Sobre a educação... ou a falta dela

Hoje eu tinha um churrasco para ir à casa de minha avó. Antes de ir pra lá, decidi passar num supermercado para comprar umas coisinhas para ajudar na festança. A fila do caixa estava grande e Cesar ficou no carro me esperando porque estávamos levando a cachorra junto, e deixa-la sozinha no carro estava fora de cogitação.
Domingo de ramos, imaginem só: o supermercado estava um inferno! As filas do caixa estavam gigantescas, e foi ai que liguei para Cesar e o informei que a minha demora era por conta do caixa, e não porque eu estava passeando no supermercado. Antes de desligar o telefone, ele me perguntou se eu havia ouvido algum anúncio pedindo que o proprietário de um carro se dirigisse ao estacionamento. Eu disse que não. Então ele me explicou o que era: as vagas de deficientes estavam cheias de carros que não traziam as credenciais necessárias para as pessoas poderem estacionar ali, e ele havia flagrado um playboy estacionando o carro em uma delas, saindo andando tranquilamente até o hipermercado.
Incomodado com a situação, Cesar procurou um dos seguranças que ficam no estacionamento do supermercado, informou o ocorrido e o segurança assegurou a ele que o individuo seria anunciado para que ele trocasse o carro de lugar (tinha muita vaga sobrando ali!). Obviamente isso não aconteceu. Saímos do supermercado revoltados com a situação.
Quero deixar bem claro aqui que não sou a boa samaritana e não quero posar como tal. No entanto, percebo que o desrespeito pelas pessoas menos favorecidas, no Brasil, em geral, é uma realidade triste e comum. Este episódio de hoje aconteceu no Extra Belvedere, um hipermercado que está em uma região onde moram pessoas bem de vida, com alta escolaridade e com acesso à educação. No entanto lá não é o único lugar. Outro dia Cesar flagrou a mesma coisa acontecendo no estacionamento do supermercado Verdemar, no bairro Buritis. As vagas reservadas para idosos estavam sendo utilizadas sumariamente por pessoas comuns, que poderiam buscar vagas em outros lugares.
Se vocês forem ao shopping center (qualquer um deles) observem bem se os carros que estão parados nas vagas para deficientes estão com o adesivo indicando que aquele carro pertence a um deficiente. Essas coisas me deixam fula da vida. Enquanto saíamos do supermercado, Cesar estava esbravejando sobre o assunto e eu finalizei a conversa dizendo que isso era uma questão de berço. E é verdade, educação não é algo que a gente adquire fora de casa, e não obstante existam leis que coíbam comportamentos inadequados socialmente, muitas vezes essas leis são desrespeitadas ou ainda, sumariamente ignoradas. Em parte porque determinadas pessoas acreditam que de fato essas leis são idiotas e não devem ser respeitadas, e em parte também porque se essas leis forem desrespeitadas ninguém irá puni-los por isso.
Falei com Cesar que uma coisa bem chata que vejo entre brasileiros é, por exemplo, aquele bando de novo rico que viaja para o exterior e volta para o Brasil dizendo que “aquilo sim é que é educação”, ou ainda: “nossa! Lá fora é outro mundo, não é essa zona como o Brasil”. Pois bem: essas são observações que eu faço também. Basta vermos a sala de embarque no aeroporto de Los Angeles e depois vermos a sala de embarque no aeroporto de Miami, cheia de brasileiros muambeiros. Em LA a companhia consegue embarcar todo mundo seguindo a ordem certinha das prioridades, das filas e tudo mais. Em Miami a companhia pena para fazer as pessoas entenderem que antes de embarcarem elas precisam entregar o formulário I95 que indica que a pessoa está saindo dos EUA e voltando para o Brasil. É uma bagunça só! Todo mundo falando alto, fazendo fila aleatoriamente para tentar embarcar (atrasando o processo, porque lá eles não deixam passar na frente os passageiros menos prioritários. O embarque acontece na ordem certinha).
E por que acho um saco brasileiro que fala isso depois que volta de viagem? Porque muitas vezes o mesmo brasileiro que diz que nós no Brasil vivemos em um mundo pior do que as pessoas no exterior, são os primeiros que se sentem no direito de parar o carro em fila dupla para buscar menino na escola, são os mesmos que estacionam na vaga de deficientes físicos ou idosos em shoppings e supermercados. São os mesmos que se sentam nos bancos reservados para grávidas e idosos nos ônibus, e que reclamam quando uma pessoa de cabeça branca ou grávida chega na fila do banco e passa na frente de todo mundo por ser atendimento prioritário.
Acho isso um saco! Eu sou uma pessoa que questiona regras. Sempre as questionei. Não gosto de ninguém controlando a minha vida. Mas eu tenho a clareza de saber que as regras bem estipuladas são razoáveis para que a gente consiga ter uma vida descente em sociedade. A coletividade precisa de regras que organizem as coisas, não tem jeito de ser diferente! Dirigir bêbado é crime, ponto final! Existem vagas reservadas para deficientes e idosos perto das portas de entrada dos estabelecimentos comerciais porque essas pessoas têm problemas de mobilidade e precisam ter mais facilidade de acesso aos locais, ponto! Parar em fila dupla é errado e prejudica o andamento do trânsito, causando engarrafamentos e outros problemas! Pergunto-me como é que as pessoas tem tanto sangue frio de fazer essas coisas tão deliberadamente! A consciência das pessoas nem dói!
Outra coisa que observo quando penso nessa falta de educação coletiva, é que vivemos em uma sociedade que exclui. É mais fácil fingir que o racismo não existe, que o preconceito entre classes sociais não existe, que idosos e deficientes não existem. As pessoas se esquecem de que um dia elas serão idosas. Ninguém sabe o dia de amanhã: deus me livre de desejar o mal a alguém, mas acidentes acontecem. E se de uma hora para a outra uma pessoa absolutamente saudável passa a precisar de cuidados especiais por conta de algum acidente ou problema de saúde? Essa pessoa não vai querer ser tratada com respeito pela sociedade? Não é assim que todos nós queremos ser tratados? Com respeito e dignidade?
Eu não paro em vaga de deficiente, nem se essa for a única vaga disponível no momento. Eu não paro em fila dupla e nem em estacionamento proibido, eu não fecho cruzamento. Eu dou prioridade a grávidas e idosos e demais categorias que tem direito a tratamento prioritário. Tenho na família vários idosos que necessitam do tratamento prioritário, tenho deficientes físicos e mentais na família que tem direito a tratamento prioritário. Sei a diferença que isso faz nas vidas das pessoas que necessitam e não deixo de brigar por eles quando necessário. Foi o que Cesar tentou fazer hoje. Nem sempre conseguimos vencer a batalha. Talvez tivéssemos brigado mais se tivesse ali algum deficiente precisando da vaga que estava ocupada por uma pessoa normal. Quem sabe em uma próxima vez?

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