Dando um jeitinho...

Esta semana eu li uma matéria na revista Exame que resume um sentimento que tenho tido há algum tempo: não consigo mais viver com a cultura do “eu dou um jeito”. Com isso não quero dizer que sou contra o uso da criatividade e a improvisação na hora que um problema aparece. Pelo contrário, sou absolutamente a favor. Quando a coisa parece não ter solução... tchan! Uma boa ideia salva o dia e tudo acaba bem.
Na verdade, o que me incomoda muito é ver que o imprevisto e soluções capengas estão na rotina das pessoas aqui em terras brazucas o tempo inteiro. A matéria da revista Exame tem o título (e subtítulo): Quem é “malandro”não fecha bons negócios – inclusive você. Executivos brasileiros amarelam mais do que os de outros países para negociar – e o remédio é parar com o “jeitinho brasileiro”. Pois é, olhem só que coisa: o que muita gente por ai acha que é uma super vantagem está jogando contra no mundo corporativo.
Quando vemos os desenhos do Zé Carioca podemos até rir um bocado das bobagens nas quais ele se enfia, mas se formos pensar friamente, ser um Zé Carioca neste mundo de competitividade acirrada pode não ser uma boa ideia. Para quem não conhece, o Zé Carioca é um personagem da Disney criado no começo da década de 1940 em uma turnê de desenhistas do estúdio e do próprio Disney pela América Latina. O objetivo da viagem era ajudar os Estados Unidos nos esforços para reunir aliados durante a segunda guerra mundial. O Zé Carioca era a personificação do Brasil. A sua personalidade é a de um malandro típico: preguiçoso, mulherengo, que busca sempre tirar vantagem nas coisas que faz, mesmo que isso signifique prejudicar o outro ou ainda, mentir e omitir verdades acerca das coisas e dele mesmo. Não vou nem jogar na discussão aqui que esta foi uma visão estrangeira sobre a personalidade do brasileiro. Querendo dá até pra gente se sentir ofendido com isso, não é verdade? Mas isso não vem ao caso agora.
Voltando ao assunto: eu cresci em um ambiente que me ajudou muito a ver o jeitinho brasileiro e os seus problemas: de um lado, na minha família, uma cultura de negócios administrados no rumo, no improviso, sem planejamento, dando-se sempre um jeitinho, e de outro a minha formação. Não tenho nada contra os negócios que já vi darem errado. Penso inclusive que as boas intenções de quem os iniciou teriam funcionado muito bem com o mínimo de planejamento e, acima de tudo, coragem.
Pois é: lendo a matéria da revista Exame, e olhando para mim hoje na posição de pessoa empreendedora, percebo que uma das principais características que uma pessoa que sonha em ser dona do próprio negócio precisa ter é a coragem. Mas não só a coragem de investir dinheiro, ou ainda a coragem de abrir mão de um emprego fixo para ir de encontro com o inesperado. Não... Quando falo de coragem, me refiro à capacidade de a pessoa enfrentar as suas próprias falhas, suas lacunas. Assumir a sua ignorância, assumir que o seu produto ou serviço ainda precisa melhorar para ser competitivo no mercado, isso, isso sim é complicado.
Na matéria da Exame o repórter fala que o Brasileiro costuma ser muito pouco objetivo quando o assunto é se preparar para o momento da negociação. Ele sempre acha que no final tudo vai dar certo. Que fique registrado aqui que não tenho nada contra o otimismo, pelo contrário: na minha sociedade eu sou a parte otimista. No entanto, se não houver um alicerce bom neste processo de preparação, nada funciona. A casa cai. Existem produtos por ai que se vendem sozinhos somente porque carregam neles o peso de uma marca cuja credibilidade já está firmada e reafirmada no mercado. No entanto, quando se é pequeno, quando se está começando, quando não se tem nome, como é que somos reconhecidos no mercado? Se não nos preparamos bem para irmos de encontro aos nossos potenciais clientes para apresentar a eles nossos produtos e serviços, como é que vamos construir a nossa credibilidade neste mercado que está tão cheio de concorrências?
Ai, eu volto na questão da coragem: conheça-te a ti mesmo! Sim... é importante saber de todos os nossos pontos fortes, mas... haja coragem para assumir os nossos problemas. Na hora da negociação, não podemos simplesmente varrer os nossos pontos fracos para debaixo do tapete e nos vendermos como os mais exacerbados pontos positivos existentes no mundo. Não, nada disso. A gente precisa, sim, valorizar o que se tem de melhor, e mostrar que, apesar dos nossos problemas, as nossas vantagens são muito maiores, e que por isso vale o risco de experimentar o que temos a oferecer. Na vida, relacionamento nenhum que nasce na mentira tende a perdurar. Omissões, invenções de desculpas e mentiras minam a credibilidade de algo bom, sem falar que afastam os bons clientes.
Criar um bom relacionamento baseado na transparência é sempre o melhor caminho: mas cadê a coragem de todo mundo para dar a cara a tapa no mercado e assumir o que pode e o que não pode fazer? Na minha empresa nós já viramos para um cliente e dissemos: “estamos fazendo o nosso máximo aqui, mas acreditamos que isso não terminará da forma como todos gostaríamos”. E ai, você me pergunta: “perderam o cliente?” e eu respondo: não, pelo contrário. Continuamos juntos no projeto, vendo hoje boas chances de as coisas darem certo. Este mesmo cliente nos indicou para uma grande empresa para prestarmos um serviço de urgência e extrema responsabilidade, e assim seguimos, embora ainda pequenos, deixando um lastro de boas impressões por ai.
Essa semana os jornais também mostraram uma notícia que ilustra bem tudo isso: uma menina foi envenenada por brigadeiros que foram entregues pela senhora que havia sido contratada para fazer os doces da sua festa de 15 anos. Para mim esse é o maior exemplo do jeitinho desastrado que estou falando aqui. Aparentemente essa senhora envenenou os doces na tentativa de adiar a comemoração dos 15 anos da menina porque ela não conseguiria entregar a encomenda feita pelos pais da garota até a data marcada da festa. Imaginem só! Segundo declarações da própria senhora, ela não queria matar a menina, mas somente gerar uma indisposição nela para que a festa fosse adiada e ela tivesse mais tempo para entregar a encomenda.
Como é que uma pessoa tem uma ideia dessas? Onde está o seu preparo na hora da negociação? Onde está o planejamento do seu negócio? Não sei dos detalhes, mas imagino aqui que na tentativa de entregar tudo a um preço baixo, essa senhora colocou os pés pelas mãos e percebeu tarde demais que talvez não tivesse braços suficientes para realizar o trabalho. Como ela, muitas pessoas ainda buscam esse tipo de plano B na hora que as coisas dão errado. Mas de que adianta? Essa senhora acabou com as chances dela de vender docinhos pelo resto de sua vida, sem falar que vai responder a um processo criminal. Receita infalível para afundar um negócio e a própria reputação pessoal, não é mesmo? Agora ela deve estar pensando que talvez tivesse sido melhor cobrar um pouco mais e contratar uma pessoa para ajudá-la, etc, etc, etc...
Finalizo aqui lembrando que podemos sim usar a expressão “eu darei um jeito nisso” no bom sentido. Conteúdo e vivência de mercado levam a boas ideias, levam a soluções criativas de problemas. O que não podemos nunca deixar de lembrar é que o nosso jeitinho tem que estar bem alicerçado porque não precisamos ser engenheiros para sabermos que uma fundação mal feita joga um prédio inteiro no chão, não é mesmo? Conhecer o próprio negócio e saber planejar são a alma de qualquer negócio!
Até a próxima!

Comentários

Postagens mais visitadas