Sobre a indiscrição do mundo moderno

Pois hoje, enquanto eu estava lá na sorveteria Alessa, me deleitando com um prato delicioso de sorvete de canela com bananas e calda de limão, eis que meu celular apita com uma nova mensagem. Era o e-mail me avisando que o meu facebook havia acabado de ser logado por um dispositivo móvel proveniente de uma localidade que não vem ao caso aqui, mas que estava bem longe daqui de BH, em outro estado.

Na hora pensei comigo: que saco! Quem é que precisa acessar meus dados no facebook? Será que é alguém querendo xeretar minha vida? Será que é um hacker sem o que fazer que invadiu ali somente para se sentir “o inteligente” por ter conseguido quebrar a minha senha? Ou ainda, será um malfeitor querendo fazer uso de dados meus para cometer algum tipo de crime? Honestamente, eu não sei.

Na hora muito brava com aquilo, segui todos os passos do facebook, reconheci minha conta, conferi se havia alguma curtida ou postagem que eu não havia feito, aumentei o meu esquema de segurança e troquei a senha. Feito isso, postei na minha timeline brevemente o que havia acontecido e terminei de degustar o meu sorvete. Afinal de contas, depois de um dia longo de trabalho, eu realmente merecia relaxar e não estava nem um pouco feliz com aquela intromissão inoportuna.

Agora, aqui na minha casa, sentada diante do computador, pensando nos porquês da vida, isso me veio à tona novamente. Olhem só que mundo indiscreto esse no qual vivemos. Vocês acham que nossos dados estão seguros na net? Claro que não estão. Vocês sabem exatamente o quanto nossas informações valem? Depende. Certa vez eu estava montando um planejamento de uma ação de marketing para o lançamento de um empreendimento imobiliário na região da Pampulha, aqui em BH. Tratava-se de um residencial que atenderia muito bem a um publico especifico de pessoas que trabalham tanto no setor público, na Cidade Administrativa do Estado de Minas Gerais, quanto a quem trabalha no setor de aviação, dada a proximidade do local com o aeroporto da Pampulha e também o de Confins. Como não eram muitas unidades do empreendimento, resolvi tentar explorar setores específicos, bem como desenhar estratégias locais para buscar o envolvimento de quem já morava no próprio bairro para levantar possíveis clientes para o produto.

Vocês me perguntam: por que a Nicole está contando esse caso pra gente? Então, estou contando esse caso porque assim que eu tive um insight de qual seria o público alvo das minhas campanhas eu precisei definir como chegaria até eles. Uma das formas seria mala direta. Mas espere? Para quais endereços, quais pessoas eu mandaria a mala direta? Pergunta de um milhão de dólares, não é mesmo? Bom... não foi nada difícil resolver esse dilema. Bastou que eu ligasse para empresas de mailing para que eu orçasse as informações que eu precisava dentro dos segmentos que eu precisava. Então, eu queria informações de contato de pessoas que viviam no bairro em questão e bairros adjacentes, queria informações de contatos de pessoas que atuavam no setor de aviação civil e também queria informações de quem ia para a cidade administrativa para trabalhar. No momento em que defini o perfil procurado, recebi ao menos 5 orçamentos de empresas diferentes de bancos de dados contendo as informações que eu buscava.

Pois é: a pergunta anterior era quanto valem as nossas informações? A resposta continua sendo depende. Depende da empresa que vai comercializá-las. Umas o fazem mais barato, outras mais caro. E como sabemos que nossos dados estão sendo vendidos? Sabe aquela hora, que você está entrando no cinema, ai uma mocinha do telemarketing de uma empresa com a qual você nunca teve relacionamento te liga perguntando se você gostaria de adquirir um novo pacote de tv a cabo? Bingo! Ou então quando chega pra você um cartão de crédito pronto para o desbloqueio vindo de um banco com o qual você não tem relacionamento? Bingo!

Ahh mas eu não autorizei ninguém a divulgar meus dados! Bom... ai é uma questão mais séria, que tem relação com o imediatismo com o qual as pessoas fazem as coisas na Web. As pessoas em geral não leem os termos de usos de programas, não leem termos de usos de adesão de sites de relacionamento, saem clicando “ok, concordo” em tudo e depois acham que não autorizaram nada. Ledo engano.

Mas por que estou falando tudo isso? Estou falando tudo isso porque nesse mundo fluido no qual vivemos, está cada vez mais difícil mantermos em sigilo quem somos, o que fazemos, do que gostamos, com quem nos relacionamos. Parece um exagero quando as pessoas dizem que vivemos um Big Brother contínuo, mas não é mentira, gente! Estou me lembrando aqui de uma palestra do historiador Leandro Karnal na qual ele diz que certa vez, conversando com um psiquiatra que trabalhou em manicômios nos anos 1970, ele ouviu do profissional que os loucos eram na realidade visionários, estavam prevendo o mundo no qual vivemos. Os neuróticos se sentiam perseguidos o tempo inteiro por uma câmera. Se pararmos para pensar friamente, nós somos o tempo inteiro perseguidos por câmeras. Algumas que filmam o prédio onde moramos e onde trabalhamos. Câmeras de segurança nas ruas, câmeras de segurança nas escolas. Enfim: sorria, você está sendo filmado.

Um tempo atrás eu estive quase desfazendo em definitivo a minha conta no facebook. Eu estava incomodada com a quantidade de pessoas que estava vasculhando a minha vida e eu sentia que talvez aquilo ali fosse algo que não seria bom para mim. Então refleti, refleti e concluí que talvez eu estivesse fazendo aquilo ali errado. Eu preciso das redes sociais para divulgar o que escrevo. Utilizo as redes também para me relacionar com pessoas que vivem longe de mim e com quem prezo manter contato. Então, percebi que eu sair do Facebook e de outras redes sociais não faria o efeito que eu gostaria, e me dificultaria o processo de tornar públicos os meus blogs.

Foi então que comecei a pensar mais a respeito sobre a natureza das redes sociais, a sua função social, a sua função como ferramenta de marketing. E pensei também em quem eu sou, quem eu procuro ser e quem eu demonstro ser. Refleti ainda sobre o mundo no qual vivemos, os valores que estão sendo semeados e colhidos (tudo tem acontecido muito rápido ultimamente) e foi então que concluí o seguinte: Se eu tenho vergonha de dizer algo em público, eu não devo postar isso no facebook. Se eu quero que somente um pequeno grupo de pessoas saiba de algo, eu também não devo postar isso no facebook, é melhor contar pessoalmente esse ou aquele fato para as pessoas que quero que fiquem sabendo das coisas. Isso, gente, porque facebook não deveria ser lugar de lamúrias, brigas de egos, brigas de casais, lugar de exposição de intimidades. E foi assim que decidi que a partir daquele momento, toda e qualquer publicação que eu fizesse no facebook seria pública. Sim, pública! Quem me conhece e quem não me conhece poderá ver tudo. Minha vida no facebook é um livro aberto para quem quiser me ver e me conhecer. Sou eu quem precisa controlar o que é veiculado. Sou eu quem precisa ser a censura. Sou eu quem precisa ter o bom senso de entender o que é ou não adequado.

Decidi isso por entender o quão frágeis são essas redes. As pessoas, quando querem ter a informação, conseguem. Fico aqui pensando com os meus botões o quão complicada deve ser a vida de tarados que se inscrevem em sites de fetichismo e pornografia anonimamente acreditando que o número do IP deles não poderá nunca ser rastreado e que ele nunca será descoberto. Hello!! Pedófilos são presos todos os dias, graças a hakers competentes que sabem distinguir dentro dessa rede insegura que temos os tráfegos de informações. Quando a gente se cadastra em qualquer lugar, os nossos dados que são pré-requisito para o cadastro ficam arquivados. Para onde isso vai? Não sabemos. Mas cada vez mais entendo que talvez das coisas mais valiosas que existem no mundo hoje seja a informação.

No setor em que trabalho, o imobiliário, essa é a tônica. Ganha mais dinheiro quem tem mais informação. É preciso saber quem são os maiores investidores, é preciso saber o nome do dono de imóveis importantes, isso são levantamentos absolutamente sigilosos que andam pra cima e pra baixo com todo bom corretor de imóveis em sua agenda do celular e em seu banco de dados de e-mails. Pastas com nomes de proprietários de imóveis são vendidas entre profissionais e imobiliárias pouco sérios e pouco comprometidos com seus clientes, pois eles juram sigilo de um lado, e de outro comercializam a informação em troca do melhor retorno.

Vivemos o mundo de nudes vazados, fetichismos escancarados apesar de anonimatos. O google indexa tudo. De vez em quando jogo meu nome completo no google para saber o que o mundo tem sabido a meu respeito. Parece loucura, mas não é. Isso é só sinal dos tempos. Tempos loucos, tempos indiscretos, tempos inseguros e por fim, tempos vazios.

Meu facebook está recomposto. Mas cada dia que passa mais me pergunto quando é que o mundo vai se recompor.


Até a próxima!

Comentários

Postagens mais visitadas