Sobre a Fé o Amor e a Esperança


Sempre que falamos de fé, logo nos remetemos à religiosidade. Talvez porque a fé esteja ligada a essa coisa de acreditar no imponderável, no intangível. Fé talvez seja acreditar naquilo que todo mundo acha impossível. A fé talvez esteja ligada ao nosso coração, à nossa intuição (muitos se perguntarão: intuição? Isso existe?). Segundo uma das definições da palavra que vi certa vez em um dicionário, fé é a adesão absoluta do espírito àquilo que se considera verdadeiro. Isso me tocou profundamente e é por causa dessas palavras, que independentemente do credo que escolhi professar, eu afirmo com a cabeça erguida que eu sou uma mulher de fé.

Essa questão da fé e da religiosidade é interessante porque apesar de uma sempre andar ao lado da outra, não é necessariamente obrigatório que elas caminhem juntas. Tenho percebido e vivenciado a fé também independe de religiões. Vejo isso pelos meus amigos que se auto intitulam ateus. O fato de não se ter fé em Deus não significa que não se tenha fé em alguma coisa. Perceber isso mudou a minha forma de enxergar a vida.

Como boa espírita que sou, tenho como hábito ler o evangélio. Por mais que muitos duvidem da existência da figura sagrada de Jesus Cristo, é fato que os ensinamentos que ele traz ao longo de sua (suposta para muitos) vida são condutas que delineiam uma existência dentro da honestidade, da bondade e do respeito pela vida, tanto a própria quanto a do outro. Um dos lemas mais tocantes do espiritismo é que fora da Caridade não há salvação. Essa é uma crença que está tanto dentro das linhas espíritas kardecistas quanto nas umbandistas, que é onde me encontro hoje.

Muitos de meus amigos ateus tem comportamentos mais cristãos do que muitos daqueles que frequentam igrejas, templos ou que se oferecem em supostas atitudes de caridade como tarefeiros para ajudar o próximo. Foi então que pensando muito consegui matar a charada: Jesus Cristo, quer ele tenha sido esse homem sagrado, ou quer ele tenha sido somente um carpinteiro, era, sem dúvidas, um homem de fé dentro da sua simplicidade e baseado numa honestidade imensa. Mas sua fé não era somente uma fé cega em Deus. Sim, ele tinha fé em Deus. Entretanto, o que acho mais lindo na figura de Jesus que nos chega pelos evangélios oficiais e apócrifos, é a fé dele no ser humano.

Jesus tinha fé que todas as almas, da melhor à pior, seriam um dia capazes de atingir níveis elevados de desenvolvimento moral. Em outras palavras, o bem e o mal habitam a nossa natureza e todos nós somos capazes de domar o mal e potencializar o bem (ops! Isso não é filosofia oriental não?). Ao mesmo tempo em que ele alertava para as ciladas da vida, nos exortando a tomarmos cuidado com os lobos vestidos em pele de cordeiro, que nada mais são do que aqueles que ainda tem muito chão na caminhada em busca do aprimoramento moral; Jesus ainda assim tinha fé que um dia até mesmo essas pessoas chegariam lá.

A fé nos homens

Então agora, saindo dessa esfera da religiosidade, vamos falar de fé nos homens. Quem nunca sofreu injustiças na vida? Quem nunca foi traído por alguém por quem sentia ou ainda sente um amor imenso? Quem nunca sentiu no coração a alegria de saber que fez o bem ao próximo e depois se assustou com a resposta de ingratidão daquele a quem fez bem? Quem não está cansado de ler o noticiário e ver atrocidades de um ser humano contra o outro? Roubos, deslealdade, assassinatos, traições, mentiras... a lista é grande. Não é à toa que vemos por ai tanta gente cansada, esmorecida, perdida, tentando entender seu lugar nessa bagunça toda e principalmente, tentando entender como interagir com esse mundo inóspito onde a gente nunca sabe onde está pisando.

Fica difícil mesmo ter fé nos homens, não é mesmo? Hoje faço o bem a ele, amanhã ele me apunhala pelas costas. Hoje eu seguro a mão dele nos seus momentos de fraqueza, entendendo as suas dificuldades e tentando contribuir para o seu crescimento; amanhã ele não consegue segurar a minha mão e me enxergar como um ser humano tão falho quanto ele, que assim como ele antes, também precisa de uma mão para superar o momento. Já me revoltei muito com isso, hoje, torço para que as pessoas que não dão conta de ter esse tipo de visão de vida um dia sejam capazes de ao menos devolver o bem a alguém.

Disseram-me certa vez que o fato de eu conseguir esquecer com mais facilidade (facilidade não significa isenção de sofrimento!) as ingratidões e continuar gostando de quem me trata mal não é sinal de masoquismo meu, mas simplesmente a capacidade de enxergar a caminhada evolutiva do outro e a paciência de esperar que ele enxergue coisas que para mim já são naturais. Isso não significa que eu esteja mais ou menos evoluída do que o outro. Na realidade, a gente não tem nesse mundo condições de avaliar quem é mais ou menos evoluído moralmente. Sabem por quê? Simplesmente porque em algumas áreas eu consigo lidar bem com os problemas, mas em outras eu não consigo tão bem assim. Então realmente julgar as imperfeições do outro é, em minha opinião, das coisas mais levianas que um ser humano pode fazer contra o outro, porque antes de falar de qualquer imperfeição alheia, ele precisa estar ciente de quem se é.

Recentemente ouvi de um caboclo após uma noite inteira de trabalho como médium na casa que eu frequento, que minha vida nunca esteve tão boa, e que especificamente aquele dia, após o intenso trabalho que tínhamos tido ajudando a muitas pessoas que buscavam na casa conforto para suas aflições, eu chegaria em casa grata pela minha vida e não teria espaço para pensar em quem me quer mal. Aquele dia sei que na pele da Cabocla que me assiste, enxuguei lágrimas, descarreguei pesos de energias negativas, segurei a gira junto aos meus irmãos, em suma, trouxe um pouco de alívio a quem procurava.

Eu estava sentindo meu corpo cansado aquele dia. Minha cabeça doía, mas o caboclo tinha razão: Quem está ocupado em realmente se doar para ajudar o outro a se levantar do chão, não tem tempo para pensar em negatividade. A expressão “Fora da Caridade não há salvação” está ligada a isso. Eu não tenho tempo de criar inferno na vida de ninguém se eu estou ocupada em ajudar aqueles que estão tombados à minha frente.

Fé fora da religiosidade

Ai vocês me perguntam: como é que esse discurso inteiro pode ser compreendido fora da esfera religiosa? Vamos lá: imaginem, por exemplo, um médico ateu que apesar de não acreditar em Deus, tem fé nos homens. Ao invés de somente atender em um consultório particular, ele opta por trabalhar também pelo SUS e se dedica a ajudar quem tem pouco acesso à saúde, quem tem dificuldades de entender as doenças que tem. Imaginem um advogado ateu, que apesar de não acreditar em Deus, acredita que a sua missão no mundo pode estar definida para além de fazer fortuna nas costas de quem tem dinheiro e resolve ajudar algumas vezes por semana gratuitamente pessoas de pouca renda e instrução que tem dificuldades para terem seus direitos garantidos. Imaginem um empresário ateu, que apesar de não acreditar em Deus, acredita que dar emprego a jovens aprendizes é uma forma de ele contribuir para o crescimento de seres humanos, que poderiam enveredar por caminhos errados na vida se não tivessem aquela oportunidade para se desenvolverem como pessoas e terem a oportunidade de se sentirem úteis na sociedade.

Fé, religiosidade e respeito

Estão entendendo agora quando eu digo que sou uma mulher de fé independentemente do credo que professo? A Umbanda é algo muito mais novo na minha vida do que o meu respeito pelo ser humano. Esse respeito foi aprendido dentro de casa, seguindo o exemplo dos meus pais, sem a interferência religiosa. É claro que aprender a ter respeito e fé no ser humano é um processo. A fé em Deus e um direcionamento religioso ajudam e muito algumas pessoas a chegarem nesse estado moral, mas isso não é uma regra.

Depois de muito me martirizar, de achar de um lado que eu era a culpada absoluta por tudo aquilo que os outros faziam comigo, e de outro que o mundo sempre era injusto comigo, passei a me tratar com um pouco mais de benevolência. Certa vez um amigo me disse que sentia muito por ser uma pessoa de bom coração, que acreditava muito facilmente nas pessoas. Eu disse a ele que padeço do mesmo problema. Depois me corrigi. Isso não é um problema. Estou sujeita a ser passada para trás, estou sujeita a sofrer injustiças, estou sujeita a ser enganada, a escutar mentiras e ainda assim minha opção é continuar a trilhar meu caminho da forma como o faço. É uma questão de consciência.

Mais do que fé em Deus, eu tenho fé no homem. E foi por causa dessa fé que eu decidi não me moldar àquilo que alguns momentos da minha vida me deram de volta. Os momentos ruins, as traições, me ensinaram a não perder a fé. Eu não preciso me igualar àquele que me faz mal. Posso não querê-lo perto de mim. Posso desejar ardentemente que um dia ele perceba que a lei do retorno da vida vai devolver a ele exatamente aquilo que ele deu. Posso até mesmo desejar que a sua caminhada torne-se mais branda para que ele seja verdadeiramente feliz. Mas eu não preciso devolver a ele aquilo que ele me deu.

Isso é fé, sabem por quê? Porque é acreditando que outras pessoas podem agir como eu no mundo que talvez um dia ele possa ser um lugar mais tranquilo de se viver. Na Umbanda, os Pretos Velhos dizem que a única força capaz de desfazer qualquer magia ruim é o amor. Ainda nessa vibe, eles definem amor como sendo “o iluminar o outro para que ele possa se livrar de suas dores quando ele decidir se livrar delas”. Ou seja: é preciso que tenhamos afeição pelas pessoas, que sejamos capazes de não nutrir sentimentos ruins, e que tenhamos paciência com a caminhada do outro que uma hora tudo chega no lugar. Mas ok, ateus ou praticantes de outros credos: Esqueçam agora os Pretos Velhos, se vocês não acreditam neles. Esqueçam também as magias, se vocês não acreditam nelas. Vamos então falar sobre o amor e sobre a fé?

Sobre o amor e a fé

Amor e fé também andam juntos. Há por ai um sem número de pessoas que dizem que não tem fé no amor. Isso porque os corações já estão demasiadamente machucados e amargurados por más experiências. Amor é o sentimento que induz a aproximar, a proteger a pessoa pela qual se sente afeição. Mas amor é mais do que isso. O amor é um sentimento complexo de ser explicado. Ele tem em sua natureza, por exemplo, uma característica importante e que poucos entendem: o desapego.

Sim, o amor é desapegado porque o ser amado não deve ser aprisionado, principalmente em sentimentos como posse e ciúmes. E sabe o que é que traz a serenidade para que o amor seja desapegado? Sim, meus caros, a fé. A fé é aquilo que me diz que o meu ser amado pode estar ao meu lado, pode estar em outro estado, pode estar até mesmo na lua, mas que se ele estiver feliz, inteiro, realizado, então meu coração estará sereno e feliz. O amor é nutrido pela fé, e ao mesmo tempo em que é nutrido por ela ele também a nutre. Com amor no coração fica mais fácil ter fé na vida.

Neste mundo difícil, cheio de ódios, mentiras e acontecimentos tristes, incompreensíveis, atrozes, mesmo que não tenhamos uma religião a seguir, seria muito desesperador não ter fé. Fé para conseguirmos acordar diariamente e vencermos o dia. Fé para fazermos a diferença na vida daqueles que nos cercam. Fé no amor, fé na vida, fé no ser humano, fé nas nossas escolhas, fé que as coisas vão melhorar, fé que estamos no caminho certo, fazendo a nossa parte. Fé que não alimentamos sentimentos ruins por ninguém no mundo. Fé que não há coisa boa que a gente deseje com o coração honesto que um dia não vá acontecer. É preciso ter fé que a justiça pode demorar, mas acontece no mundo. É preciso ter fé que aquilo que é certo, justo, verdadeiro vai nos acontecer por merecimento. É preciso termos fé que neste mundo não somos vítimas de nada, mas que tudo de bom e ruim que nos acontece é fruto de nossos plantios e são sempre aprendizados que nos fortalecem.

A fé e a esperança

E então aqui entra mais uma componente que assim como o amor, está frequentemente ligada à fé: a esperança. A esperança é a disposição do espírito que induz o indivíduo a esperar que uma coisa se há de realizar ou suceder. Então, como é que podemos falar de fé sem falar também de esperança? Eu tenho a esperança, por exemplo, de que pessoas que amo muito vão voltar ao meu convívio na seara da amizade após um afastamento necessário para reflexões acerca da vida. Eu tenho esperança de que minha vida daqui a seis meses vai estar melhor do que hoje. Eu tenho esperança de que a vida daqueles que amo encontrará rumos mais favoráveis, longe de doenças e adversidades.

A vida vai encontrando sentido quando a gente entende que independente do lugar onde estamos morando, essa tríade de fé, amor e esperança, margeada sempre pela verdade, precisa ser uma constante em nossa vida, independente da religião que professamos. E se não quisermos professar nenhuma religião, que a gente ao menos paute a nossa existência em preceitos éticos e morais que nos fazem agir com o outro exatamente da forma como a gente gosta de ser tratado. Aristóteles, assim como tantos outros filósofos ao longo de toda a história do pensamento filosófico, é fonte boa de leitura acerca de condutas morais e éticas sem necessariamente passar pela seara da religiosidade.

É fazendo a nossa parte, como dizem os caboclos, caminhando sempre adiante, nunca ficando parado no meio do caminho esperando que algo aconteça, que a vida segue. É tendo fé naqueles que nos querem bem, tendo fé naqueles com quem convivemos que vemos milagres acontecerem. É sentindo amor pelo mundo, por todos aqueles que nos querem bem e também por aqueles que nos querem mal (afinal de contas, a fé nos homens nos faz acreditar que um dia eles conseguirão sair da amargura, não é verdade?), que conseguimos nos posicionar melhor no mundo. Por fim, é tendo esperança de que dias melhores sempre virão, que a vida da gente vai se desembolando. Nunca, é claro, nos esquecendo de sermos sinceros conosco e com aqueles que nos cercam.

Por um mundo mais cheio de fé, amor e esperança!


Até a próxima!

Comentários

Anônimo disse…
Texto bacana, inspirador e de boa reflexão

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