Sobre a subversão da irracionalidade das nossas idiossincrasias e medos


Ontem eu resolvi subverter um medo. Riam de mim depois do relato, se quiserem. Mas medos são coisas inexplicáveis e acabamos a partir deles criando padrões de comportamento, que por sua vez, acabam se tornando irracionais aos olhos de estranhos... Vocês podem até rir de mim, mas imagino como deva ser olhar para dentro de vocês e descobrir em seus guardados secretos medos bizarros, que vocês escondem até de vocês mesmos.

Vou com muita frequência para Nova Lima e passo sempre pela MG030 para chegar à sede da cidade. Para quem não conhece a região, vou explicar o que tem por lá: Nova Lima sede esta no meio das montanhas, portanto, apesar de ter um pedação duplicado, essa estrada ainda é bem perigosa, especialmente na chuva, porque ela é extremamente sinuosa.

Na ida, há duas curvas bem fechadas que fazem um ziguezague para a esquerda e depois para a direita. Elas ficam numa subida. Do lado direito dessas duas curvas bem fechadas tem penhasco. Agora meu ex-marido, se estiver lendo isso aqui, vai dar risadas de mim, porque provavelmente ele vai se lembrar do pânico que senti subindo e descendo a estradinha para o Sequoia Kings Canyon National Park na Califórnia. Pois é... Eu tenho um medo incontrolável de o carro perder o controle e descer penhasco abaixo.

Não adianta, isso é bem maior do que eu. Ou ao menos até ontem costumava ser. Eu sou aquela motorista que tende a fazer trechos como esse a menos de 60km por hora na pista contrária à do penhasco. Neste caso, a pista é a da esquerda, ou seja: a pista de quem está ultrapassando. Até então não havia ainda me sentido molestada por aqueles que me xingam e me passam pela direita a quase 100km por hora numa curva daquelas.

Mas ontem decidi que não seria assim. Há momentos na vida que precisamos ter coragem para assumir determinadas mudanças de conduta. É preciso ter peito para identificar aquilo que de fato nos incomoda para decidirmos se aquilo vai ou não continuar a atrapalhar os nossos caminhos, a nossa felicidade e a nossa realização como pessoas. É uma questão de fluidez de vida. Me deu na telha que eu estava de saco cheio de agir como alguém que sofre de Transtorno Obsessivo Compulsivo na estrada. Respirei fundo e resolvi encarar a parada.

Por várias vezes tentei racionalizar este meu medo de olhar para baixo nas montanhas. Em todas as vezes eu me enxergava espatifada lá embaixo. Havia dias em que eu acordava e dizia: hoje vou passar pela pista da direita. Mas na hora H, nada feito. Lá estava eu dando seta e indo de volta para a minha zona de segurança. Simplesmente era algo incontrolável, as pernas começavam a tremer e só paravam quando eu corria para a pista da esquerda novamente.

Mas ontem foi diferente. Acho que eu estou chegando neste fim de ano realmente fazendo uma análise detalhada de tudo aquilo que tem me impedido de seguir adiante. Pode parecer uma bobagem tudo isso que acabei de dizer, afinal de contas trata-se somente de uma pista de estrada, é somente uma curva, na verdade duas. Boa parte das pessoas do mundo faz trajetos assim sem muitos problemas. Mas é que cada um sabe onde o calo dói mais.

De repente parei para pensar na quantidade de coisas que deixei de fazer ao longo deste e dos anos que se passaram simplesmente por medos irracionais como esse ai que contei a vocês. Acho que o reloginho dos 35 anos começou a bater com mais intensidade, e de fato tem me aborrecido muito perceber quanto tempo de vida já perdi em idiossincrasias como essa.

Fico brava com as minhas irracionalidades e com isso também tendo a ser intolerante com as alheias. Vou me expressar melhor: não é que me aborreço com os medos dos outros. Na realidade o que tem me aborrecido é ver as pessoas, e a mim mesma, petrificados diante do medo. Sabe aquela historia de que certa feita o diabo disse que alguém era fraco demais para aguentar a tempestade? Pois é. Na vibe que ando ultimamente, a minha fala para o capiroto é a seguinte: corra de mim, pois eu sou a tempestade. A inércia tem me deixado impaciente. O medo de sair do lugar e mudar tem me deixado louca da vida.

Confesso que depois que a zona de perigo passou eu chorei. Foi imperceptível para quem estivesse do lado de fora do carro. Foi só uma lágrima que fujona acabou correndo pelos meus olhos. Eu havia conseguido. Mas até agora não sei dizer a vocês a razão daquele desabafo.

Teria sido a minha vitória contra uma irracionalidade minha, ou teria sido a sensação de ter percebido que apesar de ter vencido aquela batalha, ainda existem muitos outros medos que habitam minha alma e que, portanto, não tenho o direito de questionar qualquer idiossincrasia alheia?

Ontem a noite fui dormir tendo vencido mais essa e consolidei minha vitória hoje novamente, fazendo exatamente a mesma coisa sem permitir que a perna tremesse. Mudança de postura é hábito, não é mesmo?

Sempre me perguntei o que seria de mim sem meus medos, tão enraizados, que tanto me definiam. Hoje percebo que o céu é o limite. Depois de sentirmos na pele o que é perder tudo aquilo que acreditávamos que tínhamos, medo de andar na pista do penhasco é o de menos. Diante da vida temos somente duas opções: sucumbir ou enfrentar. Sou do signo de leão, com ascendente em câncer e lua em touro (seja lá o que for que isso queira dizer. Se explicar o quanto sou tinhosa, é isso aí!). Já pensei que entregaria os pontos, mas agora que entrei na briga, não saio dela de jeito nenhum. Agora a pergunta é: qual será o próximo desafio?


Até a próxima!

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