Caro neto, estude para se lembrar (decore!) - Umberto Eco

Vamos começar 2016 em altíssimo estilo trazendo Umberto Eco para conversar? Estou me atrevendo a traduzir este gênio e peço de antemão desculpas, pois não tenho interesse algum em ganhar dinheiro com essa tradução e menos ainda tornar-me conhecida. O faço somente para compartilhar com meus amigos que não falam italiano essa riqueza de saber com o qual ele nos brinda neste texto.

Quero ainda dizer o seguinte: Quem sou eu para traduzir Umberto Eco, simplesmente uma das figuras intelectuais hoje que mais admiro? Entretanto, apesar de saber que mesmo se eu vivesse eternamente e passasse o resto dos meus dias ao lado dele aprendendo um décimo do que ele tem para ensinar; vou usar em meu favor os meus mais de 20 anos de conhecimento da língua italiana junto ao meu amor incondicional pela escrita e o meu conhecimento de língua portuguesa para empreender essa tarefa de traduzir esta carta que ele escreveu endereçada a seu neto para a revista L’Espresso em 03 de Janeiro de 2014 (sim!!! Em 2014). Para os puristas aviso: minha tradução estará mais para uma versão. Haverá ainda uma série de dados históricos e citações de versinhos e poesias que farão sentido para quem conhece o italiano e as vivências culturais italianas. Tentarei trazer em observações ao longo do texto analogias para fazer com que vocês entendam com o coração aquilo que Umberto Eco quis dizer ao seu neto. Mãos à obra?

Umberto Eco:

Meu caro netinho,

Não gostaria que esta carta de natal soasse muito sentimental e exibisse conselhos sobre o amor ao próximo, à pátria, ao mundo e coisas do tipo. Você não prestaria atenção nela e na hora de coloca-la em prática (você adulto e eu muito antigo) o sistema de valores já estaria tão diferente que provavelmente as minhas recomendações estariam todas ultrapassadas.

Portanto, gostaria somente de concentrar-me em uma recomendação, que você vai conseguir colocar em prática mesmo agora, enquanto navega no seu IPad. E nem vou cometer o erro de desaconselhá-lo a fazê-lo, não tanto porque eu pareceria um avô ultrapassado, mas sim porque eu mesmo o faço. No máximo posso recomendar a você que se por acaso você estiver nas centenas de sites pornográficos que mostram de mil maneiras as relações entre dois seres humanos, ou entre um ser humano e um animal, procure não acreditar que o sexo seja aquilo, que além de tudo me parece algo muito monótono. Não acredite naquilo porque se trata de uma encenação para obrigar você a não sair de casa para encontrar as garotas de verdade. Eu parto do principio de que você seja heterossexual, mas se não for, adapte os meus conselhos para o seu caso: mas olhe para as garotas, na escola ou onde você vai brincar, porque as de verdade são melhores do que as da televisão, e um dia elas te darão satisfações muito maiores do que as online. Acredite em quem tem mais experiência do que você (e se eu tivesse visto o sexo somente pelo computador, o seu pai não teria nascido, e você, quem sabe onde estaria, ou melhor, não estaria de jeito nenhum).

Mas não é sobre isso que quero falar com você. Quero falar sobre uma doença que atingiu a sua geração e a geração dos garotos mais velhos do que você, que talvez já estejam até indo à universidade: A perda da memória.

É verdade que se você tiver vontade de saber quem teria sido Carlos Magno ou onde está Kuala Lumpur você só precisa apertar alguns botões e a internet te conta logo. Faça-o quando for preciso, mas depois que o fizer, procure se lembrar do que lhe foi dito para que você não seja obrigado a procurar uma segunda vez em um caso de necessidade, talvez para uma pesquisa da escola. O risco é você achar que o seu computador poderá te dizer qualquer coisa a todo instante, e que assim você perca o gosto de guardar as coisas na memória. Seria um pouco como se, tendo aprendido que para ir da rua tal à rua tal existem dois ônibus e o metrô que lhe permitem um deslocamento sem esforço (o que é muito cômodo e faça-o sempre que estiver com pressa) você pensasse que assim você não tem mais a necessidade de caminhar. Mas se você não caminhar o suficiente você poderá se tornar uma pessoa “diversamente hábil”, como se diz hoje em dia para indicar quem precisa andar de cadeira de rodas. Tudo bem, eu sei que você pratica esportes e que, portanto sabe movimentar o seu corpo, mas vamos voltar ao seu cérebro.

A memória é um músculo como o das pernas, se você não o exercitar ele se atrofia e você se torna (do ponto de vista mental) “diversamente hábil”, ou seja, (vamos falar claramente) um idiota. E, além disso, como para todos nós existe o risco de Alzheimer na velhice, um dos modos para evitar este incidente desagradável é exercitar sempre a memória.

Portanto, êis a minha dieta. Todos os dias de manhã aprenda um verso, uma breve poesia, ou como fizeram com a gente [aqui Eco fala dos tempos da escola], “La Cavallina Storna” ou “Il Sabato del Villaggio” [respectivamente dois poemas dos autores italianos Giovanni Pascoli e Giacomo Leopardi, velhos conhecidos meus – Nicole- dos tempos de escola, quando as professoras de italiano realmente mandavam a gente decorar poesia valendo nota]. E talvez faça uma competição com os seus amigos para saberem quem se lembra mais. Se você não gostar de poesia, faça com as escalações dos jogadores de futebol, mas preste atenção, você não tem que saber somente quem são os jogadores do Roma de hoje, mas precisa saber também os nomes dos jogadores dos outros times, e talvez dos times do passado (você acredita que eu me lembro da escalação do Torino quando o avião deles caiu em Superga com todos os jogadores a bordo: Bacigalupo, Ballarin, Maroso, etc). Faça jogos de memória, talvez sobre os livros que você leu (quem estava a bordo da Hispaniola na busca pela ilha do tesouro? Lord Trelawney, o capitão Smollet, o doutor Livesey, Long John Silver, Jim...). Veja se os seus amigos se lembrarão de quem foram os lacaios dos Três Mosqueteiros e de D’Artagnan (Grimaud, Bazin, Mousqueton e Planchet)... E se você não quiser ler “Os Três Mosqueteiros (e você não sabe o que estaria perdendo) faça-o, como vou saber?, com uma das histórias que você tenha lido.

Parece um jogo (e é um jogo), mas você verá como a sua cabeça se povoará de personagens, histórias, lembranças de todos os tipos. Você já se perguntou alguma vez por qual razão há um tempo os computadores se chamavam cérebros eletrônicos? É porque foram concebidos tendo como modelo o seu (o nosso) cérebro, entretanto, o nosso cérebro tem mais conexões do que um computador. Ele é uma espécie de computador que você leva consigo e que cresce e se torna robusto com o exercício, enquanto que o computador que você tem sobre a mesa, quanto mais você o usa, mais perde a velocidade e depois de algum tempo você precisará trocá-lo. O seu cérebro, ao contrário, pode hoje durar até os noventa anos, e aos noventa anos (se você o tiver exercitado) você se lembrará de mais coisas do que você se lembra hoje. É de graça.

Existe depois a memória histórica, que é aquela que não diz respeito aos fatos da sua vida ou às coisas que você leu, mas sim diz respeito àquilo que aconteceu antes que você nascesse.

Hoje se você for ao cinema, você precisa chegar na hora certa, quando o filme se inicia, e assim que ele começa alguém, por assim dizer, te pega pela mão e te conta o que está acontecendo. Nos meus tempos podia-se entrar no cinema a qualquer momento, mesmo que já estivesse no meio da sessão. A gente chegava quando já estavam acontecendo algumas coisas e procurávamos entender o que tinha acontecido antes (depois, quando o filme recomeçava do início, a gente via se tinha realmente entendido tudo direito – à parte o fato que se tivéssemos gostado do filme poder-se-ia ficar e assisti- lo novamente). Então, a vida é como um filme nos meus tempos. Nós entramos na vida quando muitas coisas já aconteceram, há centenas de milhares de anos, e é importante aprender aquilo que aconteceu antes que tenhamos nascido. Serve para entender melhor porque hoje acontecem muitas coisas novas.

Então, a escola (além das suas leituras pessoais) deveria ensinar você a memorizar aquilo que aconteceu antes do seu nascimento, mas se vê que ela não o faz tão bem, porque várias pesquisas nos dizem que os garotos de hoje, mesmo aqueles que já estão na universidade, se nasceram em 1990 não sabem (e talvez não queiram saber) o que aconteceu em 1980 (e não estamos falando daquilo que aconteceu há cinquenta anos). Dizem-nos as estatísticas que se você perguntar a alguém quem foi Aldo Moro responderá que era o chefe das Brigadas Vermelhas, e na verdade ele foi morto pelas Brigadas Vermelhas.

Não vamos falar das Brigadas Vermelhas, elas são algo misterioso para muitos, e mesmo assim, elas estavam presentes por ai pouco mais de trinta anos atrás. Eu nasci em 1932, dez anos depois da ascensão do Fascismo ao poder, mas sabia até mesmo quem era o Primeiro Ministro nos tempos da Marcha de Roma (o que é?). Talvez a escola fascista o tivesse ensinado a mim para me explicar como era estúpido e ruim aquele ministro (o Imbelle Facta – o não belicoso Facta – aqui vai uma nota da Nicole, Luigi Facta, o Primeiro Ministro que não conseguiu parar Mussolini) que os fascistas tinham substituído. Tudo bem, mas ao menos eu sabia. E depois, escola à parte, um garoto de hoje não sabe quem eram as atrizes de cinema de vinte anos atrás, enquanto eu sabia quem era Francesca Bertini, que fazia filmes mudos vinte anos antes do meu nascimento. Talvez porque eu folheasse as revistas velhas amontoadas no quarto de despejo da nossa casa, mas justamente, eu convido você a folhear velhas revistas porque este é um modo de se aprender o que aconteceu antes que você nascesse.

Mas por que é assim importante saber o que aconteceu antes? Porque muitas vezes aquilo que aconteceu antes, explica por que certas coisas acontecem hoje e, em todo caso, como no caso da escalação dos times de futebol, é um modo de enriquecer a nossa memória.

Preste atenção pois isso você não poderá fazer somente em livros e revistas, é possível fazê-lo também na internet. Que é para ser usada não somente para teclar com os seus amigos, mas também para teclar (por assim dizer) com a história do mundo. Quem foram os Hititas? E os Camisards? E como se chamavam as três caravelas de Colombo? Quando os dinossauros desapareceram? A Arca de Noé poderia ter um timão? Como se chamava o antepassado do boi? Existiam mais tigres cem anos atrás em relação à hoje? O que era o Império dos Mali? E quem falava sobre o Império do Mal? Quem foi o segundo Papa da História? Quando surgiu o Mickey?

Eu poderia continuar até o infinito, e seriam todas belas aventuras de pesquisas. E tudo isso é para ser lembrado. Chegará um dia em que você estará velho e se sentirá como se tivesse vivido mil vidas, porque será como se você tivesse estado presente na batalha de Waterloo, ou tivesse assistido ao assassinato de Júlio Cesar ou ainda estivesse a pouca distância do local onde Bertoldo o Negro, misturando substancias em um pilão para encontrar uma forma de fabricar o ouro, descobriu por acaso o pó de tiro, e voou pelos ares (e foi bem feito). Outros seus amigos, que não tiverem cultivado a memória, terão vivido somente uma vida, a deles, que deverá ter sido muito melancólica e pobre de grandes emoções.


Cultive a memória, portanto, a partir de amanhã, decore “La Vispa Teresa” [versinhos do tipo "batatinha quando nasce"].

Para quem quiser ler o artigo original, clique aqui para acessar o link

Até a próxima!

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