Sobre a mentira e suas consequências


A mentira é um tema bastante complicado de ser abordado em um post de blog, o risco de transformá-lo num textão que será lido por poucos é muito grande. Essa palavrinha implica na realidade uma reflexão muito profunda sobre a alma humana, seus medos e seus anseios. A mentira pode dizer respeito a frustrações, medos, problemas de autoconfiança. Ela pode ser um desvio de caráter, ou ainda pode representar uma patologia (mitomania é o nome! Pessoas que mentem compulsivamente) ou então pode representar traços, sintomas de patologias mais complexas como a psicopatia, por exemplo.

Fato é que desde que o ser humano é ser humano que a mentira existe. A mentira estava presente lá no velho testamento, na Bíblia. Caim mata Abel e Deus pergunta a Caim onde está seu irmão, e ele responde ao pai com uma mentira, dizendo que não sabia onde estava Abel e que ele não era responsável por saber dos passos do irmão. A mentira, a enganação foi também um dos dons que Pandora, a primeira mulher humana a povoar o mundo, recebeu de presente do Olimpo quando estava sendo forjada: Hermes foi o responsável por esse dom. A mentira, como uma contraposição da verdade, sempre foi tema filosófico de relevância e já foi bastante discutido ao longo da história do pensamento filosófico. Mas na realidade, neste post não quero elucubrar sobre a mentira em si, talvez em algum outro momento de inspiração eu traga para a conversa figuras proeminentes na história do pensamento filosófico, que em algum momento se ocuparam de discutir o assunto. Entretanto agora quero falar sobre os efeitos que a mentira causa nas pessoas.

Antes de falar sobre as consequências da mentira tanto na vida de quem mente quanto na vida de quem recebe a mentira, acho válido dizer que eu, Nicole, dentro da minha moral, da minha ética, não consigo encontrar nenhuma situação plausível em que seja justificável uma mentira ou uma inverdade ou uma omissão. Hoje esta é a minha premissa para todo o resto que irei discutir abaixo. Confesso que nem sempre pensei assim. Conviver com meu ex-marido me fez enxergar que relativizar as consequências de uma mentira é algo nefasto. É aquela história que de boas intenções o inferno está cheio. Meu ex sempre foi da opinião de que por pior que seja, a verdade é sempre preferível à mentira. Esse traço de personalidade dele às vezes me parecia um pouco duro, mas com o tempo fui enxergando a grandeza daquilo e hoje essa é uma lição que trago para a minha vida e só tenho a agradecer a ele por ter me ensinado a enxergar as coisas deste modo. Antes eu pensava que uma mentira ou uma omissão poderiam funcionar bem para poupar sofrimento a algum ente querido. Por exemplo: um médico tem em mãos os resultados de um exame e percebe a partir dali que o prognóstico do paciente é ruim, que ele terá poucos meses de vida. O médico deve poupar o paciente do sofrimento de saber que sua morte está próxima? Ou deve amenizar o diagnóstico, dizendo que sim, é sério, mas deixar aquela longínqua esperança, mesmo sabendo que em níveis percentuais essa esperança representa menos de 1%? Ou será que esse médico não deve, ao invés, ser honesto com o paciente para que ele entenda que sim, é preciso lutar, mas que apesar disso a chance de êxito é pequena e que ele precisará se preparar para o pior? Por mais dolorido que seja, hoje eu fico com a terceira opção. O paciente precisa ter o direito de conduzir o seu fim de vida e fazer seus tratamentos e suas reflexões sobre a sua existência consciente daquilo que ele tem. O médico deve apresentar a esse paciente os meios de lidar com essa expectativa de fim e o paciente precisa estar acompanhado por uma equipe interdisciplinar que o ajudará a chegar ao seu fim de forma digna e respeitosa. Entretanto, neste caso, a omissão e a mentira teriam, a meu ver, um efeito nefasto na vida do indivíduo: ser-lhe-ia tolhido o direito de pensar a sua vida e a sua morte. Ser-lhe-ia tolhido o direito de realizar seus sonhos mais secretos antes do fim. Existem inclusive casos lindos e emocionantes em que as pessoas de fato aprenderam a viver suas alegrias por saberem-se fadadas à morte antes do esperado.

A mentira é uma coisa egoísta. Quando bem intencionada, ela parte do principio de que o mentiroso é o conhecedor daquilo que é ou não é bom para o interlocutor que recebe a mentira, tirando assim do outro o direito legítimo de escolher o que é bom ou ruim para si. Quantas vezes maridos que traem escondem suas escapulidas das esposas e mesmo estando insatisfeitos com a vida a dois, não tem coragem de expor a sua infelicidade à parceira para que juntos consigam mudar a situação na qual estão ou ainda para pedir que o relacionamento termine? Esse marido tem medo da reação da esposa. Então aqui, além de egoísta, a atitude do mentiroso é covarde. Embora ele não se sinta confortável com ela como mulher, ele sabe das suas boas características como mãe, por exemplo, como pessoa, de uma forma geral. Ele sente-se agradecido por coisas que essa mulher fez por ele no passado e no presente e por isso decide que o melhor é manter suas escapulidas escondidas e continuar fingindo que aquele é um casamento maravilhoso. Vejam bem: este marido está tirando desta esposa a oportunidade de se olhar no espelho com mais clareza para que ela entenda a mulher que ela é. Ele está tirando dela o direito de ser verdadeiramente feliz e inteira, vivenciando de forma íntegra todas as suas faces: mulher, mãe, esposa, profissional. É preferível uma verdade que inicialmente poderá ser indigesta à uma mentira que nos faz viver um mundo que não existe.

Conte-me a verdade e eu decido se ela é ou não é boa para mim. Essa foi uma frase que ouvi esses dias. Título de uma postagem de outro blog. Na realidade eu a diria de forma diferente: conte-me a verdade, assim eu aprendo a lidar com as consequências que ela causará em minha vida. É sempre mais honesto que a gente lide com as consequências de uma verdade do que com as consequências de uma mentira. Porque é aquela historia: A verdade crava na nossa vida um fato real com o qual precisamos lidar. Cabe a nós, ao nosso psicológico, à nossa forma de enxergar a vida, lidar da melhor maneira possível com aquela informação. Não dá para escapar da verdade. Por mais que a mentira insista em estar presente, uma hora as máscaras caem e a verdade se apresentará imperativa diante de nós e esperará de nós uma reação (o que dependendo da natureza da mentira e do tempo em que ela vem perdurando pode vir a ser um problema para as partes envolvidas porque uma alma machucada pode reagir das mais variadas formas possível). A nossa vida é cheia de fatos que acontecem diariamente. Alguns influenciam diretamente a nossa vida, outros nem tanto. Mas é fato que quando temos uma verdade diante de nós com a qual lidar, por mais difícil, triste, nefasta que ela seja, temos ali um norte a ser trabalhado. Uma forma nova de se conduzir a vida. As verdades precisam ser aceitas, digeridas para que a nossa vida siga adiante. Não há nada mais triste do que viver preso a ilusões e depois de um tempo descobrir-se o tempo perdido que poderia ter sido usado em nome de nossa felicidade porque alguém decidiu por nós que aquela ilusão era melhor para a gente.

Ai, voltando ao exemplo do marido infiel, sabem quais são as consequências que a mentira do marido causa naquela esposa? Primeiramente aquela mulher vive em uma ilusão de que ela está fazendo tudo certo o tempo inteiro e de que o seu marido a ama e a deseja da forma como ela é. Talvez, se essa mulher soubesse, por exemplo, que o seu marido perdeu o interesse por ela por causa da forma como ela se veste para dormir, ela teria como discutir com ele sobre o assunto e eventualmente perceberia que com o tempo e a rotina ela ficou menos vaidosa do que era no início do casamento e que isso incomodava o seu marido. Quando nós não sabemos da verdade, não temos como mudar algum comportamento que é antipático ao outro. Ao descobrir a mentira, essa mulher (o mesmo vale para homens também) entrará em um estado de paralisia e enfrentará uma crise imensa de autoestima. É porque por mais legítima que seja a razão do desinteresse do marido na esposa, qualquer razão que ele venha a ter para não querer estar com a sua mulher torna-se pequena e perde a força diante da desonestidade que a mentira representa. O sentimento da traição no memento de descoberta de uma mentira gera na pessoa que sofreu aquela ofensa uma mágoa infinita, ela se pergunta o que de tão grave ela teria feito para merecer daquela pessoa que ela tanto admirava e com quem ela acreditava ter uma boa relação, honesta e verdadeira, uma traição assim tão grave.

E é neste momento que o mentiroso se vê em maus lençóis porque no momento em que uma mentira é descoberta, as reações do outro lado podem ser as mais diversas possíveis e podem representar, muitas vezes, diante da falta de confiança, o fim de um amor, de uma amizade, de uma relação de trabalho ou o que quer que seja. A pessoa que sofre a ofensa se questiona se aquela foi a única mentira já contada, ela se sente tão desrespeitada, tão pequena, tão traída que deseja buscar toda a verdade acerca daquela pessoa. E quando a coisa é grave e dura muito tempo, pode-se saber: se o indivíduo foi capaz de uma mentira, na realidade ele foi capaz de mais mentiras. Diante deste contexto a bola de neve só cresce. Dependendo da raiva que a mentira causa, todos perdem a razão na peleia e um assunto que poderia ser mais facilmente resolvido em uma conversa adulta com ambas as partes abordando verdades acaba se tornando uma guerra desgastante sem fim.

Estou aqui falando dos sofrimentos de quem recebe uma mentira, mas há que se falar também dos sofrimentos que permeiam a vida de quem mente. Medo é um deles. Amigos às vezes mentem para amigos com medo de perderem a amizade. Parece estranho que isso aconteça, não é verdade? Mas é aqui, mais uma vez, a falta de diálogo surgindo como sintoma de um mal maior. Amizades verdadeiras se baseiam na verdade justamente porque são para valer. O outro não precisa ouvir o tempo inteiro o que quer ouvir. O outro pode ou não concordar com o ponto de vista do seu amigo, mas ele não pode se negar a ouvir e o outro não pode se esquivar de dizer aquilo que ele julga ser a verdade. Muitas vezes a verdade simplifica as relações, gera empatia. Às vezes acontece de eventualmente num primeiro momento a pessoa ter uma expectativa com relação a um relacionamento e após a verdade dita pelo outro ela venha a descobrir que o que existirá será um padrão diferente de relacionamento frente ao que era esperado, mas que aquele relacionamento será bom e rico para ambas as partes.

Já vi, por exemplo, casamentos se desfazendo de forma absolutamente amigável, com a verdade permeando a relação, gerando assim respeito mútuo entre as partes e propiciando inclusive o nascimento de uma amizade entre aqueles que um dia se amaram como homem e mulher. No meu trabalho lido às vezes com divórcios e sei o quão devastadores eles são para o casal e sua família. Entretanto me orgulho de já ter visto situações em que a verdade ajudou casais a se tornarem amigos e inclusive se frequentarem como amigos após o início de novos relacionamentos amorosos.

A insegurança é outro sentimento que povoa a mente do mentiroso, e ela vem junto do medo. O mentiroso no geral tem muita dificuldade em se assumir como sujeito de sua própria vida. Então ele delega aos fatos externos os insucessos de sua caminhada, busca no outro culpados (olha a pior mentira de todas ai, a mentira para si mesmo) por coisas que eles próprios causaram. O mentiroso impõe a sua tirania ao outro e a si mesmo. Ele não percebe o quão relativo é o mundo e em seu universo limitado não enxerga quantos mundos podem se abrir diante dele somente pela boa vontade de se colocar na pele do outro se perguntando “como eu me sentiria se estivesse no lugar dele”? Será que ele vai se sentir traído? Será que ele vai se sentir negligenciado? Desimportante? Desrespeitado? Abandonado? Ridicularizado? Às vezes uma verdade vai gerar raiva no outro, vai causar o choro, vai fazer com que haja um afastamento das partes, mas há ainda uma predisposição ao perdão muito maior por parte de quem recebe a verdade do que por parte de quem recebe a mentira. Há mérito moral em assumir uma falha sua frente ao outro. A tolerância se faz presente neste momento porque não obstante aquela verdade possa causar dor, ela gera aos olhos da parte que ouviu uma verdade indigesta uma benevolência porque esta parte reconhece a grandeza do gesto do outro e olha também para dentro de si, lembrando-se um ser humano, também cheio de falhas e imperfeições.

Para concluir esta reflexão, volto a bater na tecla de que não existe e nem nunca existirá neste mundo, por melhores que sejam as intenções, uma razão plausível para não se dizer a verdade a alguém, principalmente a alguém de quem se gosta e com quem se tem algum tipo de relação, seja ela amorosa, de amizade, de trabalho, familiar. A verdade leva ao crescimento moral e ético, eleva a capacidade das partes de relativizarem os seus próprios mundos ampliando a sua forma de enxergar e compreender a vida, trazendo, portanto amadurecimento. A verdade também traz a empatia das partes frente aos sentimentos que cada um nutre pelo outro. A verdade aproxima. Apesar do baque inicial, ela fomenta amizades, recupera amores tidos como perdidos. A verdade traz o perdão, ela une as pessoas, ao passo que a mentira distancia, gera rancor, tristezas, inimizades e desamores.

Por um mundo mais verdadeiro para todos nós!


Até a próxima!

Comentários

Muito bacana Nicole!!! Mentira tem perna curta!
Muito bacana Nicole!!! Mentira tem perna curta!

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