Sobre o Inferno de Dante, pintos mal lavados, Gandhi e o Brasil varonil


Antes de tudo quero dizer o seguinte: hoje realmente eu extrapolei na verborragia! Mas sabem o que é? Não tenho aqui compromisso editorial com ninguém! Esse blog serve mesmo pra eu deixar a minha cabeça viajar. Gosto de pensar, e quem me acompanha sabe dessa minha característica peculiar. É algo que faz parte da minha natureza e resolvi parar de sofrer com isso. Posso até me controlar socialmente em discussões acaloradas sobre questões polemicas para tentar não fazer oralmente discursos “espanta bolinho”. Mas resolvi apertar aquele famoso botãozinho do foda-se por aqui. Esse blog é diferente do Lugares Românticos. Aqui, quem me lê o faz porque gosta de acompanhar as minhas linhas de raciocínio que muitas vezes dão voltas, como é o caso de hoje.

O que acontece é que quanto mais conhecimento a gente “coleciona” em nossa cabeça, maior a nossa capacidade de articulação de referências. A intertextualidade é um efeito colateral inevitável para aqueles que leem, assim como estudar história e se lembrar dela é um efeito colateral (trágico talvez nos dias de hoje, às vezes me sinto Cassandra da mitologia grega!) para quem faz análises de conjunturas políticas e econômicas. A sensação de dèjá vu é uma constante por vezes irritante na vida de quem se lembra demais. Dito isso, vamos começar a ligar os pontos que coloquei no título desta postagem: o Inferno de Dante Alighieri, primeiro livro da Divina Comédia; os pintos mal lavados (sim, foi isso mesmo que vocês leram, definitivamente não estou falando dos filhotes da galinha!), Mahatma Gandhi, famoso pacifista, fundador do Estado Moderno Indiano; e por fim o nosso Brasil varonil, que dispensa apresentações.

Leiam com calma. Respirem. Voltem novamente e leiam mais um pouco e depois me contem o que acharam!

O inferno endotérmico E exotérmico de Dante Alighieri

Esta semana recebi uma correspondência da livraria onde sempre compro os livros de italiano: era um catálogo com novidades e promoções. No meio de tudo aquilo me saltou aos olhos uma frase atribuída a Dante Alighieri pelos editores do catálogo, mas que na realidade está no livro “Inferno” de Dan Brawn, que dizia: “Os lugares mais quentes do inferno estão reservados àqueles que em tempos de crise se mantém neutros”. Dan Brown que me perdoe. Eu até o considero um ótimo escritor de estórias fantásticas baseadas em fatos históricos, mas aparentemente neste livro ele errou feio ao ignorar a Divina Comédia.

Dante Alighieri não disse isso em sua obra prima do século XIV. Para ele, aqueles que se mantiveram neutros, que foram covardes e tiveram medo de tomar decisões na vida, não estavam nem mesmo dentro do inferno. A eles Dante reservou o ante-inferno. Esses que se mantiveram neutros ao longo da vida foram na realidade recusados tanto por Deus quanto pelo Diabo. Mas o fato de eles estarem nesse ante-inferno não significa que não sofressem penas. Essas almas foram condenadas a correrem em filas atrás de uma bandeira que passava rapidamente, enquanto eram torturadas por picadas de vespas e moscões e vermes que roíam suas pernas.

Não me parece nada agradável pensar em passar a eternidade levando picadas de insetos e tendo as pernas roídas por vermes. A neutralidade, a covardia e a indecisão são de fato pragas no mundo e não só em tempos de crise. Na inércia nada segue adiante, nada se resolve, portanto crises podem ser criadas justamente por falta de atitude. Agora, só pra não dizer que no inferno de Dante não tinha calor, o escritor reservou os lugares mais quentes no sétimo círculo àqueles que em vida foram levados pela violência (contra o próximo, contra si mesmos e contra Deus). E vocês acham que esse é o pior lugar do inferno? Ironicamente não. Dante separa a sua ideia de inferno em nove círculos dos quais o último é aquele dos traidores, este sim, considerado por ele o pior crime do mundo. Neste último círculo encontramos Lúcifer e nada de calor por ali: Dante coloca os traidores mergulhados em gelo. Dependendo da gradação de sua traição eles estariam submersos em gelo do tronco para baixo ou presos da cabeça aos pés na geleira.

Ao lermos a Divina Comédia, constatamos que quanto mais para baixo chegamos no inferno, piores são os crimes na concepção de Dante e consequentemente piores são os castigos. Tanto o calor excessivo quanto o frio excessivo são penas muito duras. Lembrando aqui daquela piadinha que correu os e-mails anos atrás que questionava se o inferno era endotérmico ou exotérmico, Dante resolveu essa questão séculos antes dizendo-nos que ele é ambos.

Em uma primeira interpretação da Divina Comédia, vemos alegorias de culpa e salvação, de moral. Entretanto, se fazemos uma conexão entre as palavras de Dante e a história de sua época, encontramos ali uma componente política riquíssima. Dentre as personalidades com as quais Dante conversa ao longo de sua aventura, encontramos inúmeros representantes do clero, da política e da alta sociedade europeia de seu tempo. Coloco-me aqui a pensar hoje, vendo a situação política e econômica do Brasil, quantos círculos seriam necessários no inferno para colocarmos todos os nossos criminosos engravatados.

E os pintos mal lavados?

Mas ai vocês me olham assustados e perguntam: Como é que saímos da Divina Comédia de Dante para chegarmos a pintos mal lavados, Nicole? Pois é. Ainda esta semana recebi da minha irmã Marjorie, enfermeira, uma foto de uma campanha de prevenção de câncer de pênis feita pela Sociedade Brasileira de Urologia na Bahia. Na foto via-se um desenho de um médico, carinhosamente chamado de Dr. Uro, que exortava aqueles que o lessem a “lavarem o pinto”. Sim, meus caros, a principal causa para a proliferação de câncer peniano é nada mais, nada menos do que a falta de asseio. Sabe? Falta de banho? Aquela história de não “puxar a pelinha” para lavar o equipamento direitinho? Pois é! Sábios são os Judeus!

Quando recebi a mensagem mandei a foto para um amigo meu que é médico e disse a ele: “me diga que isso é uma brincadeira!” Foi quando ele me respondeu deixando-me estarrecida: “O pior que não, Nicole. É verdade”, e me mandou aquele monte de carinhas de nojo. Começamos ai a conversar sobre as coisas que aparecem para ele no seu dia-a-dia de médico no hospital. Ele é pediatra, mas já viu pessoas doentes, adultos, idosos e crianças, por falta de higiene. Essa é também uma realidade que minha irmã vivencia onde trabalha: um hospital filantrópico, que atende pelo SUS e que muitas vezes recebe pessoas tão simples, tão ignorantes que não aprenderam o mínimo, que é ter cuidado com o seu próprio corpo. Pessoas que vêm de lugares muito remotos de Minas e que chegando aqui, na “cidade grande” desconhecem a serventia, por exemplo, de um vaso sanitário.

Pois é, meus caros: parece-nos surreal pensar que no mundo hoje, com tanta informação, exista ainda um nível tal de ignorância que leva alguém a simplesmente não conhecer o funcionamento de um vaso sanitário ou a não saber cuidar da própria higiene pessoal. Voltamos aos tempos de Dante, quando as pessoas estavam ali lutando contra a peste negra, doença causada pela falta de saneamento básico? Pensando aqui em alguns lugares “esquecidos” pelas nossas autoridades, onde ainda encontramos esgotos a céu aberto, ruas sem calçamento e sem iluminação pública, concluo que talvez, para algumas pessoas, embora estejamos em pleno século XXI, a vida ainda segue padrões muito arcaicos.

Foi vendo essa campanha de conscientização contra essa doença absolutamente evitável que me coloquei a pensar que gritamos muito nas ruas por impeachment, contra um governo corrupto, mas na realidade vivemos ainda em um país onde a carência é tão grande que existem pessoas presas na inércia, na famosa coluna do meio, que são simplesmente incapazes de se movimentarem politicamente para opinarem de um lado ou de outro. Pergunte a elas o que é corrupção! Se essas pessoas não são capazes de ler, escrever, cuidar da própria higiene, como é que elas podem ter consciência para escolher seus representantes? Como é que elas podem se posicionar socialmente dizendo a seus representantes aquilo de que realmente precisam? Pois é, meus caros, o problema do Brasil é bem mais embaixo!

Inércias e inércias

Então voltemos à frase atribuída a Dante na obra de Dan Brown: “Os lugares mais quentes do inferno estão reservados àqueles que em tempos de crise se mantém neutros”. Já vimos que não são os lugares mais quentes do inferno que foram reservados a eles, mas concordamos (espero!) que a pena a eles reservada pelo escritor italiano não é lá das mais agradáveis do mundo. Voltemos agora à questão da ignorância desconcertante sobre a qual eu falava no episódio da campanha de prevenção do câncer peniano. Temos uma população imensa aqui no Brasil que hoje, se as regras de Dan Brown estiverem corretas, iria, ao morrer, diretamente para os lugares mais quentes do inferno ou, se Dante estiver certo, seria devorada per vespas, moscões e teria as pernas roídas por vermes por toda a sua eternidade.

Então vocês me questionam: mas essas pessoas tomam um partido. Elas são simpáticas aos movimentos considerados de esquerda porque estes são movimentos que defendem medidas sociais com maior fervor. Eu vos digo que acredito que a coisa não seja bem assim. Considero essas pessoas em cima do muro porque a fidelidade deles dura o tempo que durar a ajuda que a parte interessada estiver disposta a dar pelo seu apoio nas urnas, uma vez que em nosso Brasil varonil ironicamente votar é um direito obrigatório (só eu consigo ver a contradição nessa expressão?). Tanto partidos considerados de direita, quanto partidos considerados de esquerda ganham o apoio dessas pessoas que ficam, na realidade, em cima do muro aguardando a mão que lhes será esticada em auxílio para que não lhes falte o básico (não era essa uma obrigação natural do Estado?). Mas querem saber de uma coisa? Esses inertes, apesar de serem um problema para a caminhada política do país, são menos piores do que os inertes conscientes.

Voltando a pensar na Divina Comédia, quando chegamos no 11º canto do poema, Dante debate a questão da justiça do inferno. Não vou me delongar muito em análises do poema, mas Dante traz na sua justiça a ideia que Aristóteles discutiu em seu livro Ética a Nicômaco. Segundo o filósofo grego, existem três aspectos das coisas que precisam ser evitados em nosso comportamento: a malícia, a incontinência e a bestialidade. Para Aristóteles a alma incontinente, por exemplo, tem culpa, mas em sua concepção, a culpa é menos grave do que o dolo (podemos chamar isso de má fé ou de vontade deliberada de pecar). Vocês nunca se perguntaram de onde vem na nossa justiça a diferença de crime culposo para crime doloso? Pois é, vem justamente dai.

Aristóteles ainda completa seu raciocínio dizendo que se essa vontade de se cometer um ato criminoso vier de uma manifestação animal, impulsiva, mesmo sendo doloso, o crime é ainda menos grave do que aquele praticado de forma premeditada, usando a inteligência do ser humano para o mal. E ainda diz que se esse crime, mesmo que seja premeditado, for praticado contra um desconhecido, que pode se defender do estranho, ele ainda é menos pior do que aquele crime doloso, premeditado, praticado contra alguém que confia nele, estando a vítima então indefesa, constituindo este um ato de traição. Dante, portanto, foi absolutamente racional ao sair distribuindo castigos e almas penadas ao longo de seu poema. O seu inferno é uma espécie de caos impiedoso, mas ao mesmo tempo que é caos, é ordenado.

Seguindo então o raciocínio aristotélico, embora nossos ignorantes que não lavam suas partes pudicas sejam inertes, eles são menos pecadores do que aqueles que tiveram oportunidade de estudar, de buscar crescimento intelectual, que puderam experimentar uma vida melhor, com menos carências, que puderam até mesmo experimentar uma vida fora do país, que tem condições de escolher sabiamente uma posição de vida pública e privada mais equilibrada.

Pois é, estou voltando aqui a um conceito sobre o qual já falei milhões de vezes, mas que não custa relembrar: há uma diferença gritante entre a ignorância e a burrice. O ignorante goza ainda de alguma inocência, embora não seja do todo inocente, pois ele simplesmente ignora algo e quando é levado a tomar decisões erradas, geralmente o faz porque sua ignorância permite que ele seja ludibriado por pessoas perversas que querem se aproveitar deles em troca de pequenos favores. Isso não faz dele totalmente inocente porque ele sabe que está fazendo algo somente porque está recebendo outra coisa em troca.

Já o burro não ignora nada, ele sabe do cenário no qual está inserido, tem condições intelectuais para analisa-lo e não obstante tudo isso ESCOLHE deliberadamente ficar preso em ideias retrogradas, comodistas, dizendo que isso ou aquilo não são problemas dele, e sim problema dos políticos. A esses inertes, covardes, indecisos, em cima do muro, eu desejo os piores castigos infernais dantescos. A inércia deles não é uma mera ignorância que pode ser comprada com meia dúzia de cestas básicas que matarão a fome de seus familiares. A inércia deles é financiada por uma vontade absurda de se manterem na boa vida, lavando suas partes pudicas com sabonetes importados, mesmo que para isso eles tenham que pagar um pouco mais caro, ônus desagradável dessa corrupção governamental contra a qual eles lutam gritando nas ruas por impeachment.

Não torço para nenhum dos times do hall de opções políticas brasileiras, mas não sou inerte!

Ai, você que me leu até aqui começou a me xingar achando que eu estou aqui para falar mal de coxinhas, não é mesmo? Pois bem, não é isso que venho fazer aqui. Na realidade sim, é bem verdade que falo mal de ALGUNS coxinhas. Mas é verdade também que eu nunca, em toda a minha vida, votei no time da estrela e jamais o farei. Hoje em dia falo mal de coxinhas com a mesma verve com a qual falo mal dos da estrela, distribuidores de pão com mortadela para manifestantes “contra o golpe”. Falo mal dos coxinhas porque boa parte deles passou pelo mesmo tipo de escola que eu passei, estudou as mesmas matérias que eu, leu (será mesmo?) os mesmos livros que eu, e no entanto se colocam ai, numa posição de vítima, com uma postura classista e preconceituosa contra um governo corrupto (certo, de fato é corrupto e concordo com essa parte da briga).

Por outro lado, temos ai uma roubalheira institucionalizada pelo time da estrela que até hoje na história do nosso país não teve precedentes. Estamos vivendo o nosso momento “Mani Pulite” aqui no Brasil, mas temo que boa parte desses criminosos engravatados que estão sendo julgados passará batido de suas penas e nos deixará aqui chupando dedo com aquele sentimento de impunidade, que nos é tão familiar no Brasil, uma vez que sempre conseguirão encontrar brechas em nossa legislação para atenuarem as suas penas.

Os seguidores do time da estrela são tanto intelectuais historicamente de esquerda quando os beneficiados de forma lícita ou ilícita dos programas sociais que foram instituídos pelo governo. Em ambos os casos enxergo traços de cegueira burra e cegueira ignorante que são desconcertantes para qualquer alma intelectual livre de verdade.

A posição na qual me coloco não é inerte, embora ela seja claramente de discordar de ambas as partes. É justamente a inércia dos coxinhas que defendem figuras que clamam pelo retorno dos militares ao regime político brasileiro; bem como também a inércia de intelectuais emburrecidos, que ficam somente gritando e cuspindo por ai em nome de uma esquerda que não existe mais que mais me revolto. Pode parecer a vocês que esses grupos estejam assumindo seus lados distintos na luta do “bem contra o mal”, entretanto, o que vejo é barulho nas ruas, gente arrotando mortadela e coxinha, e pouca coisa efetivamente sendo realizada POR ELES para que o status quo mude.

Gandhi: Saindo de círculos viciosos para entrar em círculos virtuosos

Aposto que todo mundo ai já deve ter visto aquela frase atribuída a Mahatma Gandhi que diz: “seja a mudança que você deseja ver no mundo”. Pois é. Essa frase serve para entendermos um pouco o que acredito que seja o caminho para a solução dos problemas do mundo. Mas quero só fazer um aparte porque essa frase é útil para explicar a minha ideia, mas não escrita da forma como está. O que ocorre nesse mundo internético de hoje em dia é que muito se fala, muito se atribui aos outros e no fim das contas muito pouco se comprova. Eu tenho uma preocupação grande com isso porque como boa jornalista que sou, gosto sempre de comprovar minhas fontes de informação.

A verdade, gente, é que não consegui levantar nenhum texto e nenhum discurso de Gandhi onde ele proferisse exatamente essas palavras. Pesquisei extensivamente no Google, fui ao Youtube em busca de entrevistas antigas e áudios de Gandhi e nada! Foi então que em um artigo de Brian Morton, de 29 de agosto de 2011, do New York Times, achei o que eu buscava: o jornalista também teve a minha mesma inquietação e constatou que de fato muitas das citações que vemos por ai não são exatamente daqueles a quem são atribuídas. Às vezes os dizeres até derivam daqueles a quem são atribuídas, mas as pessoas, no afã de torná-las mais vendáveis, simplificam as citações, comprometendo assim a sintaxe e o sentido daquilo que originalmente queriam dizer.

Aparentemente foi isso o que aconteceu com Gandhi. O meu problema com a citação da forma como ela é feita por ai é que ela soa uma frase completamente apolítica, tirando do Estado toda a responsabilidade por transformar o nosso mundo em algo melhor. Nem tanto ao céu e nem tanto à terra. Parece-me muito suspeito conceber dizeres apolíticos vindos justamente de Gandhi, um sujeito extremamente político, idealizador e fundador do Estado Moderno Indiano e um dos maiores defensores do principio da não agressão como forma de protestos e meio de revolução. Não é porque ele era um pacifista que ele não era um político. Um dos legados de Gandhi é a mensagem de que tanto Estado quanto população não precisam necessariamente fazer o uso da força para manterem a ordem e se manterem em ordem.

Pois bem, meu colega do New York Times concluiu que não havia nenhum tipo de lastro de que aquela frase pudesse ter sido proferida por Gandhi, mas, entretanto, contudo, porém, encontrou no livro General Knowlodge About Health, publicado em 1913 na Índia, com tradução em português como Guia para a Saúde, escrito por Gandhi, as seguintes palavras traduzidas aqui livremente por mim: “We but mirror the word. All the tendecies present in the outer world are to be found in the world of our body. If we could change ourselves, the tendencies in the world would also change. As a man changes his own nature, so does the attitude of the world change towards him. This is the divine mystery supreme. A wonderful thing it is and the source of our happiness. We need not wait to see what others do”.Nós podemos, entretanto, espelhar o mundo. Todas as inclinações presentes no mundo externo podem também ser encontradas dentro de nós mesmos. Se nós pudermos mudar a nós mesmos, as inclinações do mundo externo também poderão mudar. Assim como o homem muda a sua própria natureza, a atitude do mundo em relação ao homem muda também. Este é o mistério divino supremo. Isto é uma coisa maravilhosa e é também fonte da nossa felicidade. Nós não precisamos esperar para ver aquilo que os outros fazem.

O que Gandhi quis dizer ai? Ele disse que existe uma corresponsabilidade entre o mundo e nós mesmos para que as coisas aconteçam. Se queremos que o mundo mude, não podemos ficar aqui de braços cruzados esperando que alguém faça algo por nós. Precisamos agir positivamente rumo àquilo que queremos que aconteça, mesmo que saibamos que sozinhos não atingiremos todo o resultado. O sucesso de uma mudança, em especial uma mudança de conduta ética e moral em um país de proporções continentais como o Brasil, está justamente no fato de cada um entender profundamente o seu papel social e agir conforme aquilo que ele pode fazer para contribuir para que o resultado final seja um saldo positivo para ele, como indivíduo, e para o mundo como o local onde ele vive. A vida é uma eterna relação de causa e efeito e quando entramos em círculos viciosos é preciso que o lado mais consciente tome a iniciativa de começar a girar na direção contrária para que ele se torne um círculo virtuoso.

Precisamos sim, continuar a ir às ruas, mas gritar pelos motivos certos e não exortar erros e abusos do passado como contraposição ao mundo viciado no qual vivemos. Qualquer ser humano consciente de bom senso entende que o cerceamento de liberdades e a violência indiscriminada e extrema utilizada pelos regimes militares ditatoriais de direita e esquerda não podem ser ideais desejados e menos ainda ovacionados. Nós já estudamos história. Nós já aprendemos que esse não é o caminho. Já aprendemos também que não é porque vivíamos em uma ditadura que a corrupção não existia. O que ocorre é que em função do cerceamento de liberdades ninguém tinha notícias das falcatruas. Sabemos também que dentre os regimes totalitários, aqueles que tendem a ser menos igualitários e mais sanguinários são aqueles que surgem a partir de movimentos de esquerda. Não podemos nos esquecer do que foi a vida daqueles que viveram os anos de comunismo na antiga União Soviética e na Alemanha Oriental antes da queda do muro de Berlim e da queda do regime comunista. O fato de aos poucos essas ditaduras de esquerda estarem caindo me parece um indicativo de que a coisa é insustentável, embora tenha parecido ser uma ideia boa no início. Costumo dizer, inclusive, que as ditaduras de esquerda tendem a ser mais sangrentas porque em teoria a sua causa é nobre, então eles acabam fazendo uso disso para justificar atrocidades.

Toda inércia em tempos de crise precisa ser exemplarmente punida

Sou da opinião de que toda inércia em tempos de crise precisa ser exemplarmente punida. É que a lei da vida diz que quando não aprendemos algo no amor, o fazemos na dor, não interessa o quão ignorantes ou instruídos somos. Essa punição exemplar não está dentro dos lugares mais quentes do inferno e nem vem sob a forma de picadas de insetos ou vermes que comem pernas alheias, muito embora ironicamente a nossa população esteja padecendo de Dengue, Zica e Chikungunya. Essa punição vem pelas mãos das injustiças que lemos diariamente nos jornais: aposentados que não recebem seus vencimentos e não tem como pagar as contas; doenças; inflação; aumento da criminalidade; queda do poder de compra de todas as classes sociais, em especial das classes C e D; hospitais superlotados, escolas ineficientes, e em estado de petição de miséria, programas sociais sofrendo cortes e assim por diante.

Hoje, se eu tivesse que reescrever a Divina Comédia contextualizando o seu texto para o momento social, político e econômico brasileiro, eu certamente não teria muito trabalho para distribuir ao longo de oito dos nove círculos infernais os nossos protagonistas dos escândalos que temos testemunhado por ai. Digo inferno porque não apareceu ainda para mim no nosso quadro de personalidades envolvidas nesses escândalos ninguém que seja merecedor de salvação, portanto não tem Purgatório pra ninguém! E digo oito círculos porque o primeiro deles era o Limbo, onde habitavam os virtuosos pagãos e os não batizados. Acho complicado encontrarmos almas como Virgílio, Aristóteles e Ovídio entre nossos ilustres tupiniquins ultimamente. Alguns desses nossos protagonistas, confesso, precisariam ter a alma dividida, pois seus crimes são tão graves que muitas vezes somente um círculo do inferno não bastaria para puni-los. Do segundo círculo, o dos luxuriosos, ao nono, o dos traidores, passando pelos hereges, pelos violentos, pelos gulosos, pelos gananciosos, pelos irascíveis e pelos fraudolentos, encontramos espaço para muitas das figuras públicas ligadas à política e ao escandaloso mundo empresarial brasileiro.

Entenderam agora qual é a ligação entre o Inferno de Dante, os pintos mal lavados, Gandhi e o nosso Brasil varonil? Aqueles que representam a nossa sociedade são hoje criminosos merecedores de penas infernais dantescas; nossa população se divide entre inertes ignorantes que precisam ainda aprender que para evitarem doenças precisam ter a higiene pessoal em dia; e inertes conscientes, que estudaram, tiveram um acesso mínimo a boas condições de vida, mas perdem seu tempo e sua energia gritando pelos quatro cantos pelos motivos errados; ambos merecedores do ante-inferno dantesco para verem se acordam para a vida. Salvam-se ai uma meia dúzia de almas bem intencionadas, que tentam fazer sua parte no mundo em pequenos atos como criar bem os seus filhos, não cometer ou encorajar pequenas corrupções diárias, não jogar lixo na rua, ajudar algum estranho em apuros, plantar uma árvore, conservar a sua casa em ordem, conservar a sua rua em ordem, dedicar parte do seu tempo a ajudar de coração àqueles que precisam (isso ainda vai ser tema de post, mas há uma diferença entre a caridade propriamente dita e a mera prestação de serviço social voluntário. A primeira parte do pressuposto da empatia, da capacidade de se colocar verdadeiramente no lugar do outro. A mera prestação de serviço social voluntário às vezes soa como interesse, vaidade ou vontade de dizer ao mundo que se é bonzinho, mas no fundo no fundo a coisa não é bem assim); e assim por diante.

Conversando certa vez com um amigo sociólogo, ele colocou uma questão muito correta: há coisas que são da esfera política, mas há coisas que precisam ser resolvidas através de mobilização social. É o velho conceito do cada um fazendo a sua parte. Se de um lado nós, pobres mortais pagamos impostos, o Estado tem o dever moral e ético de nos prover os serviços gratuitos que nos são prometidos, bem como nos apresentar prestações de contas satisfatórias para seus gastos mensais. Por outro lado, o Estado também precisa cobrar de nós que sejamos empenhados em cuidar bem daquilo que é nosso. O nível de egoísmo da população atingiu níveis tão altos que as pessoas simplesmente perderam a noção de pertencimento no mundo. 

Finalizo aqui essa longa reflexão exortando a todos os letárgicos inertes que acordem! Observem sua vida cotidiana, identifiquem nela aquilo que vocês acham que são mudanças importantes que vocês gostariam de ver no mundo. Gandhi não tira a responsabilidade do Estado nas benesses da sociedade, mas nós precisamos entender que o nosso bem estar está TAMBÉM em nossas mãos. É somente tendo uma vida de lisura e retidão que conseguimos com ênfase cobrar isso do poder público. Chega do faça o que eu falo e não o que eu faço. É preciso que o Brasil saia dessa coluna do meio para que os inertes ignorantes parem de ser reféns de figuras mal intencionadas que se aproximam deles com o objetivo de tirar vantagem e prejudicar a coletividade.

Por um mundo com menos necessidades de punições infernais dantescas, com mais mobilização social, menos inércia burra, menos ignorância, e gente, pelo amor de Deus! Tomem banho porque o negócio não é brincadeira não!

Até a próxima!

Comentários

Postagens mais visitadas