Contos - Série Epifanias: O Charuto

Epifania: iluminação. Súbita sensação de entendimento ou compreensão da essência de algo. A peça do quebra cabeça que faltava ser encaixada... Sopro de intuição que move as nossas vidas...


Ele dava passos largos rumo a seu escritório. Estava finalmente conseguido fugir de todos. Sua secretária o seguia correndo com vários recados que precisava dar-lhe. Ele olhou para ela com um olhar de negação. A mulher logo entendeu que aquele dia não haveria mais espaço para nenhum compromisso, nenhum telefonema, nenhum novo problema. Antes que a porta se fechasse atrás dela, ela tentou dizer-lhe que sua esposa havia ligado. Não obteve resposta. Ele trancou a porta atrás de si e deixou ali o resto do mundo. Afrouxou a gravata, serviu uma dose pura daquele Royal Salute 21 anos que havia ganhado de presente de um de seus clientes e ligou o som ambiente. Na play list tocava Midnight in Harlem, a voz era de Susan Tedeschi. Ele foi até a janela e a abriu. Lá estavam as montanhas imponentes com o sol das quatro horas da tarde, que logo, logo iria se por. Ele sentiu o vento bater em seu rosto. Aquela sensação lhe agradava.

Ele abriu o seu umidor e tirou dali um de seus tesouros cubanos. Ele vem alimentando o hobbie de fumar e colecionar charutos há dez anos. Ele mantem umidores em casa e um no escritório. Ali tem charutos de ótima qualidade tanto cubanos, hondurenhos, dominicanos, quanto mata fina e mata norte para fumar no dia-a-dia, relaxando após o trabalho. Entretanto, ele sempre deixa escondido um habano especial destinado a ocasiões importantes. Lá estava em suas mãos um Cohiba Esplendidos. Ele havia comprado uma caixa deles em sua ultima viagem a Cuba há dois anos. Olhou para aquele charuto, o cheirou profundamente e disse para si: um bom investimento! Olhando para o charuto e para o Royal Salute que havia servido, pensou: cairia bem hoje! Ele sabia que aquele era um habano adequado para uma fumada longa e naquele momento tudo o que ele queria era o seu momento, ele não estava com pressa...

O dia o havia aborrecido do início ao fim tanto com questões de trabalho quanto com questões familiares. Ele olhou novamente para o seu Esplendidos e pensou: o dia de hoje não merece tamanha deferência, mas eu sim. Cheirou-o novamente, sentiu o fumo em suas narinas, sentiu em seus dedos a textura do charuto: nem muito mole e nem muito firme, a sua consistência era perfeita, parecia cortiça, e sua capa estava imaculada, sem nenhuma rachadura ou nó. Pegou a guilhotina e começou o ritual. Ele cortou milimetricamente meio centímetro da extremidade que fica em contato com a boca. Sentiu o seu fluxo antes de acendê-lo: parecia perfeito. Pegou então seu maçarico e começou lentamente a queimar o pé do charuto girando-o lentamente. Ele dava pequenas sopradas para ver se toda a sua circunferência estava em brasa. Depois de alguns minutos, pronto: estava aceso. Agora sim, ele estava degustando o seu cubano, sentado em sua cadeira, ouvindo blues, tomando sua dose de escocês, virado para aquela janela imensa, aberta, sentindo o vento no rosto e esperando que o sol começasse a se por.

Na play list tocava agora Soul of a Man. A voz ainda era de Susan Tedeschi. Seu telefone em cima da mesa vibrava insistentemente. Era sua esposa. Ele olhou para ele e decidiu desliga-lo. Então foi a vez de seu telefone da mesa começar a tocar. Ele o tirou do gancho. Ainda deu para ouvir a sua secretária do outro lado dizendo que era sua esposa. Ele nem se deu ao trabalho de responder. Não queria conversa agora com aquela pessoa que às seis horas da manhã já estava em pé de briga, fazendo cobranças em cima de cobranças. Será que ninguém entendia que ele precisava de paz?

Quando finalmente se viu livre de todas as interferências externas, pegou novamente seu charuto e sentiu mais uma vez os seus sabores. Era seu primeiro terço. O seu fluxo era muito bom. Ele puxou a fumaça e a segurou um tempo na boca antes de soltar. Ela era densa, trazia aromas e sabores que lembravam especiarias. Soltou-a em direção à janela. Ele não estava nem um pouco preocupado com o fato de existirem detectores de fumaça espalhados por todos os lados. A janela de seu escritório havia sido feita especialmente para que ele a pudesse abrir inteira para deixar o ar entrar no ambiente. Prerrogativa de ser o patrocinador da obra. Ele sempre dava um jeito de as coisas acontecerem exatamente como ele queria e jamais abriria mão de poder acender seu charuto onde bem entendesse.

O céu aos poucos mudava de cor e começava a trazer tons rosados com o aproximar-se do por do sol.
Na play list tocava Don’t let me slide. E ele, olhando a fumaça saindo pela janela se perguntava como foi que tudo chegou àquele ponto. Ele era um homem bem sucedido de 54 anos. Tinha uma esposa considerada perfeita, três filhos que estavam começando a seguir suas próprias vidas de sucesso. Ele havia chegado ao topo de sua carreira tendo construído relacionamentos influentes. Entretanto, parou para pensar: quanto mais crescia profissionalmente, junto ao dinheiro e ao reconhecimento, vinham também responsabilidades que ele com o tempo passou a considerar efeitos colaterais da vida. Na verdade ele não as queria para si. Ele suspirou, olhou para as montanhas, olhou para seu charuto que descansava no cinzeiro com uma cinza clara e uniforme e suspirou novamente. Naquele momento ele silenciosamente se perguntava se realmente precisava de tudo aquilo que havia almejado e conquistado até ali. Olhando novamente para seu charuto, se perguntou se abriria mão daquele prazer que tanto o definia naquele momento de sua vida em troca de algo que fizesse sua alma vibrar.

Mas o que poderia fazer sua alma vibrar a essa altura do campeonato? Ele se sentia orgulhoso dos filhos, mas tudo aquilo parecia ser simplesmente a forma como tudo precisava caminhar, afinal de contas, qual pai não se sentiria orgulhoso de filhos que estavam construindo suas vidas em carreiras sólidas sob os auspícios e cuidados por vezes excessivos daquela mãe diligente que ele havia escolhido para eles, que fez de tudo para que se tornassem médicos, advogados e engenheiros respeitáveis? Ele na realidade não havia nada do que reclamar da vida. Pelo contrario, a vida havia-lhe sorrido muitas vezes. Ele era um felizardo no mar de infelicidade que assola o mundo. Um suspiro, mais uma baforada, mais fumaça saindo pela janela...

Ele era bem sucedido na vida profissional, construiu um patrimônio sólido que fará com que não se preocupe com o futuro e com sua velhice. Proporcionou oportunidades de crescimento para seus filhos, que retribuíram os seus esforços financeiros realizando os sonhos que sua esposa havia sonhado para eles. Sim, ele entendia que ela era uma mulher controladora, mas no frigir dos ovos havia feito uma boa escolha para seus filhos. Se não fosse sua fibra para controlar cada passo que as crianças davam, talvez uma hora dessas eles estivessem perdidos pelo mundo vivendo de sonhos. Ao menos para isso toda aquela verve que tanto o incomodava havia servido. Seus dois meninos namoravam moças respeitáveis, um deles fala até mesmo em se casar. Sua filha acabou de sair da faculdade de direito, fez a prova da OAB e tem um excelente emprego.

É... ele não tem com o que se preocupar. Daqui a pouco ela conhece um rapaz digno e também irá formar família. A pergunta que ele se faz agora, ao som de The Sky is Crying, é o que será da sua vida ao lado dessa mulher, que agora que não precisa mais ser mãe vinte e quatro horas por dia, resolveu controlar a sua vida. Quem olhava de fora via uma mulher bonita, austera, mãe dedicada, dona de casa e esposa devotada. Como é que ele poderia dizer que nesse exato momento de sua vida aquilo estava longe de ser o que ele desejava para si em uma mulher? Aliás, mulher? Já há muito tempo ele não conseguia enxergar a sua esposa assim. Tudo o que lhe vinha em mente era aquela voz estridente que o perseguia com cobranças, perguntas, comentários impertinentes e tentativas de estreitamento de conversas sobre temas que absolutamente não lhe interessavam. Ele não reconhecia mais aquela pessoa com quem vivera os últimos trinta anos.

Mais uma baforada... Faltavam vinte minutos para as cinco horas. Ele estava entrando no segundo terço de sua fumada e os sabores continuavam surpreendentes! Que investimento! Repetiu ele olhando para o charuto entre seus dedos. O solo de guitarra da musica estava entrando pelos seus poros e reverberava dentro do seu corpo. Ele aumentou o som. Olhou para o charuto em suas mãos, olhou para o escocês em cima da mesa, olhou para o sol que já dava mostras que iria se por em breve, e pensou: é... isso aqui até que é vida! Ao menos um fragmento de vida que ele desejava muito sentir vibrar em si! Ele fechou os olhos, levou o charuto à boca, segurou um tempo a fumaça, soltou-a lentamente e sentiu... Suspirou mais uma vez e se lembrou.

Aqueles acordes da guitarra o levaram diretamente para as curvas daquela mulher que povoava a sua mente desde o dia que ele a viu. Ela estava correndo, realmente muito apressada. Entrou no elevador sem olhar para os lados. Ela tinha a pele muito branca, usava um vestido azul com decote nas costas. Pela fresta do decote dava para ver algo tatuado. Ele não conseguia ver tudo, pois o vestido tampava. Seu rosto parecia uma pintura renascentista: traços finos, olhos verdes, cabelos ruivos naturais, cacheados, curtos que eram como uma moldura rebuscada para seu rosto fino. Ela usava uma maquiagem leve, exatamente na medida certa para realçar sua beleza sem poluí-la. Seu corpo era de um equilíbrio e simetria raros. Não era magra demais a ponto de perder as formas, e a harmonia de suas curvas o fez sentir-se desconcertado em público. Ele se lembrou daquela sexta-feira, quando aos treze anos subiu nas costas do colega para bisbilhotar o vestiário feminino no colégio após a aula de educação física e viu ali Ana, o sonho de consumo de todos os meninos da escola, 17 anos, nua, sorrindo e conversando com suas amigas. Ele pensou que nunca mais seria capaz de ter aquelas sensações novamente.

Começava a tocar I’d rather go blind. Aquilo tocou ainda mais sua alma. Na hora que a viu ele desconfiou que aquela mulher fosse uma aparição. Ela não poderia ser de verdade! Ele estava agindo como um adolescente. Ela desceu no décimo quinto andar e seguiu correndo com aqueles sapatos de saltos altos nos quais ela maravilhosamente se equilibrava. Não deu tempo nem mesmo de perguntar-lhe o nome. Ele desceu no décimo quinto andar seguindo a moça, por impulso. Não sabia se iria encontra-la novamente, a única coisa que ele sabia é que ao olhar para os pés daquela mulher equilibrados naqueles saltos, ele não conseguia parar de pensar em seus pés e em todas as partes de seu corpo que ele não havia conseguido ver.

Pegou seu charuto mais uma vez. Sentiu os sabores do fumo em sua boca e segurou a fumaça ali por um tempo antes de soltar. Ele precisava saber quem ela era. O que fazia, com o que trabalhava. Ele se lembrava de seus trejeitos que conseguiu apreender em tão curto espaço de tempo. Sua delicada testa se franzia de preocupação. Ela deveria estar ensaiando mentalmente algo importante que precisava ser dito em uma reunião. Suas mãos delicadas com esmaltes vermelhos escuros deslizavam por entre seus cachos avermelhados enquanto ela suspirava. Na tensão que ela aparentava, saltava-lhe uma veia no meio da testa. Ele queria beijá-la e tranquiliza-la.

Ao mesmo tempo em que ela transmitia uma segurança imensa em cada um de seus movimentos, ele enxergava ali a sua fragilidade, aquele segredo que ela tentava esconder atrás de seus olhos: sim, ela era forte, mas ao mesmo tempo era uma mulher que precisava de braços mais fortes do que ela para envolvê-la e trazerem-lhe a segurança de que ela não estava sozinha e de que tudo acabaria bem. Quantos anos ela teria? Trinta e cinco? Quarenta? Talvez não chegasse a tanto. Dava para ver que a tatuagem nas costas não era a única. Ela trazia uma pena atrás da orelha direita que seus cabelos, apesar de curtos, cobriam. Tinha ainda um delicado ramo de flores no pé esquerdo. Ele estava intrigado com a quantidade de informações acerca daquela desconhecida que ele havia conseguido apreender em uma viagem que partiu do térreo e terminou no décimo quinto andar do prédio.

O sol já estava quase baixo. Agora tocava Hurt so Bad. Ele serviu mais um pouco do escocês e levou o charuto à boca mais uma vez. Impressionante: estava entrando no ultimo terço e ele se mantinha equilibrado nos sabores até ali. Ele sentia o seu coração disparado. Será que aquilo era indício de algum problema cardíaco? É que há muito tempo não se sentia assim, num misto de curiosidade, desejo e ansiedade. Será que ela havia percebido todas as reações que ele sabia que seu corpo havia produzido? Será que mais alguém havia percebido? Na verdade ele se perguntava se havia mais alguém naquele elevador. Nem disso ele conseguia se lembrar. Depois, ele começou a se perguntar como ela reagiria se percebesse tudo aquilo que estava transbordando de dentro dele. Será que ele ainda seria um homem interessante? Será que ele seria capaz de acompanhar os passos largos, decididos e elegantes daquela mulher? Ele agora se lembrou de seu sorriso. Algo passou por aquela linda cabeça que a fez delicadamente entreabrir seus lábios carnudos e pintados com um batom rosa avermelhado. Sua ansiedade e vontade de controlar a situação era tão grande, que se fosse possível ele pagaria o preço que fosse para saber quais eram os pensamentos que fizeram a moça sorrir. O que ou quem teria sido responsável?

O sol já havia se escondido atrás das montanhas. O escritório estava escuro, exceto pelo brilho da brasa do charuto que estava ardente depois que a cinza caiu sozinha no cinzeiro. Ele acendeu uma luminária de luz baixa que tinha em cima de sua mesa. Não queria perturbar com o excesso de luz a quietude daquele momento. E agora? O que ele deveria fazer? Descer ao décimo quinto andar? Sair perguntando pelo prédio quem é aquela mulher? Rezar para encontra-la novamente no elevador? Ele deveria se declarar e mergulhar naquela aventura? E sua esposa? Como ficaria? O que ele diria a ela? Aliás: o que ela queria com ele hoje? Foram tantas ligações! Ele esperava que fosse somente charme. Não seria a primeira vez que ela teria feito uso de chantagem emocional para atingi-lo. Ele já estava ficando escolado. Levou novamente o charuto à sua boca, buscou uma baforada rápida. Aqueles últimos pensamentos acerca de sua esposa o trouxeram de volta ao mundo. Mas ele não havia voltado da mesma forma como ele estava no momento em que decolou para esta epifania. Além de mais relaxado, ele voltou desta experiência sabendo que algo precisava mudar drasticamente em sua vida. Antes ele sentia-se somente irritadiço, sem saber exatamente o que lhe incomodava. Agora, embora ainda não consiga verbalizar tudo aquilo que o contraria, ele consegue ter um vislumbre da necessidade de renovação de sua vida.

É, no final das contas aquela foi de fato uma ocasião muito especial para se fumar o seu habano. Costuma-se acender charutos em comemorações especiais como nascimentos? Pois era exatamente assim que ele se sentia naquele instante: renascendo. Renascendo para si. A brasa estava chegando perto do selo. Ele olhou para o charuto com um ar de agradecimento pela companhia que ele lhe havia feito. Era o momento de coloca-lo no cinzeiro e permitir que tivesse uma morte digna. Deixou-o ali e esperou até que o ultimo vestígio de brasa se apagasse. Ele se levantou e debruçou na janela. Respirou fundo e sentiu o ar, que já estava esfriando, entrar pelas suas narinas. Ele deu uma volta na sala. Terminou de beber o escocês, fechou a janela, olhou mais uma vez para o cinzeiro, desligou o som, destrancou a porta e saiu dali com a certeza de que a partir daquele momento tudo seria diferente em sua vida.


Saiu de seu escritório para os elevadores. Seus passos agora não eram os de alguém que se apressava em fuga. Eles agora eram passos apressados de quem tem urgência para a vida. E assim ele seguiu: leve como uma pluma e intenso como o pôr-do-sol. 


Midnight in Harlem


Soul of a Man

Don't let me Slide



The Sky is Crying

I'd Rather Go Blind

It Hurt So Bad

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