Sobre a minha redescoberta do meu mundo

Esta semana recebi um conselho que me fez repensar minha vida: "Volte para casa, coloque uma música bonita, beba vinho e escreva um livro". Essas foram as palavras de um ser muito iluminado para mim. Elas me fizeram repensar meus caminhos. Fazia algum tempo que eu estava brigada com o mundo. Acho que esta é a melhor forma de definir o meu silêncio. Desde que me entendo por gente que sou um ser distante. Uma pessoa que enxerga o mundo, e mais do que isso, tenta senti-lo na pele, nos cheiros, nos barulhos, no olhar, no coração. Ler sempre foi minha “viagem” preferida. Gosto de me sentir em outros mundos, em outras vestes, em outros contextos. Tento sentir o sentimento do outro. Quando menina, logo que aprendi que eu poderia expressar minha liberdade através de palavras, comecei a escrever loucamente. Tudo era matéria de poesia. Era uma questão de descoberta. À medida que eu descobria o mundo, eu precisava coloca-lo em palavras. Hoje, olhando para trás, acho isso lindo.

Esse processo chegou até minha vida adulta. No entanto, senti que o tempo foi passando e eu estava aos poucos perdendo essa capacidade de expressar as minhas descobertas diárias. Eram tantas coisas para pensar, tanto o que fazer... Durante um tempo senti-me mal por ter esses momentos de alienação e sentir vontade de escrever. É que aquele tempo deveria ser usado para a solução de questões mais úteis e cotidianas. Eu precisava viver de forma mais terrestre, quiçá, mundana. Eu queria ser prática nas soluções de questões do dia-a-dia, mas anular minha necessidade de sentir o mundo fazia com que eu não fosse bem sucedida em nada. Faltava-me efetivamente praticidade e sempre que eu tentava me distanciar de meus ímpetos para escrever, as palavras que queriam sair ficavam sendo guardadas em pequenos compartimentos dentro de mim.

Imaginem só que confusão. Aquelas palavras ficavam ali, loucas para sair e eu às vezes chegava tão cansada e tarde em casa que no momento em que eu abria o computador para começar a deixar que elas saíssem pelos meus dedos, parecia que a inspiração ia embora. Eu precisava comer alguma coisa, eu precisava ir dormir para acordar cedo no dia seguinte, eu precisava... Precisava de tantas coisas que se mostravam mais urgentes do que aliviar aquele monte de novas descobertas e sentimentos que queriam ser um pouco mais concretos em palavras. Não digo que anulei minha capacidade de ver o mundo e senti-lo, no entanto afirmo que negligenciei (erroneamente) a minha necessidade de descrever o meu mundo.

Não há coisa mais bela nesta vida do que descoberta. Adoro crianças e conviver com elas me faz constantemente retomar a ingenuidade do ato de descobrir. Minha vida sofreu reviravoltas imensas nos últimos dois anos. As certezas tornaram-se incertezas. Aquilo que era incerto tornou-se o único ponto de apoio possível. Novos modelos de vida passaram a desfilar bem diante dos meus olhos, uma gama absurda de escolhas. Um sem número de novidades. Sinto-me hoje uma criança novamente. E sabe? Não me falta maturidade. Na verdade sentir-me criança novamente mostra-me excesso de maturidade para ser serena diante de drásticas mudanças. Quando tudo parece complicado demais, é importante aprender a respirar novamente, a sentir o mundo novamente de forma primitiva e descomplicada para entendermos a simplicidade das nossas reais necessidades. Sim, reais necessidades. Vivemos em um mundo de necessidades inventadas e supérfluas.

A tristeza profunda me fez redescobrir minha capacidade de explicar a mundo para mim mesma após senti-lo intensamente. Sentir o mundo intensamente suscitou em mim outra vez o desejo de explica-lo, descrevê-lo em palavras. Descobri também que às vezes uma lágrima não precisa ser necessariamente traduzida em uma palavra, mas que a complexidade de sentidos contida ali pode ser descrita com mais propriedade em uma imagem. Aprendi nesse processo que não sei somente escrever e que por vezes um pôr-do-sol resume exatamente tudo aquilo que senti durante um dia inteiro.

Agradeço todos os dias às reviravoltas de minha vida. Seria muito triste chegar ao fim dos meus dias, olhar para trás e ver que eu havia enterrado com uma pá de cal a minha capacidade de expressar aquilo que o mundo me conta todos os dias. Colocar tudo isso para fora agora é método de organização mental. É busca pela sanidade. É necessidade vital, tal como comer, dormir e amar. Sou o tipo de pessoa que não se contenta em sentir. Expressar o que sinto significa reviver. Reviver significa saber onde mora a tristeza e aprender a deixa-la existir ali, quietinha, digerida, num cantinho, com beleza e poesia. Mas reviver significa também poder tirar das prateleiras de meu íntimo aqueles momentos de alegria e gozo que me fazem em um dia corrido de trabalho lembrar com um suspiro e um sorriso o quão intensamente sou feliz.

Ahhhh que ansiedade para recuperar o tempo perdido (será mesmo perdido?). Esta semana eu segui quase que completamente o conselho recebido. Escutei novas e belas musicas, tomei bons vinhos... não sei ainda se hei de escrever um livro, mas hoje me sinto mais completa tendo conseguido escrever isso. Sinto-me mais feliz por voltar a ser eu mesma: seja bem vinda novamente ao seu mundo, Nicole, e nunca mais o abandone, isto é uma ordem!


Até a próxima!

Comentários

Maria Teresa Fernandes Thimotti ( Tê) disse…
Que belo texto Nicole! Adorei!
Pensar que te conheci tão pequeninha...
uma mulher linda e tão inteligente se tornou! Um beijo. :)
Unknown disse…
Simplismente suas palavras também me fizeram repensar algumas coisas..e condutas..e valores... e enfim..!
Escrever é reviver!
Um beijo Nicole!!
Thatá

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