Sobre preconceitos e o ser politicamente correto

Eu até não iria me manifestar com relação ao ocorrido, mas é que essa coisa da agenda midiática não parar de dar corda para o assunto está me dando nos nervos. Sim, você deve estar pensando que pelo título deste post eu estou me referindo ao episódio da menina gremista que xingou o goleiro do santos. Pois é. Quero deixar registrado aqui no início que eu não sou a favor de qualquer forma de racismo ou preconceito. Sou inclusive a favor das leis que criminalizam esse tipo de comportamento. No entanto, acho muito pertinente abrir alguns parênteses, dar alguns passos para trás e entender todo este episódio com olhos um pouco mais críticos.

É que a coisa para mim tem um ar de hipocrisia imenso. Não estou dizendo que todo mundo faz xingamentos racistas por ai. Não, não é isso. Mas a grande verdade é que todos nós fomos criados em uma sociedade que prega um tipo de comportamento na teoria que não é colocado em prática em larga escala. Achei interessante lendo uma matéria que saiu no Globo.com sobre o episódio, no dia 02 de Setembro. O que me chamou atenção nesta matéria? Veja só o título: “Torcedor negro flagrado xingando goleiro Aranha nega injúria racial” Pois é. Agora vejam bem. A menina de 22 anos foi demonizada, julgada e condenada pela sociedade. No entanto, naquele estádio existiam outras pessoas que estavam xingando o goleiro tanto quanto ela. Algumas com xingamentos de cunho racial, outras não. Deixaram de ser xingamentos?

O torcedor em questão na matéria inclusive declara que sempre vai ao estádio e fica atrás do gol e que ele estava sim, xingando muito o goleiro, mas, segundo as palavras do torcedor, ele usava “xingamentos normais”. Então vamos lá. O que são xingamentos normais? Chamar o cara de negro não pode, mas pode dizer que a mãe dele é “puta”? É isso mesmo? E se tivessem xingado o goleiro de “viado”, teríamos aqui problemas com o movimento gay? Certamente se o goleiro fosse gay (Ou é? Não sei. Não me interessa saber...).

Vocês estão acompanhando o meu raciocínio? Estão se inteirando da minha indignação? Não, de forma alguma acho que alguém que toma atitudes racistas deva se safar barato da situação. Existe polícia, existe lei e tudo isso precisa ser respeitado. No entanto, não sei vocês, mas eu já fui a campo, adoro futebol, sou atleticana com todo o amor que existe no meu coração, e sei que no calor da partida, quando o juiz prejudica o meu time, eu grito bem alto o primeiro impropério que me vem na cabeça. E convenhamos: se fizermos uma análise dos impropérios mais comuns na língua portuguesa, veremos que boa parte deles é preconceituosa, racista, quando não hereges (teremos aqui também problemas com as diversas igrejas espalhadas por ai?). É que xingamento, gente, não foi feito pra ser bonito, foi feito pra ofender.

Então, já que estamos todos muito politicamente corretos, levantando a bandeira em apoio ao goleiro e demonizando a menina, vamos começar a nos policiar quando ficamos com raiva no transito, por exemplo. Digo isso porque é muito preconceituoso um homem, negro ou branco, botar a cabeça para fora do vidro do carro e gritar para uma mulher que está com dificuldades para fazer uma baliza que ela é uma “Dona Maria”. Eu acho honestamente que neste momento, já que vale pra um vale pra todos, todas as mulheres desse Brasil que se chamam Maria, sabendo ou não dirigir, deveriam botar a boca no mundo e exigir que seu nome não seja mais utilizado como forma de denegrir a imagem das mulheres no trânsito. Acho também que os baianos deveriam entrar com uma liminar judicial proibindo qualquer pessoa de proferir o termo “baianada” para designar uma ação ilegal no trânsito ou ainda para se referir a pessoas pobres e com comportamentos pouco civilizados. Aliás, interessante esta expressão, não é? “comportamentos pouco civilizados”. O que é mesmo civilizado? Certamente não é civilizado xingar o goleiro com impropérios racistas em pleno estádio, no entanto, pouco civilizado também é jogar pedras na casa da menina, ameaça-la de estupro, ameaçar sua família e amigos, tudo por conta de um comportamento que infelizmente foi aprendido socialmente e que boa parte desses que estão ai demonizando a menina praticam em maior ou menor grau.

É que a menina chamou o cara de macaco. Ai um  negro qualquer, ofendido, vai lá e ameaça a garota de estupro, a chama de vagabunda. No entanto, esse mesmo negro, às vezes machão à beça, não suporta ver um gay passando na rua e então em defesa de sua masculinidade vai lá e dá uns sopapos no gay, porque afinal de contas, alguém precisa ensiná-lo a virar homem. Mas ai, vejam só... esse gay, cara bem sucedido na vida, cheio da nota, fica muito ofendido com os sopapos que levou e diz que nunca mais irá passar por aquela determinada região da cidade onde só dá gente feia, pobre (negra?) e sem cultura.

Estão vendo só? Onde mora o nosso preconceito? Onde habita a hipocrisia da nossa sociedade? Todos querem tolerância quando é o seu calo que dói. No entanto, na hora que temos que lidar com as nossas limitações, os nossos preconceitos, fazemos de conta que ele não existe. Ai na primeira oportunidade, já que temos que mostrar para o mundo que somos pessoas legais, vestimos a camisa de uma causa e seguimos o fluxo, sem parar para pensar se estamos ou não fazendo igual ou pior do que aquele que cometeu o crime.

O problema do racismo, do preconceito e da intolerância é histórico não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Mais uma vez reitero que o racismo não deve ser tolerado. Mas o que se precisa fazer é uma mudança drástica no comportamento social. Isso, porque quando estamos em uma situação muito complicada, não dizemos que “a coisa está branca” e sim dizemos que “a coisa está preta”. Vou agora desafiar aqui boa parte dos que estão por ai “tacando bosta na Geni”: quero saber, quantos de vocês já namoraram, ou simplesmente beijaram a boca de uma pessoa de raça diferente da sua? Pois é, por que não o fizeram? Branquelos ou negrinhos não fazem o seu tipo? Muito cuidado, gente, muito cuidado com o preconceito que vem de dentro da nossa cultura, que já está assim tão arraigado em nosso comportamento que nem mesmo percebemos que ele está ali.

A menina, que chamou o goleiro de macaco, ficou assustada com a repercussão do ocorrido. Isso, porque na cabeça dela não era pra tanto. Assim como ela, varias pessoas teriam sido pegas de surpresa com esse bafafá todo. A menina, inclusive, tem amigos negros que dizem que ela não é racista. É muito fácil julgar alguém e não olhar para a forma como a nossa sociedade está moldada. Com todos os falsos moralismos, as falas falsas do que é e do que não é politicamente correto. Ainda temos muita hipocrisia para eliminar. Está em excesso. Infelizmente essa menina acabou sendo pega para Cristo e esperemos que a partir deste momento, as pessoas realmente parem para se colocar no lugar do outro na hora de xingar alguém (se é que isso é possível no calor de uma partida de futebol, onde sabemos que culturalmente sempre ocorrem xingamentos de todos os tipos).

Na esperança de um mundo um pouquinho menos injusto até mesmo com aqueles que cometem crimes desta natureza, até a próxima!

P.S. Eu sou uma mulher, heterossexual que respeita as preferencias de cada um e fica na sua. Adoro homens charmosos e cheirosos, negros ou não. Minha distinção na hora de buscar um par é saber se ele é inteligente e interessante o bastante para me entreter por horas em uma boa conversa obviamente bebendo um bom vinho ou uma boa cerveja. Ai! Ai meu Deus! Será que o que me dá tesão no sexo oposto agora vai soar como preconceito? Algo do tipo: aquela ali é a moça de nariz em pé, metida a enóloga, chata, que não sai com gente burra? Onde está o limite entre uma simples preferência e um preconceito declarado? Sentiram como a linha é tênue?


Agora até a próxima de verdade!

Comentários

Anônimo disse…
Faz sentido. Li só metade porque não deu pra acompanhar tudo.
Mas tens razão.
Ps: fui no seu outro blog, hehe.
E mandei email.
Anônimo disse…
Parabéns. Fiquei mesmo refletindo sobre o que falou...

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