Sobre a Beleza, a Arte e o Amor

No sólo es luz que cae sobre el mundo
lo que alarga en tu cuerpo
su nieve sofocada,
sino que se desprende
de ti la claridad como si fueras
encendida por dentro.

Debajo de tu piel vive la luna.

Pablo Neruda

Impossível começar a falar sobre a beleza, a arte e o amor sem citar esses versos finais de Oda a la bella desnuda de Pablo Neruda. Neruda nesta celebérrima Ode fala sobre o que ele experimenta ao ver desnudada a mulher que lhe suscita o amor. A descrição inteira de sua nudez é talvez uma das coisas mais lindas que alguém já escreveu em poesia, e vem de encontro justamente com o que quero falar agora: o que é beleza? O que é a arte? O que é o amor? E qual a relação existente entre esses três conceitos?

Antes de ontem me deparei no facebook com uma postagem da Caffeina, uma revista italiana que sigo, que me fez assinalar a nota mental de que eu deveria parar hoje para escrever a respeito. O texto dizia assim: “Lei non era bellissima, ma era come arte. E l’arte non deve essere bellissima, deve farti provare qualcosa”. Traduzindo livremente: “ela não era belíssima, mas era como a arte. E a arte não precisa ser belíssima, mas precisa fazer-te sentir algo”. Essas palavras me tocaram profundamente.

Quando li isso pelo celular eu estava entrando no elevador do prédio em frente ao escritório onde trabalho voltando para a labuta. Eu havia saído rapidamente para acompanhar o rapaz da vistoria do seguro do meu carro na garagem, e como quem não quer nada resolvi dar aquela espiada no celular. Quando li isso me veio em mente um dia, há alguns anos, quando eu estava no museu de arte moderna de Nova Iorque com meu ex-marido. Estávamos sentados no café fazendo um lanche quando fui abordada por uma mulher que me olhou o rosto de forma bem decidida e disse: “você se parece com uma pintura renascentista”! Ela repetiu isso mais de uma vez. Olhava meu rosto, meus cabelos. Parecia que tinha tido a impressão de encontrar em mim a versão em carne e osso que inspirara os pintores renascentistas a fazerem suas pinturas de figuras femininas. Achei engraçado. E quando vi esses dizeres na minha timeline do facebook lembrei-me disso.

Como é complexo falar sobre beleza, não é mesmo? Diferentemente do que muitos hoje diriam, sou uma garota que nunca se achou de fato bonita. Desde criança tenho episódios malucos de crises de choro por me sentir feia, por odiar meus cabelos, e coisas do tipo. Graças a deus a nossa compreensão de mundo e consequentemente nossa compreensão de nós mesmos vai mudando com o tempo. Hoje me enxergo de uma forma diferente, mas estou longe de exigir do mundo unanimidade, pois aprendi que a delícia da vida está nas diferenças.

Eu no Museu de Arte de NY
 no dia do ocorrido
Eu era muito nova naquela época. Achei graça daquilo, meu ex também achou e ficou tudo por isso mesmo. Hoje, lembrando-me daquilo, volto alguns passos para trás tentando entender o lugar onde estou hoje na condição de mulher. Meus traços não são perfeitos. Meu rosto já está começando a ter marcas do tempo. As noites mal dormidas deixam meus olhos cansados e não há maquiagem no mundo capaz de disfarçar as olheiras que insistem em se instalar debaixo deles. Quando sorrio, aparecem nos meus olhos pés de galinha e a marca de expressão no contorno da boca está cada vez mais evidente. Meu sorriso? Ele não conta mais com aquele alinhamento dos dentes, tão almejado e temporariamente conseguido através do uso de aparelhos dentários durante a minha adolescência. O nariz parece ter crescido mais. Os cabelos não estão mais tão macios como o eram aos 20 anos. A pele não tem mais a elasticidade e o viço de outros tempos. Meu corpo traz sinais do cansaço e dos sofrimentos. Já foi absurdamente magro, já foi absurdamente obeso e hoje traz marcas de todas as mudanças operadas ali. Busca, com a urgência de uma juventude que ainda insiste em dizer que está ali, um equilíbrio que os hormônios controladores de ansiedades e humores relutam em permitir que seja alcançado.

Como a vida muda! No dia do museu eu ainda não tinha virado o Cabo da Boa Esperança dos 30 anos. Eu amava cegamente alguém e nessa época eu quase não tinha o hábito de me olhar no espelho e me analisar com a calma de quem contempla. Eu tinha ao meu lado um homem que me amava mais do que eu amava a mim mesma. Olhando em perspectiva, se eu tivesse a compreensão que tenho hoje de mim naquela época, eu teria querido parar uns minutos para conversar mais com aquela mulher que estava me dizendo que eu era uma obra de arte.

Vejam só como são as coisas: aos 18 anos eu dançava. Usava meu corpo, minha alma e meu coração para comunicar algo sem palavras. Naquela época eu sabia que eu tinha talento como dançarina, mas não fazia ideia da mulher que estava ainda adormecida dentro de mim, capaz de gerar sensações com simples movimentos sem causar alvoroço. É que a gente nunca sabe a força que tem aos 18 anos. Se soubéssemos dessas coisas que aprendemos aos 30 aos 18, o mundo estaria perdido. Cada fase precisa de seus encantos. Aos 18 o viço, aos 30, o início da maturidade. Não se pode ter tudo ao mesmo tempo, não é verdade?

É para mim muito estranho de repente dar-me conta dessas coisas. Lembrando-me daquela mulher aquele dia no museu, lendo os dizeres da postagem no facebook, atravessei a rua indo para o escritório e pensei: é, com todos os meus defeitos, hoje sei o que aquela mulher viu em mim. Sou de fato uma obra de arte. Naquele dia no museu eu não tinha ideia de que naquele momento eu havia feito aquela pessoa sentir algo ao olhar para o meu rosto. Da mesma forma que aconteceu quando eu tinha 20 e poucos anos no curso de cinema e psicanálise que fiz no Centro de Estudos Cinematográficos aqui de Minas, quando um colega, no último dia de aula, me entregou três páginas de um poema que ele havia feito para mim, rimando com meu nome e sobrenome.

Vejam só como é complexa essa questão da beleza. Ela é tão relativa quanto qualquer outra coisa que exista no mundo. Dentro de uma gama imensa de imperfeições nasce o belo, e ele só é assim entendido por olhos que se sentem atraídos por aquele conjunto harmônico ou não (depende dos olhos que enxergam) de perfeições e imperfeições.

Mas e a arte? O que é arte? Para mim arte nada mais é do que algo que nos faz experimentar algum tipo de sentimento. Sentimos ao ler um poema, sentimos ao ver uma pintura, sentimos ao ver e eventualmente tocar uma escultura. Sentimos ao ouvir os acordes de uma música. Sentimos ao assistir a corpos que dançam. Sentimos ao assistir a um filme... Enfim, sentimos. A vida é arte, sentimos algo quando vemos o belo. Sentimos algo quando vemos o grotesco. Significamos em nossa mente todas as informações que o mundo nos dá. O mundo pode ser poesia o tempo inteiro, tudo depende do olhar que temos sobre ele. E agora é o ponto no qual quero falar sobre amor.

Amor é algo que sentimos. Sentimento absurdamente complexo. Camões em suas exasperações de poeta, tentando explicar o inexplicável, conseguiu definir muito bem a imprecisão inerente a esse sentimento ao dizer que ele é “um não sei o que, que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei por que”. Reconheço hoje, após várias tempestades que se abateram em minha vida, que talvez eu tenha finalmente começado a entender o que vem realmente a ser o amor. Na época do episódio do museu eu não tinha ideia do que ele pudesse ser, embora acreditasse piamente nele. Eu sentia uma paixão incontrolável, possessiva, mas hoje entendo que aquilo não era exatamente o amor. Amor é outra coisa. E descobri que eu o sentia pelo meu ex-marido no momento em que entendemos que por amor um ao outro precisávamos ficar separados. Amor vem de dentro pra fora. Não há amor ao próximo sem que haja amor próprio. É fácil amar alguém por suas qualidades. Entretanto, no momento em que os defeitos começam a surgir, o “amor” diminui. Por vezes desaparece. Sinto muito, meus caros, mas se desapareceu, então não era amor.

O Amor ama acima de tudo o que é imperfeito, o que é desarmônico. Porque o amor não busca a perfeição no outro. Ele é benevolente porque sabe enxergar dentro de si as próprias limitações existentes nele enquanto ser amante desejoso de ser amado. Por isso exatamente não é possível que exista amor ao próximo sem que haja o amor próprio. Para amar é preciso se conhecer e se aceitar.

Uma vez escutei uma pessoa ser questionada por outra porque a sua cara-metade era uma pessoa considerada feia fisicamente pelos padrões da sociedade. Foi então que ouvi a resposta mais sincera a respeito do assunto. A pessoa disse que havia naquela pessoa amada características que a faziam entender como menores tudo aquilo que era considerado desarmonia pela maioria. É aquela história: o amor é cego. Mas não é que ele seja cego, ele sabe do que é imperfeito, mas ele escolhe lidar com as imperfeições de forma serena, bem humorada, dando espaço de fato ao que verdadeiramente importa.

Então, voltando ao título desta postagem: “sobre a beleza, a arte e o amor”, concluo aqui que nessa vida quando nos amamos exalamos luz e mostramos ao mundo aquilo que temos de melhor. Todos nós somos belos aos olhos de alguém e por vezes tornamo-nos obras de arte para alguns ao sermos capazes de aguçar neles sentidos que vão além da visão que enxerga a beleza. Não há unanimidade na beleza, pois ela depende muito mais dos outros sentidos que são acionados no momento em que ela é vista do que efetivamente dela como objeto belo em si.

Minha tatoo! 
Finalizo essa reflexão com os dizeres da minha foto de capa do facebook. Estão em italiano, mas querem dizer o seguinte: “Não obstante todos os meus defeitos, se eu fosse um homem eu seria a minha mulher ideal”. Não é à toa que tenho Neruda tatuado em minhas costas: “Debajo de tu Piel Vive la luna” – debaixo de tua pele mora a lua! É sempre bom fecharmos os olhos e termos consciência da luz que emanamos para o mundo!


Até a próxima!

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