Sobre a Fotografia e a Vida

Dedicado àqueles que amo e que precisam tirar as viseiras e enxergar os novos ângulos que a vida lhes impõe



Foto: Nicole Delucca Linhares - Jardim Botânico de Curitiba
O que vocês acharam dessa foto ai acima? Quero contar para vocês hoje como ela foi feita e então dizer também do tanto que essa foto tem me ensinado a enxergar a vida nas sutilezas de seus ângulos e cores. Eu estava muito magoada no dia que a fiz. Já havia chorado rios e rios dizendo para mim o quanto a vida era injusta. Era junho do ano passado e eu estava em Curitiba. Eu havia chegado ao hotel às 9:30 da manhã. Tirei essa foto por volta das 12h. Eu havia chorado das 9:30 às 11:30, quando decidi lavar o rosto e explorar a cidade. Peguei a jardineira dos turistas e fiz a parada no Jardim Botânico. O dia estava bom para fotografar porque não estava com aquele sol rachando, mas também não estava um dia feio.

Quando cheguei ao local, constatei uma coisa que me deixou imensamente impaciente: o Jardim Botânico estava lotado. Eu odeio multidões. Mas também pudera: sábado, um dia sem chuva em Curitiba, era obvio que as pessoas sairiam da toca! Eu estava lá com a máquina fotográfica disposta a limpar minha cabeça daquelas coisas que me deixavam triste. Eu queria ocupar minha mente com algo que sempre me fez bem: fotografar.

Comecei a observar o local, ver as direções da luz, ver os ângulos e detalhes de lá. Eu queria, definitivamente, uma foto bonita da estufa, que é das coisas mais icônicas do Jardim Botânico. Mas tinha tanta gente no meio do caminho! Achei o ângulo dessa foto interessante. Colocava em primeiro plano no lado direito a escultura do João Zaco Paraná (Amor Materno) e logo atrás a estufa inteirinha. No meu mundo ideal essa seria a foto perfeita. Mas eu estava nervosa com aquele monte de gente no caminho. Era pau de selfie, era a moça de blusa rosa, criança que corria de um lado pro outro... meu deus! Como aquilo estava me irritando!

Tinha outro fotografo no local, a gente já havia se esbarrado algumas vezes ali. Ele pareceu ter reparado minha exasperação. Vi que ele queria fazer uma foto onde eu estava. Sai dali, me sentei num canto e decidi respirar. Eu precisava chegar num estado de equilíbrio para continuar a fotografar.

“Mudando paradigmas: novos ângulos, novas cores, novas realidades”

Foto: Nicole Delucca Linhares - Igreja da Pampulha
Já tive vários professores tanto de fotografia quanto de cinema. Sempre que posso faço cursos na área por puro deleite. Mas de todos os professores que já tive, naquele momento me lembrei mesmo foram das palavras do meu pai, o sr. Francisco Linhares, um dos melhores fotógrafos que conheço. Ele em certa ocasião me disse assim: "minha filha, olhe para o local, você precisa retratá-lo. Se a imagem está diferente daquilo que você idealizou, olhe mais um pouco e mude o paradigma".

Foi exatamente o que fiz. Levantei-me da grama, voltei para a posição onde eu estava enquadrei exatamente do jeito que eu imaginei, mas simplesmente aceitei aquelas pessoas fazerem parte da cena. Eu não poderia pedir a todos para saírem dali. É como o ventilador intruso na foto ai acima. Eu não poderia tirá-lo de lá.


Foto: Nicole Delucca Linhares - Editada - Bodega Bay
Então, fazer aquela foto no Jardim Botânico de Curitiba aquele dia me fez entender que na fotografia e na vida nós precisamos de resiliência para mudarmos os paradigmas sempre que necessário. Nem tudo acontece do modo como idealizamos. Diante disso temos sempre duas escolhas: pestanejarmos contra a vida ou simplesmente aceitarmos que talvez naquele momento seja a hora de mudarmos a nossa forma de enxergar algo. Há coisas sobre as quais temos controle. Outras não. Sobre aquelas que temos controle é tranquilo. Podemos, por exemplo, fotografando em raw (altíssima definição) fazer recortes numa foto para que ela fique exatamente do jeito que queremos. Podemos alterar as cores: deixar a foto em preto e branco ou saturar um pouco mais para que ela fique com cores mais vivas.

Foto: Nicole Delucca Linhares - Sem Edição - Bodega Bay
Entretanto, quando estamos fotografando um lugar onde predomina uma multidão, por exemplo, tirar todo mundo da foto a força, seja pessoalmente, sendo desagradável e gritando num megafone para que todos saiam; seja num photoshop (imagine a trabalheira de tirar todo mundo e depois maquiar a fotografia para que pareça que ninguém estava ali), é um desgaste imenso. Perda de tempo e energia.



“Novos paradigmas, novos olhares, novas belezas: receitas de felicidade?”

Foto: Nicole Delucca Linhares - Ouro Preto
O bonito da primeira foto do post é justamente mostrar um espaço público povoado num sábado ensolarado. Um local como esse ficaria extremamente melancólico se num dia tão lindo desses ninguém estivesse lá para usufruir dele. Às vezes achamos que uma doença é o destino brigando contra a nossa existência. Quando na verdade podemos passar a enxerga-la como um excelente momento para mudar as prioridades da nossa vida. Às vezes achamos que perder a pessoa que amamos seja o fim da nossa vida. Entretanto, perdemos a oportunidade de perceber que de repente a perspectiva que aquela perda nos traz é um renascimento e uma redescoberta daquilo que nem sabemos que somos. Às vezes nem fazemos ideia do quanto ainda seremos felizes se não nos livrarmos da tristeza.

Às vezes perdemos o emprego e achamos que nossa vida está também perdida. Existem por ai muitos empreendedores que nos mostram que a demissão deles de empregos formais foi simplesmente a melhor coisa que lhes aconteceu: aprenderam a enxergar outros ângulos na vida e descobriram que sabiam fazer coisas que jamais imaginaram. Hoje, felizes, ganham muito mais dinheiro do que antes.

Foto: Nicole Delucca Linhares - Um ângulo alternativo para ver Curitiba -
Jardim Botânico de Curitiba
Mudar o paradigma, ser resiliente com relação ao ambiente a ser fotografado, ampliar a nossa capacidade de observação de ângulos, encontrar um olhar que ninguém ainda percebeu: essa é a tônica da vida. E quando paro aqui para escrever esse texto e pensar no quanto amo fotografar, percebo também o quanto amo a vida e o quanto me espantam as pessoas que escolhem deliberadamente perder tempo de vida tentando fazer retoques complexos nas fotografias que tiram.

É mais fácil aceitar a vida como ela é, obviamente com ressalvas: Precisamos sempre fazer análises íntimas para enxergarmos de forma realista quais fatos podem ser mudados e quais precisam simplesmente de mudanças de paradigmas para que novos ângulos apareçam. Nada é estático, o curso da vida segue como os ventos, como as marés. Um dia a vida está calma, outro dia  ela está em fúria como um mar em tempestade. Mas o importante é sempre lembrar que tempestades são seguidas de calmarias, e que as calmarias são plantadas por nós através da nossa capacidade de mudar o que pode ser mudado e se adaptar quando a vida nos oferece oportunidades de enxergar ângulos nunca antes imaginados.

Por uma existência menos complicada e mais feliz!


Até a próxima

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