Sobre o conhecimento

Esta semana ouvi algo desconcertante. Perguntaram-me “para que estudar tanto?”. Na hora, perplexa, eu esforcei-me para começar a dar respostas. Antes que eu começasse a esboça-las, no entanto, outra pergunta atropelou as palavras que eu estava prestes a pronunciar: “primeiro você forma, depois faz o doutorado e depois o mestrado, não é isso?” Então pacientemente eu disse que não, a ordem é inversa, o mestrado vem antes do doutorado. E então, antes que eu pudesse pronunciar qualquer outra palavra veio uma afirmação: “mas não entendo, porque ser mestre é muito mais bacana do que ser doutor!”. Então ali, naquele momento, guardei minhas palavras. Seria inútil explicar os motivos que me levam a estudar.

Acontece que as palavras estão aqui, em minha garganta, engasgadas. Preciso dar vasão a elas. E mais do que isso: preciso dizer a alguém que esteja precisando de encorajamento para retomar os estudos os motivos que me levam a estudar. Sendo assim, a primeira questão que coloco aqui é uma observação, que com o tempo mais tem se apresentado como constatação, que comecei a fazer em meus tempos de adolescência. Existe uma diferença brutal entre a ignorância e a burrice. Muitos poderão considerar estas palavras como sinônimas, no entanto eu as diferencio claramente uma da outra.

Ignorante vem do latim ignorans, ignorantis (que me corrijam minhas ex-professoras de latim se eu estiver errada) e significa aquele que ignora, não sabe. Ignorante é aquele que desconhece algo. Arrisco-me, então, a afirmar aqui que talvez a ignorância seja justamente o início de um aprendizado. Sócrates já dizia que sabia que nada sabia. Com esta forma de enxergar a vida ele estava afirmando a sua ignorância diante do mundo não obstante tudo aquilo que ele já conhecia. A ignorância é algo lindo, e de certa forma até mesmo poético. Ao nos darmos conta da nossa falta de conhecimento, de nossas insuficiências e incapacidades, estamos assumindo uma posição humilde e consequentemente abrindo nossas mentes e corações ao novo aprendizado.

E então você me pergunta: e a burrice, onde ela está? A burrice está justamente no momento da constatação da incapacidade, ou ainda do erro. A burrice está no não reconhecimento de nossas insuficiências, está na decisão de se perceber internamente que aquilo que somos e sabemos não basta e ainda assim persistir na falta de conhecimento ou no erro. Burro quando empaca não há Cristo que o faça prosseguir. É o mesmo que acontece quando o indivíduo se reconhece ignorante e decide negar esta ignorância ou simplesmente não fazer nada a respeito para mudar esta condição.

Na vida aprendemos diariamente. Cada experiência ou situação diferente nos traz aprendizados. Quando somos crianças, o primeiro local de aprendizado que conhecemos é a nossa família. Ali seguimos exemplos e aprendemos o alicerce daquilo que nos sustentará o resto de nossa existência. No entanto, logo depois da família, o nosso convívio social mais importante e imediato é aquele da escola. Escola é local de aprendizado, tanto teórico quanto prático. Aprendemos a viver e a conviver. Com os conteúdos que nos são ensinados aprendemos ou aperfeiçoamos a nossa habilidade de interagir com o mundo. Portanto, quando eu escuto uma pergunta do tipo “não sei para que estudar tanto?” remeto-me a esta imagem do burro. 

Ora pois! Se eu estou estudando mais é porque percebi em mim lacunas que quero preencher. Se eu estou estudando mais é porque percebi em mim um estado de ignorância que não quero carregar mais comigo. Se eu estou estudando mais é porque pretendo com o preenchimento das lacunas identificadas, encontrar outras tantas ainda a serem preenchidas, porque convenhamos, é impressionante como percebemos o pouco que sabemos à medida que estudamos mais. Conhecimento é saco sem fundo. Quanto mais colocamos ali dentro, mais cabe e mais é necessário ser colocado. Conhecimento é vício. Depois que se começa a adquirir, não se consegue mais abandonar a prática.

Mas para que serve conhecimento? Todos nós interagimos com o mundo sem precisar de muita coisa. E ai vem mais uma pergunta: será que a forma como eu interajo com o mundo hoje é suficiente para atender aos meus anseios? Conhecimento traz intrínseco a si o discernimento. É através do conhecimento, por exemplo, que avaliamos o que vale a pena e o que não vale a pena ser absorvido, ou aprendido. Conhecimento e aprendizado geram um “efeito colateral” social absurdamente interessante chamado senso-crítico. É o senso-crítico adquirido através de meus conhecimentos que me fazem evitar, por exemplo, as seções de autoajuda das livrarias. É ele também que me faz abaixar a cabeça diante de alguém que ignora muitas coisas para escutar e aprender aquilo que aquele ignorante tem a me ensinar. No final das contas, todos nós ignoramos, em maior ou menor grau. E aquilo que eu ignoro pode não ser aquilo que o outro ignora. Meu senso-crítico, adquirido com meu aprendizado, com meus conhecimentos, me faz hoje escutar mais do que falar. Esta é regra básica de um bom aluno.

Então, para finalizar, por que estudar mais? Estudo mais porque a cada dia que passa percebo que o mundo é muito maior do que aquilo que eu imaginava, e por isso eu busco mais, muito mais, busco o máximo que eu conseguir digerir, busco o máximo que for possível ser aprendido, e isso meus caros, porque conhecimento nada mais é do que liberdade e ser livre é uma escolha consciente e através do conhecimento mesmo que alguém queira te cercear, o objetivo jamais será alcançado, porque o conhecimento é luz em nossas vidas.


Até a próxima!

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