Sobre a vida, a morte, a histeria e cintos de segurança

Essas polêmicas em torno das mortes do cantor sertanejo e sua namorada (que ok, confesso, eu também não tinha noção de quem fossem, mas não me levem a mal, é que de fato não me ligo muito no gênero musical em questão) realmente são algo que me fazem pensar um pouco na vida. O cantor e sua namorada morreram. Houve comoção. Isso não é novidade. Essa geração que grita histérica pelas mortes trágicas (sim concordo que o sejam)  nem faz ideia que em 15 de agosto de 1926 uma horda de pessoas histéricas (estima-se que tenham sido algo em torno de 100mil!!) foram às ruas de Nova Iorque para oferecer as suas condolências pela morte do então astro, símbolo sexual desejado pelas mulheres e odiado pelos homens, Rudolph Valentino, um dos primeiros galãs que o cinema americano, neste momento ainda mudo e em preto e branco, viu. O pobrezinho morreu precocemente aos 31 anos por conta de uma ulcera perfurada, tão de-repente e desavisadamente quanto o nosso sertanejo e sua namorada. Pra vocês terem ideia, devem ter trabalhado o corpo desse coitado em doses extras de formol, porque depois do velório em Nova Iorque, ele foi levado de trem para a costa oeste, onde ele teve um segundo funeral. Nesse momento, relatos de suicídios, mulheres que se diziam esposas do tal surgiram na velocidade que os burburinhos poderiam surgir naquela época. Então, a histeria é natural do ser humano.


O que ocorre é que nesses tempos líquidos em que vivemos (Eu amo Bauman) as pragas se alastram mais rapidamente. O desejo de ter os 15 minutos de fama (mesmo que seja indo pra cadeia e respondendo processo por filmar e fotografar um corpo mutilado) valem mais do que qualquer outra coisa na vida. Ser a pessoa que vai pular da janela porque o cantor morreu (mesmo sem ter a intenção clara de morrer) só para virar notícia de jornal vale os 15 minutos de fama. Se pararmos para pensar, em nossa sociedade, comparar partes do corpo a nomes de frutas fazem uma mulher ser momentaneamente famosa. Ela aproveita aqueles segundos de fama, fica pelada, junta dinheiro e depois pensa no que vai fazer do futuro. 

Pois é... Pensar no futuro? Gilles Lipovetsky em seus Tempos Hipermodernos é quem diz que as pessoas tem medo do futuro! De um lado vivemos em uma sociedade que se preocupa demasiadamente em minimizar os problemas do futuro, traçando planos mirabolantes e soluções extraordinárias para problemas que nem sabemos se teremos ou não lá adiante. Por outro lado, vejam só que dilema: pensar no futuro não garante que tenhamos tempo para práticas em nome de sua salvação. Vivemos os tempos do “precisamos”. Precisamos tudo, mas é tudo ao mesmo tempo e agora. Isso é culpa do imediatismo. Tudo tem que ser agora! Amanhã terá passado o timing. Pode ser que já não tenha mais validade. A moda passa. É preciso aproveitar.

É muito por causa dessa proliferação de modismos que vejo as criticas contra e a favor das manifestações de dor pelo sertanejo tão acaloradas. Hoje vivemos tempos de criações de celebridades instantâneas. Separar o joio do trigo é tarefa difícil. E o que complica mais ainda a questão é um detalhe mínimo, mas de proporções estrondosas: a subjetividade da opinião de cada um. Sabe aquela história de que gosto é igual bunda? Pois é... tem gente que gosta, e tem gente que não gosta disso ou daquilo que está virando moda. Julgar a subjetividade é tarefa demasiadamente árdua e a meu ver inútil. Desde que mundo é mundo olhos e remelas sempre existiram, e sempre existiram também quem gostasse ou de um, ou de outro ou de ambos.

Mas e ai, Nicole, pra que essa falácia toda sobre o sertanejo e sua namorada, já que você nem os conhecia? Pois é, minha falácia é só porque os ânimos se acaloram demasiadamente, bons jornalistas são empalados em estacas porque dizem o que pensam, as pessoas continuam comovidas (ouvi falar em uma menina suicidando mesmo), a imprensa marrom continua trabalhando para perdurar um drama, e honestamente, como jornalista, pessoa crítica e culta que sou, me pergunto com muita frequência até quando vamos continuar alimentando a mídia de dramas e tragédias. Digo nós porque a mídia marrom só funciona porque tem audiência, caros amigos!

A morte desse menino me chocou, mas não foi mais do que me chocou em 2007 saber que um ex-colega meu de colégio havia morrido em um acidente de carro dentro de BH por falta de cinto de segurança no banco traseiro. Não me chocou mais do que parar agora para pensar nos números e ver que desde 1997 o Brasil tem uma lei que obriga o uso do cinto de segurança no banco de trás que passou a vigorar integralmente em 1999, quando a infração passou a ser considerada gravíssima, e ver que de lá pra cá segundo dados da Caixa Econômica Federal, disponíveis no site do Instituto Avante Brasil (http://institutoavantebrasil.com.br/uso-de-cinto-de-seguranca-salva-vidas/):

1.        No Brasil, menos de 5% dos passageiros do banco de trás usam cinto de segurança.

2.       De cada 10 vítimas socorridas em acidentes de trânsito, três não estavam com o cinto no banco traseiro (mesmo sabendo que o uso do cinto nos bancos de trás reduz risco de morte e até 25%)

3.       Se o passageiro de trás está sem o cinto, em uma batida ele pode voar contra os bancos dianteiros, causando prejuízos ao coração, pulmão e costelas de quem está nos assentos da frente.

4.       O peso de uma mulher de cerca de 50 quilos sentada no banco de trás equivale a 2,5 toneladas em uma colisão a 60 km/h. Imagine o que pode acontecer com quem está no banco da frente se essa passageira não estiver com o cinto.

5.       Motoristas que dirigem usando cinto têm risco de morte reduzido em 50% em um acidente. E a probabilidade de morte do passageiro do banco dianteiro em uma batida reduz em 45%.

6.      Quem não usa cinto de segurança tem maiores chances de ter traumatismo craniano em uma colisão, pois tem aumentam as chances de a pessoa bater com a cabeça no teto do carro.

Em sendo assim, finalizo esse post dizendo que de fato sinto muito as mortes de Cristiano Araújo e Allana Moraes (sim eu sei os seus nomes!) Não é ironia. Mortes precoces me entristecem quando penso no tanto de coisas que ainda quero viver trilhando as estradas que Deus me coloca adiante. Mas é preciso saber distanciar os sofrimentos. As esferas do público e do privado são diferentes uma da outra. Já estamos chegando ao momento em que a dor da perda não é mais nossa. Essa dor é da família, é dos amigos próximos, e todo esse furdunço é, na minha visão, extremamente invasivo e desproporcional. Àqueles que são de fé, acho digno um minuto de prece não só pelo artista e sua namorada, mas por todos os outros anônimos que perdem diariamente suas vidas em mortes estúpidas e evitáveis. Não sei não... mas acho que a mensagem de esperança que essa merda de imprensa marrom deveria estar passando está errada. Eles deveriam ao invés de exaltar a morte, valorizar a vida e exortar as pessoas a serem mais prudentes e evitar mortes evitáveis.


Mas isso é só uma opinião... Até a próxima

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