Sobre a Força e a Fragilidade

São 6h da manhã. Acabei de acordar de sobressalto de um pesadelo. Às vezes eles acontecem. Nessas horas é sempre bom ter uma mão do nosso lado para agarrarmos e termos certeza de que é esse mundo daqui, e não o outro, que é o de verdade. Mulher é um bicho engraçado: por mais forte, determinada e destemida que ela seja, sempre acha muito bom ter alguém para confortá-la e protege-la. Sim, sou mulher, independente, dona da minha vida, mas gosto muito, muito mesmo, de ser protegida. Toda mulher gosta! Às vezes buscamos proteção até mesmo quando não precisamos dela. É que sermos envolvidas por braços mais fortes do que os nossos nos faz respirar aliviadas no final do dia. Não sei explicar.
Mas voltemos a falar das mulheres independentes e destemidas. Hoje fazem oito anos que recebi alta do hospital. Quem é mais próximo e antigo na minha vida lembra-se da pancreatite aguda que tive. Ai que dor horrível! Naqueles dias de internação não tinham braços mais fortes do que os meus que bastassem! Nenhum deles poderia fazer qualquer coisa: aquela dor era só minha, e eu a tive de suportar com sabedoria estoica. Veem? Mulher também é bicho forte demais! Até porque, se Deus não nos tivesse projetado assim, como é que aguentaríamos as dores e as pedras que nos são postas no caminho com a força, a coragem e a determinação que temos? Outro dia vi um vídeo lindo de uma mulher dando a luz a um bebê. A dor que aquela pessoa sentia era grande, muito profunda. No entanto quando olhávamos o semblante dela não víamos tristeza, desespero, não! Nada disso: o que víamos ali era felicidade. Pois é, mulher é um bicho engraçado mesmo, pois consegue sentir felicidade mesmo quando as dores parecem ser quase insuportáveis.
Nós, mulheres, somos pessoas dotadas de uma leveza muito distinta porque somos fortes e frágeis ao mesmo tempo, dependendo de pra onde a maré nos leva. Após o sobressalto do pesadelo, me veio na cabeça uma poesia linda de uma de minhas autoras brasileiras favoritas: Cora Coralina. Na verdade este não era seu nome. Cora chamava-se Ana Lins do Guimarães Peixoto e Brêtas. Ela era uma goiana que nasceu em 1889 e ainda jovem começou a escrever poesia. Mas ai, quando o amor bateu em sua porta, ela fugiu com ele para São Paulo e ali começou uma vida. Vida de mulher. Teve seis filhos e quando Monteiro Lobato a convidou, em 1922, para participar da Semana da Arte Moderna de São Paulo, sua condição de mulher daquela época falou mais alto: o marido não lhe deu permissão. O primeiro livro desta poetisa foi publicado somente em 1965. Nesta época, Cora tinha 76 anos de idade. Ela viveu até os seus 96 anos. Ela teve seis filhos, quinze netos e dezenove bisnetos. Além da literatura, ela foi doceira e membro efetivo de diversas entidades culturais.
Ai então vocês me perguntam: por que falar de Cora Coralina hoje? Pois bem: hoje é o dia das Mulheres. Hoje todos se lembram das mulheres que eram tidas como subversivas no mundo, que queimaram sutiãs, conquistaram o direito de voto, tornaram-se cidadãs. Lembramo-nos das feministas radicais, que defendem a igualdade extrema entre os gêneros. Pois é: Essas mulheres já serão muito faladas hoje, portanto agora eu não quero lembrar-me somente dessas bravas companheiras que sacrificaram as suas vidas em momentos adversos para nos ajudar a ter um lugar ao sol. Hoje eu quero me lembrar das guerreiras do dia a dia, que assim como Cora Coralina, conseguiram travar sua luta social através da doçura.
Sim, doçura! Essa é uma das armas mais fortes e eficazes que uma mulher possui em sua luta diária no mundo. Quem me conhece sabe que eu sou uma feminista. Feminista no sentido que defendo o direito das mulheres de transitarem livres pelo mundo, sentindo, amando, lutando, trabalhando, enfim, vivendo uma vida digna, honesta e livre. No entanto, não se pode confundir o feminismo com a “masculinização” feminina, pois é com doçura que muitas mulheres conseguiram vencer infortúnios, mandos e desmandos de maridos controladores no passado. É a doçura e a delicadeza que fazem de mulheres profissionais absolutamente versáteis no mercado de trabalho em momentos de negociações. A doçura distingue a nossa condição de mulher da dos homens. Sim, temos que lutar por direitos iguais, mas não devemos nunca nos esquecer do que nos define e de quem somos.
Hoje, eu quero me lembrar das mulheres guerreiras que sobreviveram e ainda sobrevivem a maridos ditadores. Mulheres que se desdobram diariamente para terem uma vida profissional e, ao mesmo tempo, uma vida de mãe, plenas. Quero lembrar que hoje, pelo mundo, existem milhões de mulheres que continuam lutando, em suas rotinas, por uma vida igualitária. Elas querem direito ao estudo, ao trabalho, ao amor, ao prazer, aos filhos. É por isso que me lembrei de Cora Coralina. Esperou 76 anos para realizar o sonho de um livro publicado. Ela realizou o sonho em um momento que muitas pessoas, inclusive mulheres, acreditariam que a vida já havia terminado. Não! Nada disso. A vida é um recomeço sempre.
Termino este texto desejando a todas as mulheres do mundo um ótimo dia, uma vida digna, honesta, cheia de realizações, braços e mãos fortes para envolvê-las quando elas quiserem, e muita doçura para vencer as adversidades de vida com sorrisos no rosto. Esta é a nossa marca registrada. Somos criaturas abençoadas por Deus e não podemos nunca nos esquecer disso!
Segue abaixo o poeminha de Cora Coralina que amanheceu em minha cabeça hoje. Ele é para todas nós:
Assim eu vejo a vida
Cora Coralina (Publicado pelo jornal “Folha de São Paulo” no caderno Ilustrada de 04/07/2001)
A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

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