Sobre o ano que termina

Esse ano não quero parar aqui e escrever um texto sobre o quanto a vida tem sido dura comigo, ou como o ano de 2015 que se passou foi complicado e cheio de tomadas de decisões difíceis e definitivas para a minha vida. Nem quero fazer aqui a vez da guru para mostrar os caminhos que eu segui para vencer as dificuldades que tive e ainda estou tendo este ano. Escrever sobre isso seria de um lado chover no molhado e de outro tentar colocar de forma heroica a minha vivência das adversidades como se eu fosse um exemplo superlativo de superação. Falar neste tom seria ainda me colocar numa posição professoral que muito tem me incomodado, pois a cada dia que passa, mais eu questiono os “mestres” e doutrinas que me são apresentados.

Pode até ser que um dia eu venha a me arrepender disso que eu disse acima e do que vou dizer agora. Sei lá o dia de amanhã? Vai que eu descubro uma “veia poética” pra ganhar dinheiro em cima disso? Mas hoje posso afirmar a vocês que tenho horror a autoajuda e que desconfio de todas as fórmulas perfeitas de se atingir a felicidade e o sucesso na vida profissional e pessoal. Eu não trilhei o caminho ideal, já perdi muitas batalhas e minhas vitórias nunca vieram sem um monte de desacerto no caminho, portanto, não há fórmula mágica mesmo a ser seguida. Assim como Jesus carregando a cruz, a gente segue levando a nossa caminhada pingando sangue e suor, sempre em frente, como diria Legião Urbana, pois não temos tempo a perder. Cada um trilhou o seu caminho seguindo-o da forma como deu e no ritmo que deu.

Diante disso, a primeira coisa, portanto, importante de ser dita é: 2015 foi um ano difícil para todos nós, cada um com suas lutas e seus limites sendo vencidos. A rapadura é doce, mas não é mole, concordam? Sempre tentando não voltar ao que já foi, seguindo os conselhos do sábio Sêneca, que dizia em seu livro “Sobre a Brevidade da Vida” que a morte não está no nosso futuro, mas sim nas coisas que já passaram, quero fazer aqui hoje como Lucio Dalla fez na música “L’anno che verrà” (o ano que virá). Na música, ele escreve uma carta para um amigo falando sobre o ano que virá. Coloca inúmeras previsões otimistas e edificadoras, coisas que tiram qualquer caboclo sofrido da posição de dor nos ombros para ter esperança de um ano seguinte com menos atribulações.

Convido então quem me lê a fazer uma breve retrospectiva mental agora para um levantamento: dentre todas as coisas que nós fizemos esse ano que se passou e aquelas que nós permitimos que os outros fizessem conosco, quais são as experiências que você escolhe eliminar da sua vida?  Exercício importante esse. Se queremos um próximo ano melhor precisamos estar dispostos a cortar tudo aquilo que é tóxico de nossas vidas e que nos impedem de seguir em frente em nosso estado de evolução.

Sabem uma outra coisa que desejo a vocês nesse próximo ano? Vou provoca-los com mais um convite: Vamos todos tentar nos colocar como protagonistas das nossa própria vida? Sabem por que eu falo isso? Em geral, quando tudo dá errado, temos o hábito de nos colocarmos como vítimas das circunstancias e delegamos a culpa, a responsabilidade pelo infortúnio ao outro. É batata! Ahhh meu chefe sacaneou comigo! Ok, ele é um cara bem desonesto, te sacaneou, mas o que você fez para evitar que aquela sacanagem te atingisse? Tenho repetido para mim mesma como um mantra essas palavras: "eu não tenho nenhum controle sobre aquilo que vem do outro para mim. Entretanto, posso controlar como vou me sentir diante daquilo". Esse foi um ensinamento que eu tive aos 12 anos, lendo “Cartas da Resistência Europeia” e que hoje faz mais sentido para mim do que naquela época. Lá atrás, ao ler esse livro, eu sofri junto dos condenados à morte e chorei as mortes de cada um deles. Senti-me na pele de seus entes queridos que ficaram para ler aquelas últimas palavras antes do cumprimento da pena. Entretanto, naquele momento eu não tinha a compreensão que tenho hoje desse valor estoico que é o aprender a nos adaptarmos àquilo que temos. O bom e velho ditado que diz “quando não há remédio, remediado está”. Hoje admiro ainda mais aquelas pessoas do livro pela resiliência com a qual aceitaram o destino que lhes havia sido imposto e ainda tentaram utilizar aquele último suspiro de vida que lhes era concedido para dar algum tipo de ensinamento e de esperança para quem viveria mais do que eles. Altruísmo elevado à máxima potência.

A verdade é que ao sermos vítimas da vida perdemos tempo de vida e entregamos a nossa treva, o nosso sofrimento de mão beijada para a morte. Horácio, poeta romano, naquele famoso poema Carpe Diem (expressão extremamente utilizada pelo mundo afora e muito pouco compreendida) dizia no penúltimo verso do mesmo poema que “Enquanto falamos a Odiar-nos já se foi o tempo”. E tempo é algo que não temos, considerando a finitude da nossa vida. E sabem de uma coisa? O que faz com que a nossa vida seja estimulante é justamente isso. Vocês já imaginaram como seria insuportável para nós humanos a eternidade? Ela é tão buscada, não é verdade? Temos inúmeros subterfúgios hoje para prolongar a nossa juventude, para tratarmos da nossa saúde, mas ainda não conseguimos ser eternos. E é justo que não o sejamos. É preciso que tenhamos uma vida rica em experiências e crescimento, que faça sentido para nós e para aqueles que amamos e que vivem ao nosso redor, para então podermos ao fim descansar com aquele suspiro de dever cumprido. Isso é plenitude.

Lembram-se daquela lista que pedi para vocês fazerem das coisas que vocês não querem mais para as suas vidas? Pois é... não a façam para entrarem em depressão. Não permitam que ela gere arrependimento em vocês. Não é para isso que ela serve. Posso pedir mais uma coisa? Para o próximo ano, cortem da vida de vocês a palavra arrependimento. Não serei aqui metafísica ou religiosa ao dizer que as coisas aconteceram exatamente da forma como deveria ser. Mas vou dizer a vocês exatamente isso: ao fazermos escolhas, pensamos, ponderamos. Muitas vezes agimos tomados por sentimentos que podem ou não ser nobres. Mas temos que nos lembrar de nossa eterna natureza humana. Somos perfeitos dentro da nossa imperfeição e sempre, no momento em que tomamos uma decisão, por melhor ou pior que ela seja, foi ela que foi tomada, e jamais saberemos o que teria sido se a decisão fosse outra. Melhor não perdermos tempo pensando demais nisso. Deu certo? Bola pra frente! Deu errado? Bola pra frente outra vez (claro, entendendo o que deu errado pra fazer diferente em outra circunstância. Somos loucos, mas não somos burros).

Quero ainda desejar a vocês uma coisa absurdamente clichê nessa época do ano: Amor. Ohhhhh quanta nobreza! Sim, amor. Mas amor de verdade. A experiência do amor é talvez uma das coisas mais sublimes que um ser humano pode vivenciar ao longo da sua existência. E amor não é aquele sentimento dedicado única e exclusivamente aos casais apaixonados. Quando falo de amor vou além. Quando um casal está com aquele comichão de estar junto, ele não está necessariamente se amando. O amor vem depois, é construído com muita dedicação, suor, lágrimas, perdão, aceitação. Amor é coisa mais complexa. Mas não se acanhem por isso. Amem, amem! E lembrem-se sempre da sabedoria de Pai Velho que se ninguém passou para vocês, aprendam agora: Não se pede de volta o amor que se dá. Ele vem espontâneo, e a gente na verdade não o dá, a gente o doa. Então lembrem-se sempre que apesar de sublime, corremos o risco de eventualmente não recebermos de volta daquela pessoa tudo aquilo que demos. Mas não se preocupem. Pode não voltar na hora, mas uma hora a gente encontra do outro lado alguém que faça por nós o que nós fizemos por outro alguém. Quem me ensinou isso foi uma pessoa muito especial que fez parte da minha vida por muitos anos. Ele era de uma família simples, estudou com sacrifício e tornou-se alguém na vida. Durante os tempos de luta, pegava muitas caronas com seus amigos. Foi então que prometeu que assim que tivesse um carro, daria de volta a quem precisasse todas as caronas que ele havia recebido. Drexler canta: cada um dá o que recebe e logo recebe o que dá. Nada é mais simples, não há outra norma, nada se perde, e tudo se transforma.

Embalada nesse aprendizado ai acima, trago a vocês o meu próximo pedido: sejam gentis! Sim, parece bobagem, mas sejam gentis, principalmente com vocês mesmos. A nossa intolerância com as nossas falhas e com aquilo que fazemos de errado na vida talvez seja o nosso maior algoz. Nós sabemos ser perversos conosco. A vida pode ser muito dura, injusta às vezes, mas tenho entendido que apesar de tudo não existe desculpa para não se ter um sorriso no rosto e uma palavra de amor. Sim, somos seres humanos e às vezes não conseguimos segurar a raiva e outros sentimentos afins. Ok. Neste caso, quando não há meios de ser gentil, talvez seja prudente que tentemos não ser desagradáveis. O silêncio é o melhor conselheiro.

E falando em silêncio, aqui vai um pedido que na verdade é o conselho mais clássico que dou àqueles que amo quando os vejo em dificuldades: fiquem em silêncio, concentrem-se, respirem e bebam bastante água. Respirar é notoriamente uma das formas de mantermos o nosso autocontrole. Respirar corretamente nos ajuda a ter uma boa fluência verbal. Nos ajuda a cuidar da nossa voz, principalmente a nossa entonação. Vocês pensam que não? Aprendi isso nas aulas de canto. De onde vocês acham que as sopranos tiram aqueles agudos? Elas aprenderam a respirar. Respirar oxigena o nosso cérebro e nos ajuda a pensar quando não sabemos o que fazer. Quanto à água, vejam bem: água é parte principal da composição do nosso corpo. A água limpa tudo aquilo que está sujo. Quando aliada à respiração, ela ajuda no processo de retorno ao estado de calma e equilíbrio do qual saímos. Às vezes é preciso um pouco mais de silêncio para concentrar na respiração e fazê-la durante dias a fio, bem como aumentar as doses da terapia da água. Tudo depende do problema que estamos precisando resolver. Mas olhem, sempre funciona. E na hora que vocês respirarem, beberem água, se acalmarem, olharem para trás e verem que fizeram merda, não se acanhem! Com o coração aberto, partam para o meu próximo pedido!

Peçam perdão e perdoem! Gente, só quem viveu coisas complicadas na vida sabe o quanto é difícil a gente entender a falha do outro conosco. Perdoar não é esquecer e pedir perdão não é fingir que está tudo bem, que o outro esqueceu e que pode errar o mesmo erro outra vez. O perdão é uma tomada de consciência de um comportamento errado em relação ao outro. O pedido de perdão sincero deve redimir porque o arrependimento que o instigou vem com o aprendizado. Não é porque não somos mais crianças que paramos de errar. Vamos errar pelo resto da vida e o outro com o qual convivemos também vai errar. Podem agora me chamar de clichê novamente, mas que atire a primeira pedra! Quem nunca? Não exija do outro aquilo que nem você consegue dar. Se estamos neste mundo a perfeição não nos pertence. Lembrem-se sempre somos perfeitos dentro da nossa imperfeição.

Por último, peço que valorizem muito a sua família e o seus amigos, que se tornam também família com o tempo e a convivência. A família é vínculo de sangue. Mas amigo é família que a gente escolhe que faça parte de nossas vidas. Cuidem bem dos que te amam. Cuidem bem dos familiares e amigos que vocês tem. E lembre-se de aumentar essa família em 2016! Façam mais amigos. Façam novos amigos. Cerquem-se de pessoas de bem, que te amam, que às vezes vão ficar muito, mas muito putas com vocês a ponto de dizerem que te odeiam. Mas lembrem-se sempre: o ódio é o amor adoecido. Depois de bastante água e de se respirar muito, ele volta a ser o amor. Paixão pode acabar, mas amor nunca morre. Pode mudar de lugar, mas a tendência é que ele cresça sempre mais e mais.

Era isso o que eu queria desejar a todos vocês nesse fim de ano. Ahhhh escutem a música do Lucio Dalla, ela é bonitinha e mesmo sem saber falar italiano no final vocês vão estar cantando com ele!

Boas Festas e até a próxima!



Comentários

Postagens mais visitadas