água e pensar. Geralmente chego às respostas que preciso. Então, não é desmerecer o trabalho de coaches. É simplesmente dizer que eu acabei desenvolvendo o meu próprio método de conversar comigo mesma.

E qual foi a conclusão à qual cheguei? Não gosto de trabalhar no mercado imobiliário. Embora eu tenha aprendido a fazê-lo, o faça bem, tenha gastado dinheiro e tempo fazendo o curso técnico em transações imobiliárias e as provas para poder trabalhar, esse não é meu caminho. Resolvi me lembrar do que me faz feliz. Do que me faz chegar tarde e cansada em casa, mas sorrindo, então eu defini: sou jornalista, escritora, cozinheira e professora de italiano. Isso é tudo, isso é minha essência. Isso é o que sei fazer. Aos 35 anos não precisamos mais inventar a roda para nos reinventarmos. Precisamos só ter objetividade e correr atrás, sem pensar que o tempo passado foi tempo perdido. Tudo é vida, tudo é aprendizado, tudo tem valia.

Afinal de contas: quem é a mulher do século XXI ? Quem sou eu?

Mesmo hoje, em pleno 2017, acredito que seja muito complicado dizer quem é a mulher do século XXI. Uma coisa é certa: a maioria delas ainda está ai, correndo na rodinha da gaiola do laboratório, suando, perdendo calorias e energia demais sem saber ao certo para onde está indo. E é muito complicado julgar as pessoas e suas atitudes perante a vida, mas com toda a minha vivência, acabei aprendendo que tudo aquilo que me gera angústia e peso nas costas não serve para mim. Então tirei da bagagem cobranças, definições sociais, obrigatoriedade de felicidade (ninguém precisa ser feliz o tempo inteiro, e desconfio deliberadamente daqueles que só aparecem sorrindo nas fotos). Para haver equilíbrio é preciso que se conheça a alegria e a tristeza, do contrário não saberemos nunca diferenciar um do outro. O doce só é doce porque existe o amargo. Antes de entendermos o que queremos para a vida é preciso saber o que não queremos.

Acho que no geral, as mulheres do século XXI estão diante de tantas escolhas, são tantas possibilidades, que é praticamente impossível se saber o que se quer. Muitas ao invés de escolherem, estão sendo escolhidas, levadas pelo desespero. Abrir mão de algo é sempre muito complicado, principalmente quando esse algo impactará para sempre os rumos das nossas vidas. É preciso ter colhões para se dizer que não necessariamente você quer se casar e ter filhos. Isso porque é preciso arcar com as consequências disso. Por outro lado, no meu caso, seria preciso também arcar com as consequências de escolher me casar e ter filhos com alguém que podaria as minhas asas e não me permitiria voar para os mundos onde quero ir.



A mulher do século XXI que eu sou resolveu tacar o foda-se, chutar o balde. Talvez eu esteja somente exercitando um esporte que tenho praticado desde que me entendo por gente nesta vida: lutar contra moinhos de vento. Talvez seja um pouco romântico da minha parte dizer ao mundo que quero escancarar para ele a minha alma escrevendo e que espero que ele me pague em dinheiro por isso. 

Talvez seja meio romântico da minha parte dizer que para que eu entre de cabeça em um relacionamento e aceite dividir a vida com alguém novamente, este alguém terá que pensar como eu em ao menos 79,8% dos aspectos da vida (lembrei-me de um amigo que tem pena dos números quebrados, sempre negligenciados e esquecidos - risos). Concordância 100% é impossível e honestamente, nem desejo. Talvez seja meio romântico de minha parte dizer que se for para gerar um filho, eu gostaria que fosse ao lado de alguém de bem que estivesse disposto a dividir irmãmente a tarefa da maternidade/paternidade. Será romântico demais de minha parte dizer que um filho gerado dentro de mim teria direito a um pai descente que viva em harmonia com uma mãe descente?

A mulher que habita em mim ultimamente não está nem um pouco estressada com essas questões ai acima. Ela sabe que elas existem e ela sabe também que a vida segue seu rumo. Ela não tem tempo de ficar maquinando situações e planos para encontrar um marido. Se o marido tiver que chegar é bom que ele apareça, se mostre interessado e prove a ela que vale a pena ela parar de cuidar dos afazeres dela para dar atenção a ele. A mulher que me habita hoje é ocupada demais, pensa muito, transborda amor por tudo o que faz, ama o mundo e o aceita como ele é. A mulher que me habita é fiel a si mesma e àqueles que lhes são fieis. Ela cuida de quem pede para ser cuidado sem prejudicar a sua integridade física e emocional.

A mulher do século XXI que me habita hoje tem uma energia absurda para querer fazer a vida acontecer. Corre atrás, se arrisca, não tem medo de nada e de ninguém. A mulher que me habita hoje sabe da sua liberdade. Sabe também que nem todos a entendem, aprovam ou conseguem lidar com ela. Essa mulher sabe que passará o resto da vida botando medo em homem que acha que ser homem é ter pinto pra meter e cartão de crédito para pagar o motel, mas hoje ela não dá a mínima para isso. É o bom e velho foda-se para o mundo, de coração aberto, sorriso largo no rosto, paixão nos afazeres, tesão na vida e sem medo de ser feliz: F O D A - S E  e com alegria!

Desejo a todas as mulheres que me lerem uma vida tremendamente feliz. Desejo que aquelas que já conseguiram entrar em um processo de autoanalise como eu consegui, que continuem exuberantes e plenas no mundo. Ele está precisando muito de pessoas empenhadas na tarefa de cuidarem efetivamente da própria vida. Às mulheres que ainda não começaram esse processo de autoconhecimento (desculpe, meninas, ele não acaba nunca...) desejo que parem um pouco, se olhem no espelho e percebam que a mulher mais importante do mundo está ali no reflexo. Se deem o direito á reflexão e busquem dentro de vocês as raízes efetivas de seus sonhos, medos, angustias e realizações. Desejo de coração que a vida de todas seja repleta de sentido e que tudo o que vocês fizerem esteja cheio de amor e felicidade.

Aos homens que me leem, desejo de coração que olhem para as mulheres que os acompanham: esposas, mães, irmãs, primas, amigas, colegas de trabalho; e entendam que dentro de cada uma delas, assim como dentro de vocês, existe um mundo de dúvidas, inseguranças, incertezas, medos, desejos, sonhos que às vezes nem mesmo elas conseguem entender. Não tenham medo delas. Não tentem superá-las. Não tentem diminuí-las e nem mesmo caminhar à frente ou atrás delas. Elas não precisam de sua força bruta nem mesmo para abrir o vidro de palmito. O que elas precisam, na verdade, é de parceria e respeito. Não é caminhar à frente ou atrás de ninguém, é sempre ao lado e sem medo da felicidade e da realização um do outro.

Então, acho que hoje, tendo dito tudo isso, com toda a minha trajetória, eu diria que se eu tivesse 12 anos novamente e tivesse que escrever sobre o que eu esperava da mulher do século XXI, eu acho que eu diria que esperaria que ela fosse inteira nas suas escolhas e livre para viver suas felicidades e frustrações. A vida não é boa sempre, mas quando seguimos o conselho da esfinge, e conhecemos a nós mesmos, não entregamos fácil a nossa felicidade ou a nossa infelicidade nas mãos de ninguém. Desejo a todas a leveza de saberem quem são e de se olharem com orgulho no espelho todos os dias de manhã sem maquiagem nenhuma, despenteadas, da forma mais crua que uma mulher possa estar. Isso é amor!


Até a próxima

Comentários

Postagens mais visitadas