Sobre N i c o l e

Essa semana eu escutei com certo estranhamento de minha parte, um homem que eu acabava de conhecer pronunciar o meu nome e dizer que ele é lindo. Fechei momentaneamente os olhos para escutá-lo pronunciá-lo. Parecia-me que aquele som era novo. Eu estava tentando reconhece-lo. Pareceu-me ser a primeira vez que eu o ouvia, mas sabendo que ele era meu. Eu gostei.

Gostei da sensação, do homem ainda não dava tempo de saber se eu iria ou não gostar. Respirei profundamente, abri os olhos e agradeci com um sorriso meio tímido, de quem acabara de ouvir uma novidade impronunciável: sim, parecia-me que eu estava ruborizada, levemente envergonhada por ouvir de forma tão doce aquele nome que por tantas vezes me causou dores na alma ao ouvi-lo pronunciado.

Mas o que havia mudado? O que mudava era o tom! Eu havia me esquecido de como era bom ouvi-lo como se fosse um verso. Certa vez, em um curso de cinema que fiz, um colega franzino, com quem eu mal conversava, chegou para mim no último dia de aula e me apresentou três páginas de poesia. Ali ele rimara meu nome e meu sobrenome. Colocou-me em um pedestal de rainha. Eu era tão menina, tinha 18 anos. Agradeci um pouco desconcertada: eu não sabia o que fazer com tamanha admiração. Nunca mais nos falamos, mas guardei o poema comigo. Hoje penso que devo ter feito parte do imaginário inconsciente e consciente daquele colega por dias e dias a fio, até que ele finalmente pariu aquele poema. Imagino também hoje, devido ao comportamento tímido e reservado que ele tinha em aula, o quanto deve ter sido grande o seu dilema interno: entregar ou não entregar a poesia? Que bom que ele entregou. Hoje fico feliz por não ter sido rude ou qualquer coisa do tipo com ele. Eu apenas recebi o papel, li e agradeci com um beijo no rosto. Era o máximo que eu podia fazer.

Mas então me pergunto: quando foi que desaprendi o quanto a pronúncia do meu nome em lábios alheios é algo desconcertantemente maravilhoso? Acho que foi nos anos em que eu chorava toda vez que ele era pronunciado. Ser sempre chamada com carinho por outros nomes, apelidos e então, no momento da censura, da discordância, eis que surge o frio: "Nicole, precisamos falar sobre isso ou aquilo". "Nicole, não quero conversar". "Nicole, você não me deixa falar". Eu já começava a chorar antes do problema surgir. Antes da conversa começar. A ira que já existia no momento da abordagem do início da conversa, transformava-se em ainda mais raiva. Ouso dizer que talvez em alguns momentos o meu nome deva ter sido pronunciado para me flagelar.

Mas veja bem: essa semana eu lembrei-me de que meu nome cabe em outros tons. Ao ser pronunciado pela boca de um estranho que acabava de me conhecer e se interessar por mim, eu senti-me uma mulher, e não uma menina. Não tinha censura naquele som. Tinha admiração. Lembrei-me então de como ele deve soar lindo sendo proferido por lábios desejosos, ou terno vindo de uma voz infantil ainda aprendendo a pronunciar os sons. Parando para pensar bem, Nicole, que tem origem francesa e vem de uma derivação feminina do grego Nicolau, que significa povo vitorioso, pode assumir várias facetas. Pode não, assume. A Nicole hoje é uma mulher de várias faces, mas todas elas se encontram, se resumem, se misturam e se definem dentro dessas seis letras que formam o seu nome:
N I C O L E. 

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