Sobre o empoderamento feminino

Estou correndo o risco de já começar a ser julgada somente por causa do título deste post. Empoderamento virou palavra da moda. Virou também palavra que remete à ideia de “feminazis”. Ontem, eu estava conversando com um amigo num passeio na Praça da Liberdade e de repente estávamos ali rindo porque existem muitas pessoas que me consideram feminista pelas ideias que tenho, e tantas outras que me julgam machista pelas mesmas razões.

Vejam bem: não sou uma pessoa bipolar que hoje pensa de um jeito e amanhã pensa de outro. Não, não mesmo. Eu sou uma pessoa que tem muita firmeza nos seus ideais. Mas então, por que as pessoas pensam isso de mim?

George Bernard Shaw

Ontem, rindo muito com esse meu amigo sobre essa questão, cheguei à conclusão de que as pessoas são realmente muito obtusas e não sabem ao certo o que venha a ser de fato o feminismo. Chamam-me de machista, por exemplo, quando compartilho na minha timeline do facebook uma postagem como essa ai da foto ao lado, que diz: “não existem somente homens que querem sexo de uma mulher. Existem também mulheres que não possuem nada mais para oferecer”. Essa frase foi atribuída a um escritor irlandês George Bernard Shaw. Na verdade Shaw foi dramaturgo, romancista, contista, ensaísta e jornalista. Ele foi um cara controverso, que nasceu no século XIX e como muitos outros naquele momento, em vários aspectos, era um homem à frente do seu tempo. Socialista ferrenho, Shaw era na época um dos poucos defensores da posição das mulheres como seres pensantes na sociedade. Ele escreveu romances, contos, críticas, folhetins políticos em prol do socialismo e também muitas peças de teatro. Uma delas, inclusive, a Pigmaleão, se não me engano de 1913 que acabou inspirando um filme com o mesmo nome em 1938 e mais tarde, em 1956 o musical “My Fair Lady”, que foi adaptado para o cinema em 1964.

Vejam bem: Shaw nasceu no século XIX e morreu nos anos de 1950, apesar de progressista, ele era um homem fruto de seu tempo. Porém, cabe ressaltar que mesmo assim, ele realmente foi uma figura que lutou muito ideologicamente pelos direitos femininos. Em uma entrevista, dada à Hayden Church para o jornal “Liberty” de 07 de fevereiro de 1931, que vocês podem ler num livro belíssimo chamado “A Arte da Entrevista”, o jornalista faz ao Sr. Shaw a pergunta que vou reproduzir aqui com sua resposta:

Por que, na sua opinião, as mulheres têm derrotado os homens em tudo nos últimos tempos? Amy Johnson, por exemplo, e a outra inglesa que conquistaram a Taça do Rei de corrida aérea e o Prêmio do Rei no campeonato de rifle de Bisley
O que há de tão surpreendente nisso?, Perguntou Shaw. Foi um avião que voou para a Austrália e não a senhorita Johnson. Ela apenas dirigiu o avião. O Prêmio do Rei foi conquistado por um rifle. Existe alguma razão para que os olhos de uma mulher não possam alinhar uma alça de mira, e para que ela não use a inteligência para calcular o vento e puxar o gatilho tão bem quanto um homem? Se o senhor ler o jornal de hoje verá que muitas mulheres tiveram bebê ontem sem a ajuda de nenhuma máquina. Prove que um homem conquistou um feito tão surpreendente e difícil e nós vamos poder sentar e discutir o significado da sua vitória com seriedade.

Lendo essa resposta dada pelo dramaturgo, pensando no que era a condição da mulher no ano em que essa entrevista foi dada, é indubitável que Shaw, se é que essa frase realmente seja dele, não tinha a menor intenção de ir contra os seus princípios feministas ao dizê-la. Entretanto, existe sim um machismo intrínseco a ela. Mas esse machismo não é algo que vem exatamente do sentimento do homem que pronunciou essa frase, mas sim, vem do comportamento machista da sociedade que nos ensina a sermos machistas, sejamos nós homens ou mulheres. Complexo, não é?

Mas o que é empoderamento?

Então voltemos à palavra batida do título desse post: Empoderamento. O que ela significa de fato? Essa palavra surgiu pela primeira vez em inglês, Empowerment, e diferentemente do que muitos pensam, ela não está necessariamente ligada à questão da luta por igualdades sociais do universo feminino. O conceito é mais amplo. Ele diz respeito a uma tomada de consciência individual e coletiva daquilo que se é como indivíduo e como ser social que pode contribuir para a melhoria de sua vida e da vida da sociedade. O ato de empoderar-se é um processo emancipatório, o indivíduo se dá o poder para viver a vida da forma como escolheu. O indivíduo torna-se consciente das decisões que toma, ou seja, é dono delas, conhece suas capacidades e possibilidades de contribuição para a melhoria de sua vida e para a vida em sociedade. Uma pessoa que passa pelo processo de empoderamento se torna mais produtiva tanto no âmbito pessoal quanto no âmbito profissional. Ela vive de forma mais plena e feliz os seus valores, passa a ter um senso de pertencimento e reconhecimento social, se engaja mais socialmente, e ai o perigo: torna-se menos suscetível a manipulações de qualquer natureza.

Aqui a gente pode elucubrar longamente sobre esse conceito e também sobre a posição que as pessoas geralmente assumem socialmente que são contrárias àquilo que o empoderamento preconiza. Mas para tentar não delongar acima da média aqui, ficando sempre dentro da esfera do feminino, e voltando à frase de Shaw que eu postei no meu facebook e acabou gerando algumas reações contra mim, acusando-me de machista, vamos prosseguir.

Mulheres Adormecidas

Fui chamada de machista por causa de uma frase que traz ideias machistas que foi teoricamente proferida por um feminista no século XIX. Sentiram o tamanho do drama ai nisso que eu disse acima? Afirmei que Shaw era, apesar de feminista, um típico produto de seu tempo. Isso todos nós somos. Estamos todos inseridos culturalmente numa sociedade geradora de valores. Às vezes é muito complicado a gente se desvencilhar deles ao julgarmos qualquer coisa. Ontem, pensando essa frase, conversando com esse meu amigo, que é um feminista de marca maior, consegui me fazer entender.

Shaw tem razão ao fazer essa afirmação de que existem mulheres que só possuem o sexo para oferecer. Ele disse isso em algum momento entre a metade do século XIX e o início do século XX. Imaginem como eram as mulheres nessa época. Poucas tinham consciência do que elas são, do que elas são capazes de ser. Muitas estavam ainda presas naqueles dilemas tão lindamente retratados no filme “Sorriso de Monalista”, de Mike Newell. O universo feminino estava preso num monte de preconceitos e numa série de comportamentos que eram adequados e inadequados para uma mulher "de bem". É aquela distinção que ainda hoje conhecemos daquilo que vem a ser uma mulher para casar e uma mulher para foder. Morri de rir com meu amigo ontem quando disse a ele que recentemente ouvi de um rapaz com quem eu saía que eu sou uma mulher que o deixa confuso, que às vezes ele acha que eu sou pra casar e às vezes ele acha que eu sou pra sexo. Podem rir de mim, mas não me ofendi com ele quando ouvi isso. Sabem o que fiz? Eu ri! Eu ri e disse para ele que ele poderia ficar tranquilo, porque eu não o considerava um homem para casar e que na atual conjuntura (já que não temos mais saído como antigamente) nem para sexo. Nem olhem para mim com esse olhar de censura: toda mulher que se preza possui um ou mais pilantras no seu currículo sentimental, isso não é demérito para ninguém! O que se deve fazer é saber colocar os pontos finais na hora certa: um sujeito que ainda pensa dessa forma obtusa e não consegue enxergar quantas mulheres podem habitar uma mesma mulher, não merece a honra de sair comigo, concordam? Olha o empoderamento ai!

Onde mora o machismo?

Mas então, voltemos à frase de Shaw. Sabem por que ele tinha razão e por que infelizmente ele continua tendo razão? Sabem onde é que está o machismo desta frase e por que não responsabilizo o seu autor por esse machismo? O machismo desta frase, gente, está nas mulheres que ainda não passaram por esse processo de tomada de consciência daquilo que elas são e efetivamente se apresentam por ai tendo SOMENTE O SEXO para oferecer. Não posso responsabilizar o autor da frase por um machismo que não está nele, e sim nas mulheres que ainda não tomaram consciência daquilo que elas são. É aquela história: um machista não é necessariamente criado por um pai machista. Ele passou muito mais tempo de sua vida durante a infância com a sua mãe. Foi, portanto, uma mulher quem o ensinou a ser machista. Não esqueço de uma vez, eu estava numa confraternização com meu ex-marido quando escutei de uma das presentes que ela havia comprado inúmeros livros sobre como criar meninos, visto que ela tinha dois “filhos homens”. E ela nos explicou que havia feito isso porque ela estava plenamente consciente de que criar meninos é muito diferente de criar meninas. Merece um minuto de silêncio, não é mesmo?

Mulheres Empoderadas

Então, gente, a frase atribuída a Shaw vai continuar muito atual enquanto a mulherada não passar por essa tomada de consciência. Quanto maior o número de mulheres empoderadas, donas de si, menor será o número de crimes contra elas, de desrespeito contra elas em ambientes corporativos. Formigas conseguem carregar aquele monte de comida para o ninho porque elas trabalham juntas, porque uma sozinha não conseguiria carregar tanto peso. Enquanto o grito for de poucas, o mundo continuará assim: alvejando mulheres socialmente por causa de infidelidades vazadas pela internet, por exemplo.

E gente, não achem que eu sou dessas que vai pras ruas mostrar os peitos e ficar gritando trechos de Karl Marx. Não sou. Meu processo de empoderamento sai de dentro pra fora. As nossas ações externas são somente um reflexo daquilo que a gente escolhe pra gente como pessoa. Ser feminista não é ficar mostrando na internet fotos das minhas mãos sujas de sangue menstrual e dizer que as pessoas precisam aprender a ver esse tipo de imagem com naturalidade. Digo isso porque eu não vejo cenas de feridas feias com naturalidade também.

O processo é mais sutil. Diz respeito àquilo que se vai ou não permitir que o outro faça com você. Diz respeito àquilo que você sonha e deseja para você. Diz respeito à liberdade que você espera para você e para o outro que vive a seu lado. O processo de empoderamento diz respeito ao exorcismo do machismo que cresceu dentro de nós, por sermos invariavelmente fruto dos nossos tempos. Diz respeito a nos sentirmos mais atuantes socialmente visando melhorar a nossa vida e a vida do outro.

Bom, era isso que eu queria falar hoje em resposta a quem não curtiu a minha postagem me acusando de machista. Não sou eu a machista, machista é a sociedade que infelizmente continua a nos moldar e que tira das mulheres a consciência de que elas sempre terão muito mais a oferecer a qualquer pessoa, não só a um homem. O dia que elas aprenderem quantas mulheres habitam o seu espírito elas deixarão de se preocupar com o que não importa e vão se preocupar mais com a sua essência.

Obrigada por me ler até o final!


Até a próxima!

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