Sobre a fé nas pessoas: Um poeta chamado Chocolate

Chocolate e eu!

“Tristeza é saudade
Dos passos que não damos
Das pessoas que não conhecemos
Do lugar em que não fomos
E da canção que não escutamos...”
Chocolate

Nas minhas andanças por ai, sempre acabo conhecendo pessoas que fazem com que eu sinta que vale a pena acreditar no ser humano. Por ai já conheci muita gente interessante, e ai, de repente, achei que poderia ser bacana trazer aqui para o blog um pouco dessas histórias para dividi-las com vocês. Sou alucinada por leitura e livros desde menina. Por isso, resolvi apresentar hoje a vocês o Chocolate.

O livreiro analfabeto

Eu estava sentada em um restaurante no Mercado Público de Itajaí em janeiro deste ano quando de repente me chega um senhor de barba longa com uma pilha de livros nas mãos. Ele os estava vendendo. A primeira vez que ele passou lá na mesa, eu estava entretida com uma conversa e nem dei muita importância (uma negligência que infelizmente temos com frequência com vendedores ambulantes). Mas depois de um tempinho, olhei para o lado e o vi conversando com duas senhoras que estavam sentadas ali perto. Foi então que entendi que ele vendia livros usados de mesa em mesa. Foi naquele momento que ele me chamou atenção.

Assim que ele saiu da mesa das senhoras, fiz sinal para que ele voltasse. Eu precisava saber a história daquele senhor de feição simples que andava de mesa em mesa com uma pilha enorme de livros para vender. O nome dele é Ademar Ferreira Mota, mas é mais conhecido como Chocolate. Ele tem 64 anos, é mineiro, de Valadares, e me impressionou muito pela sua fluência verbal: tem um domínio fabuloso das palavras, recita poesias de sua própria autoria, conta a sua história com desenvoltura, indica livros para quem não sabe o que comprar, tem uma visão muito clara da sua vida e da vida da comunidade e apesar de tudo isso, ele sabe somente escrever o próprio nome e ler algumas sílabas. Pois é, meus caros, esse poeta e vendedor ambulante de livros é analfabeto.

No momento em que Chocolate me disse que era analfabeto parei tudo para tentar organizar em minha cabeça aquilo que eu havia visto e ouvido do momento em que ele chegou lá na mesa até ali. Aquele poeta não poderia ser analfabeto! Esse era um dado que dentro do meu conhecimento de mundo, simplesmente não tinha cabimento. Não é que seja um crime não saber ler e escrever. É que eu não conseguia enxergar um poeta, vendedor de livros, que não soubesse registrar os seus versos para a posteridade e que não soubesse ler os versos alheios. Eu, que estava cheia de perguntas para fazer a ele, acabei me esquecendo de todas e a única coisa que me ocorria era: Por qual razão aquele poeta era analfabeto?

A subjetividade da liberdade

Fiz a pergunta então a Chocolate que me respondeu de forma simples dizendo que sua infância em Valadares havia sido difícil o que o impediu de estudar. Então continuou a me contar a sua história: Nos anos 1970 seguiu o movimento hippie e sumiu no mundo, conhecendo assim o Brasil inteiro vendendo redes, tapetes, bijuterias e coisinhas assim. Rodou o Nordeste inteiro! Chegou a Santa Catarina nos anos 1980 em um pau de arara com mais 15 pessoas saindo de Santos, em São Paulo. Com o fim da temporada de verão, o pessoal que estava com ele foi embora e ele ficou, ainda com algumas redes para vender. Nessa época ele deixou para trás a companheira e quatro filhos que ele nunca mais viu.

Vendendo livros

Ali em Itajaí ele já fez de tudo um pouco: Vendeu redes, artesanato, tapetes. Mas essa coisa de vender livros usados surgiu quando ele trabalhava como manobrista em um estacionamento do Mercado Público: um cliente antigo lhe havia doado alguns livros e no mesmo dia ele conseguiu vender todos eles. Desde então ele vem recebendo de livreiros, pessoas que o conhecem das ruas, de bibliotecas, universidades, doações de livros para que ele se mantenha. Ele vem fazendo isso há mais de nove anos: junta os livros que recebe em doação, coloca tudo na caixa de peixe na garupa de sua bicicleta e vai para o Mercado Público ou para as praças do Centro de Itajaí para vendê-los. Chocolate é exigente, gosta de livros em bom estado de conservação e qualquer um dos livros da pilha dele custa R$10,00. Apesar de não ler, ele conhece alguns títulos e sabe das histórias dos livros. No momento em que ele indica algo ao cliente, ele fala sobre o livro com certa propriedade, alguns parece até que ele os leu.

Deixei minha contribuição a Chocolate não só comprando alguns exemplares em sua mão, mas também falando para ele a respeito de alguns livros da pilha dele. Ele tinha um em especial de Khalil Gibran, um libanês radicado nos Estados Unidos, chamado O Profeta. Essa obra é um conjunto de meditações sobre temas variados e universais como o amor, a família, a esperança e a morte. Um convite ao ser humano para que ele vá de encontro com sua própria alma e descubra o que existe de melhor dentro de si. Quando vi esse livro ali naquela pilha pensei comigo: Se Chocolate soubesse ler, ele deveria definitivamente devorar aquele livro.

A relatividade das verdades da vida

Depois que ele me contou aquela sua história, insisti em saber se por acaso ele não tinha tido vontade de aprender a ler e a escrever, principalmente considerando que seu ofício agora era lidar com livros e que ele era um poeta. Chocolate me deu uma aula sobre liberdade. A sua resposta enche meus olhos de água até agora. Ele me disse que teve mais tarde, ali mesmo em Itajaí, a oportunidade de aprender a ler e escrever. Alguns professores da universidade haviam tentado alfabetizá-lo, mas ele parou o processo por livre e espontânea vontade. Chocolate afirma que não precisa disso para ser livre.

Ao ouvir isso dei um suspiro: Sempre julguei em minha vida que um dos critérios de liberdade, para sermos nós mesmos, para termos independência e não entregarmos nossa alma a ninguém fosse aprender a ler e escrever. Criei essa ideia muito por tudo o que já estudei na vida, pela criação que tive. Quando pensamos, por exemplo, no nascimento do protestantismo, na reforma e na contrarreforma, um dos pontos mais marcantes para mim é o fato de que os protestantes resolveram tirar das mãos da igreja a interpretação da bíblia, dando ao indivíduo a liberdade de aprender a ler e entender o que a bíblia diz.

Resinificando a liberdade

Então, para mim, pensar em liberdade sem pensar nessa possibilidade de ler e escrever, de tirar dos outros a responsabilidade de me darem as interpretações do mundo, até então era algo impensável. Mas Chocolate me ensinou nesse dia que as coisas que aprisionam um indivíduo variam muito de pessoa para pessoa. Aquilo que para mim é prisão, para ele é liberdade. Ironicamente entendi ali que ao contrário do que sempre acreditei, naquele caso, a ignorância é liberdade. A sua liberdade reside no fato de dar pouca importância ao que é material. Chocolate é um eremita que conheceu o país inteiro vivendo de forma simples, ganhando somente o necessário para sua sobrevivência. Ele encontrou em sua caminhada tempo para contemplar o seu entorno e resolveu sentir a vida. Hoje posso dizer que eu talvez tenha conhecido na vida muito poucas pessoas livres como Chocolate.

Chocolate encontrou sua liberdade e sua felicidade na simplicidade e na ignorância daquilo que ele julga não ser imprescindível para a sua vida. Apesar de ser um solitário das ruas, ele não se importa de precisar da ajuda das pessoas para conseguir se manter. Vendendo diariamente seus livros a R$10,00, paga seu aluguel, almoça com a ajuda de pessoas da comunidade, donos de restaurantes que lhe fornecem quentinhas. Ele tem tudo o que precisa para viver, e por isso vive um dia após o outro poetando e sendo feliz.

A memória ligada ao coração

Chocolate guarda na sua memória tudo aquilo que lhe importa. Dos versos que compõe, aos livros que não lê, mas conhece, às viagens que já fez até as pessoas que passam pela sua vida. Tudo isso fica registrado de forma quase que indelével de sua memória. Refleti mais tarde sobre isso também: nós ocupamos a nossa cabeça diariamente com tantas coisas, buscamos significar tantos fatos, que acabamos sobrecarregando o nosso "sistema" com informações que não fazem tanta diferença assim na nossa vida. Talvez o Chocolate tenha de fato descoberto o segredo de tostines. Não adianta forçar a barra, as nossas lembranças precisam significar, precisam estar conectadas ao nosso coração para fazerem sentido. Saber ler e escrever para fazer isso é bom, mas ele me mostrou que não é imprescindível.

Das palavras que ele guarda no coração e lhe inspiram versos, Saudade é a principal. Com ela ele compõe músicas e poemas que o fazem esquecer por alguns instantes da solidão. Também pudera: uma pessoa que já viajou tanto, já viveu tantas coisas sem firmar raiz em nenhum lugar, deve realmente sentir saudades de muitas coisas, de muitas pessoas.

Naquele dia Chocolate me ensinou que ser livre é uma experiência pessoal, íntima, intransferível e principalmente, uma questão de ponto de vista. Ensinou-me também que sensibilidade não é privilégio dos instruídos e que a vida é uma escola riquíssima que ensina também, através de caminhos diferentes dos convencionais, as melhores formas de expressarmos aquilo que sentimos. Chocolate me instigou ainda mais a querer viver, ouvir, ver coisas diferentes, conhecer pessoas, conhecer histórias e sentir o mundo para poder falar ao mundo sobre minhas pequenas grandes descobertas.

A RBS Produções, junto ao Jornal de Santa Catarina e o Sol Diário, fizeram um filme reportagem chamado “O Vendedor de Versos” para homenagear essa figura tão singular. Termino esse post com mais versos do Chocolate e o vídeo que o pessoal fez, agradecendo muito ao Chocolate pela oportunidade que tive de conhecê-lo e de aprender com ele sobre a vida!

A lua é tão só
Tão solitária
E nela nós vivemos
E nela nós pensamos
E nela nós apreciamos
E nela nós caminhamos
E agora ao redor, tudo é fumaça
Que vagueia sentido a um beijo
Chocolate



Até a próxima!

Comentários

Que linda história Nicole. Chocolate realmente nos engrandece com sua maneira simples de viver de ver as coisas. Realmente não precisamos de muito para sermos felizes. A liberdade não está no conhecimento adquirido mas sim na forma como vivemos a nossa vida em paz e feliz.
Obrigada Luiz Henrique!
Histórias como a de Chocolate precisam ser conhecidas.
Acompanhe sempre o blog que em breve terei mais novidades.
Forte abraço,

Nicole.

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