Sobre o Erotismo e a Literatura



Oh! Sejamos pornográficos/(docemente pornográficos)./Por que seremos mais castos/ Que o nosso avô português? Alguém ai arrisca dizer de quem são estes versos? Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três... E então? Alguém? Não, não revelarei assim, logo de cara. Deixarei que vocês pensem um pouco mais (e aqueles que sabem shiiiiiii!). Achei bacana trazer estes versinhos inocentes à tona, principalmente em tempos nos quais o sexo e o erotismo têm sido assim tão explorados na literatura.

Bom, para início de conversa: Não, eu não li “cinquenta tons de cinza” e nenhuma de suas continuações. Nada contra ou a favor, realmente a coisa não me despertou assim tamanho interesse. No entanto, vejo que talvez eu seja uma exceção neste mar de pessoas que de uma hora para a outra descobriram a sensualidade da literatura erótica. 

A enorme procura pelo tema, que já vem sendo largamente aclamado na mídia mesmo antes do fenômeno literário em questão, (quem não assistiu De pernas pro ar??) vem fazendo com que as editoras apostem mais nesta temática e suas perversões. Mais uma vez, nada contra. O que me chama muito atenção é ver que não obstante muito se fale ultimamente sobre o assunto na mídia e nas artes, curiosamente não percebo um retorno dos grandes clássicos, que já povoaram listas e listas de livros proibidos séculos e séculos atrás.

Só para não perder o pique dos cinquenta tons de cinza, alguém ai sabe qual é a origem do termo sádico? Pois é, quem se lembrou do libertino, que escreveu vários livros enquanto esteve preso na turbulenta França da revolução do século XVIII acertou. Sim, o termo sádico vem de Sade, nome do Marquês que aterrorizou a Europa de seu tempo com suas ideias libertinas, seu ateísmo e sua filosofia materialista. 

Durante sua vida, o Marquês de Sade escreveu muitos livros que falavam abertamente sobre sexo de forma crua e cruel. Para ser honesta, nunca fui dada a este tipo de idealizações sexuais, portanto, nunca consegui finalizar a leitura de qualquer um de seus livros (honestamente, confesso que algumas passagens chegam a me dar náuseas). No entanto, não é preciso ser catedrático no assunto para reencontrar suas temáticas revistas por ai em manifestações artísticas posteriores (e diga-se de passagem muito boas). Os cineastas Buñuel em a Idade do Ouro, Cão Andaluz, Bela da tarde; e Pasolini em Saló, ou 120 dias de Sodoma (aqui trazendo também fortíssimo conteúdo político, bem ao estilo Pasolini), são exemplos disso. 

Embora o Marquês seja um ponto literário de destaque no assunto, sexo e literatura já andavam juntos muito antes dele resolver colocar em palavras suas perversões. Os povos antigos cultuavam o sexo, tanto religiosamente, na figura de deuses e deusas que representavam o amor e a fertilidade, como também do ponto de vista comportamental. Assim, lembro-me de obras como Ars Amatoria, uma série de três livros escrita em versos pelo poeta romano Ovídio entre os anos 1 a.C. e 1 d.C e que funcionavam mais ou menos como um manual sobre a sedução. Estes sim, já são de leitura mais agradável, e sim, os li. Os dois primeiros volumes falam sobre como conquistar as mulheres e como manter a mulher amada. O terceiro já é voltado para as mulheres e as ensina como atrair os homens. Especula-se que este livro, que em português chama-se a Arte de Amar, e pode ser comprado em versão pocket por módicos R$16,00; foi uma das razões do banimento de Ovidio de Roma pelo imperador Augusto: Convenhamos que em tempos de promoção de valores familiares, celebrar o amor extraconjugal pode ser entendido como uma afronta ao Estado.

Ainda seguindo a linha dos clássicos, lembro aqui do celebérrimo Kama Sutra, tão incompreendido e mal divulgado em nossa sociedade que consome (ou consuma?) o sexo de forma descompromissada e banal. Kama Sutra, na realidade, não é um manual de sexo, ou um texto sagrado. Pelo parco conhecimento que tenho sobre o assunto, atrevo-me esclarecer aqui que o que Vatsyayana fez foi estabelecer em um texto o último e menor dos objetivos da antiga vida hindu (respectivamente em grau de importância: Darma – vida vituosa, Artha – acúmulo de riquezas, e Kama, gozo dos sentidos). Diz a tradição, inclusive, que o autor era um estudante celibatário que nasceu no início do século IV. Sim, este é também um livro absolutamente interessante que quando lido em uma versão mais próxima do original, sem todas aquelas bandalheiras que os tarados de plantão buscam, é sem dúvida uma leitura obrigatória quando o tema em questão é a arte de amar.

Acho interessante ver a horda de repentinos liberais ávidos por ler, e conhecer perversões, que buscam nestes sucessos atuais a saciedade de suas curiosidades mais obscuras sobre o assunto. Sexo é parte da vida, assim como dormir, comer, respirar... Talvez por isso me impressione tanto a quantidade de textos bombásticos e explícitos que vemos por ai. É como se a coisa só tivesse vindo à tona agora. Mas na realidade, voltando novamente ao passado, lembro aqui livros como As Mil e Uma Noites, compilação de histórias populares das tradições médio orientais e sul asiáticas, o Decamerão, do italiano Giovanni Boccaccio, Os Contos da Cantuária, do britânico Geoffrey Chaucer, por exemplo, que tem em comum o fato de serem livros de contos, e que trazem em seu interior tanto histórias da mais pura inocência, muitas delas hoje contadas para crianças, como é o caso de Ali Babá e os Quarenta Ladrões, das Mil e Uma Noites; até histórias com o mais explícito e ardente relato de amor.

E a coisa não para por ai. Sem querer parecer polêmica, lembro-me da própria Bíblia, que traz em seu conjunto de textos aquele que, em minha opinião, é um dos mais belos poemas de amor do mundo: O Cântico dos Cânticos. Mesmo sem ser explicito, as alusões ao sexo são claras como no trecho a seguir: És toda bela, ó minha amiga, e não há mancha em ti/ Vem comigo do Líbano, ó esposa, vem comigo do Líbano!/Olha dos cumes do Amaná, do cimo de Sanir e do Hermon, das cavernas dos leões, dos esconderijos das panteras./Tu me fazes delirar, minha irmã, minha esposa, tu me fazes delirar com um só dos teus olhares, com um só colar do teu pescoço./Como são deliciosas as tuas carícias, minha irmã, minha esposa! Mais deliciosos que o vinho são teus amores, e o odor dos teus perfumes excede o de todos os aromas!/Teus lábios, ó esposa, destilam o mel; há mel e leite sob a tua língua. O perfume de tuas vestes é como o perfume do Líbano.

Existem ainda textos eróticos na literatura mundial afora que são momentos nas obras de grandes autores. Na poesia portuguesa, por exemplo, como não nos lembrarmos de Bocage, Camões, Gil Vicente e Fernando Pessoa. E aqui, em terras brazucas, como não mencionar os belíssimos escritos eróticos de Drummond. Sim!!! Carlos Drummond de Andrade!! (ok, ok, agora revelo: autor do versinho do início do texto!). Em 1992 foi publicado postumamente um livro de poesias eróticas chamado Amor Natural que o autor escreveu em meados dos anos 1970. Quem diria, não? Isso comprova que a temática, seja nua, crua, cruel; ou seja velada, e sensual, sempre povoou e sempre povoará o nosso vasto repertório literário. Nada contra as novidades, mas lembrar das fontes de onde beberam (ou deveriam ter bebido) aqueles que se tornaram best sellers atualmente é reconhecer que, com perdão da expressão, no meio de tanta putaria que tem sido publicada por ai, existe um histórico rico e de extrema qualidade artístico-literária.

Sei que ainda deixo para trás muitos e muitos nomes que fizeram parte da história da literatura erótica mundial. Durante o período vitoriano, por exemplo, muita coisa foi escrita anonimamente. Depois, no século XX, é impossível não se lembrar de Vladmir Nabokov e sua eterna Lolita, ou ainda Henry Miller e o seu Trópico de Câncer. Isso sem falar nas facetas eróticas de autores como Shakespeare, Flaubert, D H Lawrence, e vários poetas ultrarromânticos portugueses e brasileiros nos anos de 1800. É, não dá para lembrar-se de todos agora...

Finalizo aqui postando um trecho de O Carteiro e o Poeta, belíssimo filme italiano dirigido por Michael Radford, lançado em 1994, sobre a amizade entre o poeta Pablo Neruda e um carteiro que desejava aprender a fazer poesia para conquistar a sua musa inspiradora Beatrice. Na sequência, como a poesia encanta a garota, e ao mesmo tempo escandaliza sua mãe, que chega a afirmar ser melhor que um bêbado toque o traseiro da filha em um bar, do que um homem tocar o seu coração com as palavras. Erotismo puro destilado em palavras!


Até a próxima!

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