Sobre a Finitude

Finitude: substantivo feminino
1 qualidade, propriedade ou condição do que é finito
2 fato de ser qualitativamente finito, limitado
Finito: adjetivo e substantivo masculino
que ou o que tem um fim, um limite.

As definições do dicionário Houaiss carregam em si parte da angustia humana de viver: somos seres finitos. Essa é a grande verdade que mascaramos dia após dia em busca de nossas felicidades momentâneas, em busca de nosso sustento e de nossa realização. Já há alguns dias venho me questionando sobre o sentido da vida. Não, não se preocupem, não tenho ímpetos suicidas. A questão é que como estou vivendo um momento de reorganização da minha vida, fico me perguntando com muita frequência o que eu realmente quero. É como quando estamos arrumando o nosso guarda-roupa: tiramos dali de dentro aquele monte de cacarecos que não usamos e que nem nos lembrávamos de que estavam ali. Simplesmente na faxina tiramos dali o que não serve, o que excede e liberamos espaço.

Na semana passada disseram-me que preciso abrir o meu coração para deixar o amor entrar. Disseram-me também que preciso abandonar meu luto e começar a me vestir de forma mais alegre e positiva. Talvez eu realmente esteja com muitas dificuldades para reordenar tudo o que tirei de dentro do guarda-roupa. É difícil constatar que definitivamente ali dentro daquele espaço não cabe mais tudo aquilo que estava lá. Mais difícil ainda é quando nos vemos empurrados a fazer essas escolhas sem conseguir respirar e sem conseguir digeri-las muito bem. Às vezes sinto como se o meu tempo andasse muito mais lento do que o tempo dos acontecimentos. É que vejo a vida passando mais rápido do que gostaria. Ontem já era Janeiro, hoje já é quase Agosto. Não estou conseguindo acompanhar a corrida. Agora me vejo aqui parada, ofegante, buscando o ar, bebendo um pouco de água, dizendo para mim mesma que isso é só uma fase e que já, já eu entro no ritmo novamente.

Mas qual ritmo? Será que eu já estive alguma vez dentro do ritmo? Pergunto-me quantas coisas eu talvez tenha perdido porque eu simplesmente estava caminhando com os meus passos pequenos. Mas não se preocupem, não é que eu perca tanto do meu precioso tempo assim me perguntando sobre o que eu perdi. Já passou mesmo! Vou fazer o que? Não volta mais. Mas que é assustador pensar nestas possibilidades, isso lá é.

Hoje eu estou particularmente chateada e com raiva deste passar rápido do tempo. Em 2011 meu avô se foi. Adoeceu e graças a Deus com o menor tempo de sofrimento possível ele se foi. No início do ano passado várias pessoas queridas também se foram. E agora este ano mais uma. Sempre que a finitude da vida bate à minha porta assim tão escandalosamente penso no tempo que ainda resta. Vejo aquela figura da ampulheta com sua areia que desce vertiginosa. Pergunto-me como conseguir definir a minha vida de forma mais célere para ter mais tempo para viver os momentos de alegria. Pergunto-me com frequência, por exemplo, quanto tempo mais vou esperar para ser mãe? Será que eu terei tempo neste mundo para ver meus netos? E meus pais? Ahhh como eu queria que eles fossem infinitos! Minha irmã então? Minha amiga, minha companheira... Como eu queria todo mundo para sempre perto de mim.

Consolo-me frequentemente quando o coração aperta desta forma lembrando-me da filosofia estoica de Sêneca. Ele foi um dos mais famosos advogados, escritores e intelectuais do Império Romano e viveu entre 04 a.C e 65 d.C. Ele escreveu muitas obras literárias e filosóficas e entre elas está um livrinho que carrego com frequência em minha bolsa chamado “Sobre a Brevidade da Vida”. Ao contrário do que pode parecer a uma primeira vista, o livro não é pessimista ou fala sobre a morte. Na verdade ele é uma exortação otimista para a vida apesar das suas dificuldades.

Logo no inicio Sêneca, que escreve em primeira pessoa, explica ao seu amigo Paulino:

“Não é curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos. A vida é suficientemente longa e com generosidade nos foi dada, para a realização das maiores coisas, se a empregamos bem. Mas, quando ela se esvai no luxo e na indiferença, quando não a empregamos em nada de bom, então, finalmente constrangidos pela fatalidade, sentimos que ela já passou por nós sem que tivéssemos percebido. O fato é o seguinte: não recebemos uma vida breve, mas a fazemos, nem somos dela carentes, mas esbanjadores. Tal como abundantes e régios recursos, quando caem nas mãos de um mau senhor, dissipam-se num momento, enquanto que, por pequenos que sejam, se são confiados a um bom guarda, crescem pelo uso, assim também nossa vida se estende por muito tempo, para aquele que sabe dela bem dispor”.

Essas palavras soam como um super tapa na cara e me deixam uma sensação de incompetência diante de mim mesma. No entanto busco também internamente um pouco de benevolência comigo mesma. É que não é fácil agir racionalmente quando a gente está sentindo sentimentos muito intensos e difíceis de serem digeridos. As palavras de Sêneca consolam e ao mesmo tempo funcionam como um bom punhado de água no rosto para refrescar as ideias e ajudar a tomar rumo. Continua não sendo fácil. Continuo querendo chorar muito, continuo querendo colo, continuo querendo resolver tudo da noite para o dia. No entanto agora, ainda parada, sinto-me menos ofegante do que antes. É, definitivamente é possível recobrar o folego.

Finalizo aqui lembrando-me de um poeta, também romano, chamado Horácio, que escreveu os célebres versos do poema Carpe Diem (tá vendo, mais uma vez as professoras que me obrigavam a decorar poesias estavam certas!)

“Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi finem di dederint.
Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros.
Ut melius, quidquid erit, pati.
Seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam, quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare.
Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida.
Aetas: carpe diem quam minimum credula postero.

Tu, Leucone, não perguntes a mim, a ti que fim terão os dias,
Nem indagues os tempos do Oriente. Terrível é o saber.
Melhor aceitar o destino. Quer Jupter ainda nos conceda outro inverno,
Quer este seja o último a extenuar o mar etrusco contra os penedos opostos.
Mas sê prudente. Filtra o vinho. Enquanto falamos a odiar-nos já se foi o tempo.
Viva o dia e não creias no futuro!”.

Até a próxima!


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