Sobre filmes franceses, suicídios e nosso lugar no mundo

Dedico esse post à Patrícia, uma curitibana de 20 e poucos anos que talvez ainda não tenha percebido a sua importância no mundo e a um amigo que amo e que precisa loucamente ser feliz  ainda nesta vida!

Semana passada, no instagram do meu outro blog, o Lugares Românticos que Já Fui, comecei a ser seguida por um perfil chamado More Poetry Now. Achei muito bacana quando vi. No seu descritivo diz: “Quem sabe a poesia mude o mundo, quem sabe mude as pessoas”. Achei inspirador, comecei a seguir de volta e mandei uma mensagem direta ao dono do perfil em agradecimento e elogiando a ideia. Foi assim que conheci Patrícia, uma bela curitibana de uns 20 e poucos anos de idade.

Dispus-me a ajuda-la a colecionar versos para colocar ali. Curiosa, eu quis saber um pouco mais sobre ela. Perguntei com o que ela trabalha. Foi quando ouvi a surpreendente resposta: “ahh sou vendedora de uma loja num shopping, não sou ninguém importante”. Por uns instantes me vi petrificada. Como assim? Ninguém importante? Recompus-me e disse a ela que na minha visão, alguém que oferece poesias diariamente a desconhecidos é alguém de grande importância. Aprendi com minhas professoras de literatura que me faziam decorar poesias que nunca se deve negligenciar o poder de belas palavras no dia de alguém.

Naquele momento, tive vontade de dar um abraço na garota. Diante da impossibilidade de fazê-lo, passei a ela meu whatsapp e pedi que me adicionasse. Ela nunca me chamou, mas aquilo era o máximo que eu poderia fazer. Eu queria que ela se sentisse importante naquele momento. Então vasculhei a minha galeria e marquei a garota em todas as fotos que se enquadravam no tema do instagram dela. Ela curtiu as fotos e terminamos assim nossa interação. Não tenho visto postagens dela no aplicativo, tenho estado de olho. Não nos falamos mais.

Sobre os suicídios

Sexta à noite eu saí com minha irmã e meu cunhado. Estávamos em um restaurante de comida japonesa quando surgiu o assunto suicídio. Havíamos encontrado ali com algumas amigas do meu cunhado e ele nos contou sobre como uma delas havia perdido dois irmãos em pouco tempo. Um havia sido acidente de carro e o outro suicídio. Eu já tive depressão e fui tratada. Já tive perdas que me pareceram irreparáveis. Já me senti desesperada, sozinha, sem chão, desamparada, com medo. Lembro-me de que foram situações muito tristes e limite para mim. Entretanto, não consigo vislumbrar qual deva ser o nível de solidão, abandono, tristeza e impotência que leva alguém a tirar a própria vida.

Estão vendo só? Intriga-me saber qual o nível de falta de autoestima que leva alguém a se considerar “pouco importante”, assim como não entendo o baixo nível de autoestima que leva alguém a dar fim à própria vida. Será que estamos aqui falando de faces ligeiramente distintas de um mesmo problema?

Então eu penso em homens e mulheres que não conseguiram ainda realizar seus sonhos e que frustrados acabam aceitando relacionamentos “confortáveis” sabendo que o outro não está inteiro na relação, só por medo de ficar sozinho. Questiono-me aqui se esta não seria também uma forma de suicídio em vida: um tipo de morte lenta por envenenamento diário que causa letargias no cérebro e no coração, que aos poucos vai perdendo a capacidade de entender o que é o amor, o que é a paixão, o que é tesão pela vida, o que é satisfação, auto realização. É em relacionamentos assim, cômodos, considerados por muitos como estáveis, que as pessoas acabam se perdendo de si e se tornando tão pouco importantes que praticamente desaparecem. Elas ficam transparentes no mundo. 

Nessa altura da vida, pergunto-me se realmente vale a pena entrar numa relação dessas simplesmente para se ter alguém com quem “dividir” a vida. O que é que se está dividindo mesmo? Não será essa uma perda de tempo? Não se poderia ter um pouco mais de coragem para arriscar e ser feliz com alguém que realmente nos faça sentir amor pela vida e pelas nossas realizações?

Não digo que se deva viver na loucura eternamente, não é isso. Pode-se ter serenidade em um relacionamento ao lado de alguém que nos faça sentir inteiros. Eu não me perdoaria se em algum momento da minha vida eu optasse por estar com alguém sabendo que essa pessoa tem pena de mim por causa dos meus sofrimentos do passado, que essa pessoa me acha carente, tem medo de me confrontar quando eu choro, ou que essa pessoa não ache que eu tenha o tipo físico ideal para ela, que essa pessoa ache que sou uma pessoa muito velha para ter sonhos como me casar na igreja e ter filhos, ou que me julgue pelas minhas preferencias musicais, que ache que eu não estou em condições de idealizar as qualidades que almejo em um parceiro por já estar mais para fim de feira, ficando pra titia, ou que julgue minhas preferências sexuais com estranhamento ou preconceito (juro que me acho normal! Mas vai saber o que o outro pensa de mim!?). Imaginem: eu estar com uma pessoa que não me deseja por inteiro por achar que eu não consigo nada melhor e essa pessoa estar comigo por pena e também por achar que ela não mereça ou consiga algo melhor. Duplo suicídio, ou seria duplo homicídio? Que espécie de infelicidade é essa que eu estaria plantando em meu coração? Será que eu não ganharia mais em pegar meu dinheiro, sumir pelo mundo viajar, conhecer pessoas, ajudar o próximo e deixar a minha existência na velhice de forma integra, feliz por ter feito tudo aquilo que desejei e sonhei (e nossos sonhos vão mudando ao longo da vida!), fiel aos meus sentimentos e, principalmente, me amando?

Sobre filmes franceses

A comédia dramática francesa Lulu Nua e Crua, lançada em 2013, dirigida por Sólveig Anspach, fala de forma linda sobre isso. O filme, baseado no livro Lulu Femme Nue de Étienne Devodeau, conta a história de uma esposa, dona de casa, mãe que depois de ser recusada em uma entrevista de emprego surta e foge de casa, largando marido e filhos, para viver loucuras que a fizessem sentir que dentro dela ainda havia vida. Em cenas lindas, pândegas, em meio a relações improváveis, vemos ali uma mulher que após certa idade renasce para a sua beleza, para o seu prazer, redescobre o que a faz rir e entende o que é ser importante na vida de alguém. Chorei muito durante o filme porque uma das coisas que mais me comovem é ver um ser humano tomando as rédeas de sua própria vida para caminhar com as próprias pernas rumo à SUA felicidade.

Hoje eu assisti outra comédia dramática, também francesa, que de certa forma me faz pensar sobre não só as configurações que a nossa felicidade e auto realização podem ter, mas traz para mim ainda uma reflexão sobre a solidão e a solidariedade. O filme da vez é Fique Comigo, lançado em 2015, do diretor e roteirista francês Samuel Benchetrit. Se eu tivesse que dizer o filme em uma palavra, eu o definiria como surreal. Mas isso seria diminuir e muito a sua genialidade. Ele traz histórias paralelas de pessoas que vivem em um mesmo edifício na periferia de Paris e acabam se descobrindo pessoas importantes nas vidas de outras pessoas.

O filme traz relacionamentos surreais que acabam enchendo as vidas de pessoas solitárias que precisavam somente de alguém que lhes compreendesse. Não vou dar spoiler do filme, mesmo porque acho que vale muito a pena ir ao cinema assisti-lo. Mas não posso deixar de colocar aqui a impressão que senti vendo aqueles encontros acontecendo mudarem as vidas de pessoas presas em solidões letárgicas, em existências transparentes, em frustrações e rotinas anuladoras. Aqueles encontros eram como se fossem pílulas de tomada de consciência da própria vida. Luz na escuridão. É como se a partir dali se conseguisse enxergar a vida de outra forma para viver de maneira mais plena. No final não conseguimos ao certo entender se eles conseguiram ou não encontrar a cura para a solidão. Mas certamente conseguiram entender o que era a solidariedade. Aquelas pessoas passaram umas pelas outras para mostrar a elas que era possível mudar de vida, embora elas especificamente pudessem não permanecer. Uma versão um pouco mais melancólica, menos colorida dos ensinamentos que Amelie Poulain (O Fabuloso Destino de Amelie Poulain, filme de Jean-Pierre Jeunet, de 2001) nos traz.

Vocês se lembram, não é? A história da garota “transparente” que um belo dia decide que sua felicidade reside no ato de levar felicidade a desconhecidos. Esse filme é outra pérola do cinema francês, e certamente em um dia de tristeza vale a pena assisti-lo: ele sempre nos mostra que as pessoas tem um lado bom e que vale a pena querer ser feliz e lutar pela nossa plena felicidade. Amelie acabou descobrindo a própria felicidade levando felicidade aos outros. Até me arrepio ao me lembrar desse filme: colorido, otimista, doce, terno, engraçado, amor puro e incondicional condensado em pequenas manias. Dentro de uma surrealidadade, que vai desde pedir à amiga aeromoça que leve o anão de jardim do pai para viajar e mandar postais ao velho para que ele entenda que precisa sair do lugar, até pichar nos muros da cidade versos de um poeta falido e decadente, Amelie mostra ao espectador que todo ser humano, do cego das ruas ao dono do mercado, todos são importantes. Tá ai, acho que vou mandar uma mensagem pra Patrícia, lá de Curitiba, para ela assistir a esse filme! Talvez ela ainda não tenha percebido o quanto ela se parece com Amelie Poulain na hora que ela resolve subverter a sua rotina para oferecer pílulas de poesias às pessoas pelo instagram.

Os meus encontros improváveis e meu lugar no mundo

Estou agora aqui no Café Scada do Cine Belas Artes escrevendo esse post a mão e pensando nos encontros surreais e improváveis que já me aconteceram, e de como já fui importante na vida de pessoas. Penso também sobre como as prioridades mudaram, de como hoje sou importante de vida de algumas pessoas e como deixei de fazer parte das vidas de outras.

Estou lembrando aqui, por exemplo, de Pedro. Pedro foi um rapaz que conheci certa vez na Praça do Papa em um dia que eu estava extremamente magoada e decepcionada com alguém que amo muito. Eram mais ou menos 17:30h e eu estava lá, chorando, sentada, vendo o sol se por. Pedro se aproximou e começou a conversar comigo. Ele só queria que eu parasse de chorar. Queria me dar atenção. Pedro fez com que eu me sentisse importante naquele dia. Ele era muito mais novo do que eu, estava na graduação em administração de empresas. Conversamos por quase duas horas seguidas. No final, ele me deu um abraço e nos despedimos sabendo que naquele momento estávamos só de passagem na vida um do outro. 

Lenini diz que é vida é tão rara. Sêneca nos lembra que a vida é breve. Para muitos existem várias vidas, para muitos outros a que temos é a única. Seja como for, viver a espera da chegada do paraíso é estupidez. Assim como também o é viver loucamente distorcendo o “Carpe Diem” do poeta Horácio. Viver vai além de respirar.

Os encontros surreais e improváveis nos fazem sentir vivos. Nos dão a oportunidade de transformarmos a nossa existência em algo que faça sentido. Que seja abraçando pessoas nas ruas, distribuindo poesias no instagram, ou bancando a amiga louca para obrigar alguém que se ama a sair do lugar, tomar uma atitude frente à própria vida para mudar sua caminhada para a trilha da felicidade! Não há uma pessoa que passe pela nossa vida que não seja importante. Nós somos de extrema importância nas vidas daqueles com quem interagimos. E todos vão aparecendo nos momentos certos e saindo também nos momentos certos. Quando o amor e o apego são imensos, não saem nunca, mas acompanham as cadências, os ritmos que a música da vida vai assumindo. Às vezes as pessoas surgem em volume baixo, mas em dados momentos, se transformam em melodias de base pelo resto de nossas vidas. Vai entender o destino?

Não há motivos para não nos amarmos ou nos sentirmos pouco importantes no mundo. Apesar das tristezas e dificuldades, todos nós temos o direito e o dever de almejarmos nossos pequenos paraísos nesta vida e sermos felizes, inteiros, plenos e realizados como seres humanos. Nunca aceitando migalhas, ou como preferirem chamar: o cômodo, o estável em detrimento de nossas próprias vontades. Se estão certos os que acreditam que esta é a única vida que temos, então seria burrice desperdiça-la em relacionamentos e existências medíocres. Se é verdade que temos muitas vidas e que perpetuamos um eterno ir e vir neste mundo, então que colecionemos existências plenas de felicidade e realizações para nós e para quem está ao nosso redor.

Termino essa reflexão com as palavras de Cora Coralina, poetisa goiana, mãe, doceira, esposa, que admiro imensamente porque além de talentosa, ela não desistiu de encontrar a sua felicidade e a sua realização e conseguiu se fazer inteira em um momento da vida no qual a maior parte das pessoas está pensando na morte: seu primeiro livro foi publicado quando ela tinha 76 anos de idade, em 1965, ano em que seu marido faleceu.

Não sei... se a vida é curta ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais,
Mas que seja intensa, verdadeira, pura... Enquanto durar.





Seguem aqui os trailers oficiais dos filmes sobre os quais falei:

Lulu Nua e Crua:



Fique Comigo:



O Fabuloso Destino de Amelie Poulain:


Até a Próxima!

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