Sobre a Sopa

Minha irmã adora a Mafalda. Sabem? Aquela personagem do Quino, o cartunista argentino? Na verdade também gosto muito dela. Acho que Marjorie e eu aprendemos isso com nosso pai. Pois bem? Por que me lembrei de Mafalda? Simples: porque ela não gosta de sopa. Em suas tirinhas ela sempre está lá, rejeitando a sopa que sua mãe lhe prepara, achando que aquilo é o maior sofrimento que se pode infringir a uma criança.

Pois é, hoje eu quero falar sobre o significado da sopa para mim. Sopa é alento. Coisa que só mãe é capaz de dar. Para mim não existe melhor conceito de “confort food” do que a sopa. Diferentemente do que muitos acham por ai, sopa para mim não é comida de doente, mas sim comida de saúde. Acho que é por isso que quem está doente acaba tomando uma sopa.


É assim: quando estamos mais frágeis, mais necessitados de um abraço e de um par de mãos que nos cuidem, ai entra a sopa. A cada colherada ela nos envolve e nos faz sentir melhor. Quando eu e Marjorie fazíamos dança do ventre, logo nos primeiros anos, iamos muito à casa de nossos avós. É que a academia de dança ficava lá pertinho, então Marjorie e eu íamos para lá de noite, depois das aulas. Pois é: vovó sempre fazia uma sopa para o jantar. Acho que a mamãe não vai ficar chateada aqui se eu confessar que nós duas sempre tomávamos um prato de sopa com a vovó e o vovô antes de voltarmos pra casa. Depois, como boas meninas que sempre fomos, jantávamos em casa também. Ficávamos com a barriga cheia, mas também com o coração transbordando de amor.


Mamãe também sempre fez sopas para a gente em casa. Quando éramos bem pequenas, não me esqueço das sopas de letrinhas. Quando eu estava aprendendo a ler, eu era a rainha dos ditados e a sopa esfriava no prato enquanto eu juntava aquelas letrinhas formando ali palavras. A sopa da mamãe é gostosa até quando fria, eu não ligava para isso. Ela costumava fazer também aquelas sopas estilo minestrone, em que você sai colocando ali na panela todos os legumes que puder. No final ela quebrava dois ovos ali dentro que a gente disputava como briga de foice no escuro. A sopa nos unia em família e aqueles são momentos que eu não troco por nada nesta vida: amor puro e incondicional.


Nas festas de Natal na minha casa, nos almoços, a sopa de Capeletti era sempre obrigatória. Não tinha reunião familiar para comemorar o Natal que não tivesse aquele caldo de galinha farto com os pasteizinhos de capeletti que no geral eram vovó e minhas tias quem faziam. Durante a adolescência, a sopa também foi reunião de amigos. Nunca vou me esquecer lá no sítio dos caldeirões daquela sopa maluca que os meninos faziam para a gente. Eles quebravam quase uma dúzia de ovos lá dentro. Mas era maravilhosa. Esquentava o corpo, cuidava da fome, e nos fazia estar juntos.


A sopa me alentou também em um dos momentos mais complicados da minha vida, em 2004, quando eu estava doente no hospital. Nos primeiros momentos de internação eu tive a dieta suspensa. Não podia comer e nem beber nada até que o pâncreas reagisse e a amilase caísse. Mas assim que liberaram para mim a dieta, eis que de noitinha chega lá no meu quarto uma sopinha de frango com canjiquinha oferecida pelo hospital. Todo mundo malha comida de hospital, não é mesmo? Mas eu não posso reclamar de jeito nenhum de quando estive internada. Essa sopinha de peito de frango com canjiquinha era feita com muito amor. Minha mãe inclusive ligou para a cozinha do hospital para elogiar a cozinheira e pedir a receita. Hoje esta é a minha sopa favorita, sempre que meu coração está pedindo arrego, ou quando o frio aperta, vou para o fogão, pego um peitinho de frango, a canjiquinha, e inundo a minha alma de amor.


Ontem, tomei canja de galinha na casa da mamãe. Impressionante: mamãe sempre sabe tudo o que eu preciso. Aquela canja era tudo o que eu precisava para dormir em paz e começar o dia de hoje. Vejo hoje a sopa como um ensinamento de amor e cuidado passado de geração em geração na minha família. Sonho muito com meus filhos e com todas as sopas que vou fazer para eles. Quero muito transmitir a eles a segurança, o cuidado, o carinho e o amor incondicional que a sopa representa para mim. Mafalda que me desculpe, mas eu adoro a sopa da minha mãe!

Até a próxima!

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