Adolescentes dos Tempos Modernos

E hoje meu tio Paulo tinha me convidado para ir ao lançamento do livro de sua amiga, que aconteceria na livraria Status. Como adoro esse tipo de coisa, topei na hora. Encontramo-nos no Pátio Savassi e seguimos a pé para a livraria, pois a Savassi estava em festa, completamente tomada por pessoas felizes e ébrias que comemoravam a vitória de seus times nos jogos do dia. Na livraria nada de mais, compramos o livro, pegamos o autógrafo com dedicatória, conversamos um pouco, tomamos um suco e fomos embora. Ele tinha um compromisso muito importante e eu iria voltar para meu lar, doce lar.

Pois bem, é nessa volta para o meu lar, doce lar que minha reflexão sobre os tempos modernos está. Chegando ao Buritis, senti que já eram mais de 10 da noite e que eu não havia comido absolutamente nada durante todo o dia. A fome bateu e o lugar mais fácil, óbvio e tranquilo para se fazer um lanche rápido sozinha àquele horário era o Mcdonalds 24h do bairro. Pois bem, ao chegar lá, comprei meu sanduiche, sentei-me à mesa e eis que olho para a minha frente, à esquerda: um grupinho de adolescentes serelepes posando para fotos e tomando casquinhas de sorvete.

Até ai tudo bem. Fazer biquinhos para fotos, rir e falar feito pobre na chuva é coisa que adolescentes geralmente fazem. Na minha época não tínhamos aparelhos celulares que fotografavam e filmavam, mas eu tinha uma câmera fotográfica que andava sempre comigo. Tenho muitas recordações legais dos meus tempos de escola por conta dessa câmera.

Mas ai você do outro lado me pergunta: qual é o problema? Pois bem: o problema é que aquelas meninas não estavam simplesmente tomando sorvete e se fotografando. Elas estavam rindo entre elas e insinuando movimentos de sexo oral com o sorvete. Isso mesmo!!! Bem ali no Mcdonalds cheio de gente. A julgar pela aparência aquelas meninas não chegavam a ter 15 anos ainda. Olhei pros lados para ver se eu avistava algum adulto responsável por aquelas crianças e nada. Elas estavam ali sozinhas mesmo. E colocavam o sorvete na boca fazendo literalmente caras e bocas, e a outra tirava foto e filmava. Caramba! Eu estava comendo meu sanduiche, mas estava absolutamente perturbada vendo aquilo.

Eu tenho 32 anos e me acho razoavelmente jovem. Não me julguem puritana aqui de forma alguma! Eu sou do tipo que acha que no amor tudo vale quando se esta com quem se confia e principalmente, quando se está protegido pela discrição de quatro paredes bem sólidas e de preferência à prova de ruídos. O que me incomodou ali foi ver meninas brincando publicamente de forma obscena sem a menor preocupação com as consequências do que estavam fazendo, e pior, sem nem ter noção efetivamente do que estavam fazendo.

Eu então me lembrei de meus tempos de menina. Eu, com 12 anos de idade, tinha me apaixonado pela primeira vez. Tive sorte neste momento porque o rapazinho também gostava de mim. Lembro-me da inocência daquele tempo. Eu ficava sem ar quando via o menino. Eu era tímida até não poder mais. Ele ficava doido para me dar um beijo e eu ficava sempre vermelha de vergonha, sem voz. Eu custava a olhar nos olhos dele, mas conhecia muito bem o cheiro dele e os seus sapatos (muitos risos). Só de pensar em dar um beijo nele já fazia meu coração disparar e meu corpo inteiro respondia com alarde àquela possibilidade. Tempos bons de descobertas.

Agora, quando vejo essas meninas fazendo de uma casquinha de sorvete um pênis modelo para se praticar sexo oral, eu realmente me pergunto como as coisas podem ter mudado tanto da minha adolescência pra cá. Na idade delas a preocupação primordial que eu tinha era se o meu paquera ia ou não perceber que eu nunca havia beijado antes. Eu tremia nas bases só de pensar que eu não saberia o que fazer com a minha língua dentro da boca dele. Imagine se eu iria pensar em colocar outras coisas na minha boca!!!

Não sei se vocês concordarão comigo, mas achei um absurdo aquele negócio e por muito, mas muito pouco mesmo não fui lá falar com as meninas que elas estavam sendo deselegantes. Não fiz isso porque o meu sanduiche havia acabado e eu iria embora. No entanto, voltei pra casa pensativa: quem serão os pais e as mães dessas meninas? Por que elas se comportavam assim em público? Será que elas tem informação suficiente a respeito de sexo para entenderem o quão importante é mantermos essa esfera de nossas vidas guardadas entre 4 paredes? Será? Será? Ai meu deus! Que angústia que me deu aquilo!

É que quando vejo coisas assim meu coração aperta ao me lembrar de que ainda serei mãe um dia. Acho muito fácil dizer que os pais dessas meninas não são pessoas legais e que negligenciam as filhas. Essa é uma visão muito simplista dos fatos. A verdade é que até hoje em minha vida de professora sempre vi pais que fizeram muitas besteiras achando que estavam fazendo o bem para seus filhos, mas a intenção era sempre boa e cheia de amor. Quando penso na minha posição de mãe às vezes me assusto. Isso porque se antes, quando eu era casada e teoricamente poderia contar com o apoio da figura do pai na criação dos filhos, a maternidade já seria um grande desafio, imagine agora, que decidi que terei meus filhos como produção independente?

Pois é, fiquei com dó dos pais daquelas meninas. Fiquei porque com certeza eles não descobrirão o que elas estavam fazendo, a menos que confisquem os celulares e olhem seus conteúdos. Fiquei também com dó daquelas meninas, porque o que elas estavam fazendo ali era um “treino” sobre como agradar a um garoto, e ninguém explicou para elas que na verdade elas precisam aprender a agradar a si mesmas. Falta de autoestima mesmo...

A conclusão óbvia para o ocorrido passaria pelo clichê segundo o qual a nossa sociedade está perdida, a juventude isso, a juventude aquilo... Mas eu não quero ser simplista. Repetir palavras assim funciona como aceitar a situação e voltar a fingir que ela não existe. Estou aqui ligeiramente arrependida: talvez eu devesse ter ido conversar com as meninas. Talvez eu devesse ter dito a elas o quanto elas são lindas e explicar a elas o quão inadequadas elas estavam. Talvez uma completa estranha teria surtido efeito. É... não sei... mas me incomoda essa sensação de impotência. Com relação a essas meninas, nem sei se voltarei a encontra-las um dia. Mas pensando alto e vendo-me mãe de meninos ou meninas, espero de coração ser capaz de mostrar a eles o que é realmente importante na vida. Meus pais confiaram e confiam na educação que me deram. A única esperança então será eu acreditar naquela que darei a meus filhos... Mas se eu topar com as meninas outra vez, juro que pago um sorvete para elas!


Até a próxima!

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