Sobre a solidão

Zygmunt Bauman disse em sua carta “Sozinhos no meio da Multidão” no livro “44 cartas do mundo líquido moderno” que [...] “nesse mundo sempre desconhecido, imprevisível, que constantemente nos surpreende, a perspectiva de ficar sozinho pode ser tenebrosa”. Estou aqui me lembrando das palavras de Bauman e pensando na minha vida e em pequenos acontecimentos cotidianos que vem me acompanhando dia após dia de uns tempos pra cá. Pergunto-me frequentemente quando foi que desaprendemos a estar sós e quando foi que estar só passou a ser demérito pessoal, obrigando-nos assim à ditadura da companhia.

O Estado de Minas publicou essa semana uma matéria com os melhores lugares para se ir só em Belo Horizonte. Achei engraçado e me chamou atenção porque meu outro blog fala justamente sobre lugares românticos para se ir a dois. Quando comecei a escrever esse outro blog, eu estava casada e feliz. Eu curtia horrores passear com meu ex-marido encontrando pautas pelos quatro cantos do mundo para escrever apaixonadamente sobre elas. O blog continuou após o fim do meu casamento, e quem interpreta bem textos percebe de cara o momento em que as visitas aos lugares românticos passaram a ser feitas por uma Nicole desacompanhada.

No início, confesso, era estranho. Talvez o mais estranho não fosse nem mesmo a coisa de entrar num restaurante gostosinho cheio de casais sozinha e pedir uma garrafa de vinho. No início o que incomodava mesmo era o hábito. Depois, à medida que o sofrimento começou a se dissipar, eu comecei a olhar ao meu redor e ver a estranheza que eu causava. Como assim? Uma mulher entra em um local para casais, pede um vinho e passa a noite ali se divertindo sozinha? Pois é. Pode até parecer estranho aos olhos de todos, mas eu realmente me divirto em minhas saídas solitárias. Talvez hoje por isso a matéria do Estado de Minas tenha me chamado atenção. Dos lugares indicados por eles, alguns inclusive eu já indiquei como bons lugares para se ir a dois. Lendo a matéria de jornal, me vi dando risadas comigo mesma.

Já há algum tempo conclui que lugares românticos para mim estão longe de ser necessariamente aqueles tidos como românticos pelos estereótipos impostos socialmente. Lembro-me dos tempos de adolescência, por exemplo, quando um dos lugares mais românticos onde eu poderia estar era no ônibus da excursão do colégio lotado ao lado do menino por quem eu era apaixonada e em quem eu morria de vergonha de dar um beijo (pavor do desconhecido aos 13 anos rssss). Portanto, a subjetividade do melhor lugar para se estar a dois se aplica também ao melhor lugar para se estar só.

Bauman, nessa mesma carta que citei no início do texto, fala sobre a falsa sensação de se estar acompanhados que temos. Facebook cheio de amigos, a casa vazia, mas com a televisão ligada: como ele mesmo diz, a dependência do ruído ininterrupto que começou com o rádio, tomou grandes proporções com a invenção do walkman e hoje chega a seus pontos culminantes nas conversas via whatsapp com estranhos, sexo virtual, amigos por todas as redes sociais. É que falamos, falamos, falamos e ganhamos curtidas até de pessoas que não nos conhecem e assim nos sentimos amados. Ocupamos o nosso tempo de forma louca com todos esses subterfúgios que mascaram a solidão, que tanto nos gera pavor. Estarmos conectados 24 horas por dia nos dá a falsa impressão de que não estamos verdadeiramente sós.

Bauman fala que fugindo da solidão, deixamos escapar a chance da solitude, como ele mesmo define: “essa sublime condição na qual a pessoa pode juntar pensamentos, ponderar, refletir sobre eles, criar e assim dar sentido e substancia à comunicação”. Ele ainda completa dizendo que quem nunca está só, não tem a chance de ler um livro por prazer, de desenhar um retrato, de contemplar a paisagem da janela e imaginar outros mundos diferentes do seu. E o mais importante, Bauman diz que “é menos provável que você estabeleça comunicação com pessoas reais em seu meio imediato”.

Olha que loucura, no medo de estarmos sós, perdemos a capacidade de estarmos acompanhados. E pior do que isso, passamos a temer tão desesperadamente a solidão que não aprendemos mais a estarmos na companhia de nós mesmos. Isso hoje para mim é algo tão dolorido. Sabem por quê? Porque descobri lutando contra a solidão que eu sentida, que eu temi minha vida toda, que sem estar na companhia de mim mesma, eu não aprenderia a me conhecer, não aprenderia a me amar, e não teria qualidade de relacionamento quando eu estivesse acompanhada tanto por pares amorosos, quanto por família ou amigos. A coisa é uma reação em cadeia. No dia que percebi isso foi como uma luz se acendendo dentro de mim. Fiz assim todo o mea culpa que precisava ser feito com relação ao insucesso do meu relacionamento com meu ex-marido e comecei a buscar meios de lidar melhor com o estar em minha própria companhia. E foi assim que comecei a me divertir indo sozinha aos lugares românticos.

Foi assim também que decidi fazer as malas e me mandar para Curitiba uns fins de semana pra trás sabendo que eu ficaria sozinha quase o tempo todo. E foi exatamente lá, neste fim de semana, lendo o livro de Bauman, que essas questões todas vieram na minha cabeça. Foi observando com calma a surpresa das pessoas ao me verem sozinha perambulando pela cidade com minha câmera fotográfica nas mãos, foi vendo a perplexidade dos garçons me servindo bons vinhos em restaurantes e os olhares incrédulos de outros clientes nos locais que percebi o quanto a solidão incomoda. Não a mim, mas aos outros. Alguns podem ter me julgado erroneamente, pensando: mulher sozinha a essa hora na rua deve estar querendo outras coisas. Outros deviam estar se perguntando: mas o que a leva a fazer isso? Nos ônibus e nos pontos turísticos, as pessoas acostumadas a andar em bandos provavelmente indagavam internamente por que eu não havia escolhido um pacote turístico para perambular pela cidade com ao menos um guia.

Ahhhh passei a tratar com carinho os olhares surpresos nos meus confrontos. Mal sabiam eles que enquanto eu estava ali deitada no gramado do Jardim Botânico observando a vida passar, eu apreendia detalhes do lugar e encontrava soluções para dilemas internos que há tempos eu protelava a solução por achar que não tinha no meu dia-a-dia tempo suficiente para pensar a respeito. Mal sabiam eles que enquanto eu fotografava os cadeados dos apaixonados na ponte do Parque Barigui, eu estava na verdade pensando em qual seria o meu próximo destino, minha próxima viagem, meu próximo fim de semana oásis no qual eu me daria o direito à solitude, como diz Bauman, para encontrar o lugar de mais algumas peças complicadas de serem encaixadas no quebra-cabeça que se tornou o meu coração de 2012 pra cá. Mal sabiam eles que foi estando só que consegui conhecer pessoas interessantes de carne e osso, que até pode ser que eu não as venha encontrar nunca mais na vida, mas que me proporcionaram momentos deliciosos e risadas impagáveis nos barzinhos do Centro Histórico da cidade.

Então vocês me perguntam: mas a solidão ainda te assusta? Essa é uma pergunta muito complexa. Talvez em certa medida ainda assuste, mas ao menos hoje, de manhã quando acordo, me olho no espelho e mesmo cheia de olheiras, nervosa de TPM, consigo depois de umas xícaras de café me achar bonita. A solidão me assusta bem menos desde que comecei esse namoro comigo mesma. Já não espero mais a companhia ideal para abrir o melhor vinho da adega, nem para ir ao concerto, para jantar fora, para viajar e menos ainda para ir ao cinema. Talvez eu tenha me desiludido com as companhias do sexo oposto, ou talvez eu ainda precise de mais um tempinho me namorando para conseguir olhar para os lados e permitir-me estar acompanhada novamente. Seja como for, como dizia um sertanejo cujas musicas adoro, “penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha e ir tocando em frente”, e é justo isso que tenho feito. Minha marcha hoje é lenta, já tive muita pressa na vida. Exercito agora a paciência, embora eu tenha uma dificuldade absurda com meditação. Certeza de amanhã? Sei que amanhã (hoje) é segunda e sei também que essa garrafa de Sangiovese que tomei enquanto escrevia poderá me causar alguma intempérie para levantar-me da cama e ir à academia logo mais. Mais do que isso? Só Deus que sabe! E honestamente, estando só tenho aprendido a me entender mais no presente e a deixar o futuro no lugar de possibilidades onde ele deve estar, uma vez que ele é consequência do agora.

Seja como for, acho que o recado de hoje está dado. Já está tarde e esse assunto daria pano para manga para mais uns 10 posts. Mas esses desdobramentos ficam para uma próxima vez!


Até a próxima!

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