Sobre o Machismo

Podem me chamar de feminista, revolucionaria ou o diabo a quatro que vocês quiserem, mas se tem uma coisa que me tira do sério é machismo. Desde o final da semana passada, quando vi as notícias daquele crime passional hediondo que aconteceu aqui num condomínio fechado em Nova Lima, estou incomodada.

Eu sei que não me faz bem envolver-me com problemas que não são meus. A questão é só que quando vejo crimes como esse, ou namorados que inconformados com o fim do relacionamento resolvem exigir a namorada na marra, mantendo a ex como refém, ou coisas do tipo, fico muito, mas muito revoltada.

Ouvindo o rádio esses dias, num desses intermináveis momentos de transito ruim de Belo Horizonte, ouvi alguém dizer que todos os dias, a cada hora, uma mulher está sendo violentada de alguma forma por um homem. Isso quer dizer que temos ai por dia 24 mulheres, no mínimo, sofrendo ameaças, apanhando, sendo tratadas feito lixo.

Eu cresci em um lar onde as mulheres são respeitadas. Nunca vi meu pai desmerecer minha mãe em qualquer situação. Ao menos diante de minha irmã e de mim, meu pai nunca levantou a voz para minha mãe. Nunca o vi exigindo regalias ou tratamento diferenciado por ser homem, por ser o chefe da casa ou coisa parecida. Minha mãe e ele sempre ocuparam o mesmo lugar dentro de casa, se formos ver a coisa de forma hierárquica. Sendo assim, não consigo compreender tratamentos diferenciados dentro de um núcleo familiar.

Lembro-me de quando eu era pequena, tinham uns vizinhos no prédio onde morávamos que ocupavam o aparamento exatamente acima do meu. Lá existia uma estrutura extremamente patriarcal na qual o pai, chefe de família, era absolutamente dominador e violento com a esposa e os filhos. Lembro-me que achava um absurdo eles terem um chicote dentro de casa. Quando o pai ficava bravo, sobrava pra todo mundo lá: para a esposa e os três filhos. Lá de casa a gente só escutava os gritos, em uma posição um tanto quanto impotente. Hoje, numa situação como essa, é natural que se ligue para a polícia no ato. Mas nos anos 1980 essas coisas eram menos denunciadas do que hoje.

Eu sentia pena daquela família. Quando criança essa pena vinha porque ninguém gosta de sentir dor, e eu achava injusto tudo aquilo. Hoje sinto pena porque me pergunto constantemente que tipo de pessoas foram formadas dentro daquele lar opressor. Em ambientes opressores não conseguimos formar senso crítico, criatividade, liderança positiva. Quando não se tem espaço para se expressar livremente, a gente não percebe o quanto é importante errar e se levantar sozinho após os tropeços. Os erros devem ser tolerados até certo ponto para que o indivíduo seja capaz de aprender com eles. Uma pessoa que sempre está na mira do chicote jamais se sentirá segura ao fazer algo novo por medo de errar, afinal de contas, ninguém quer ser punido repetidamente, não é verdade?

Meus pais sempre disseram que queriam ver à minha irmã e a mim no futuro como mulheres donas dos próprios narizes. Brincamos muito quando criança. Minha irmã, então, teve uma época que achava que era homem. Pulava muro, jogava bola, e os meninos corriam de medo dela. Juntas a gente fazia guerrinhas de mijo na garagem contra os vizinhos do ultimo andar, e eu sempre acobertava as merdas que ela fazia, e traçava planos mirabolantes para as traquinagens que fazíamos. A gente se defendia com unhas e dentes (até hoje a gente o faz) e ai de quem fizesse a Marjorie “chora vidinha” chorar. Tínhamos um bom gosto musical, liamos muitos livros, assistíamos a bons filmes, íamos bem na escola, e éramos extremamente curiosas com tudo.

Conclusão: crescemos duas mulheres bonitas, inteligentes, com personalidades fortíssimas. Não temos paciência para termos um “macho alfa” barrando o nosso caminho e impondo limites. Se nem nossos pais o fizeram, por que a essa altura do campeonato, que somos mulheres feitas, independentes e seguras de nós mesmas nós permitiríamos que um homem o fizesse?

Não estou dizendo que somos insensíveis, que não sofremos por amor, que não temos características típicas das complicações hormonais femininas. Claro que temos. A questão é que, apesar disso, não titubeamos em estar sozinhas quando a nossa liberdade está sendo ameaçada. Verdade, Jô? (pelamordedeus, não me faça passar vergonha aqui! Kkkkkkkkk)

Eu sou uma mulher que acredita no amor. Sou romântica, e às vezes até melada demais pro meu gosto. Adoro galanteios, adoro me sentir protegida, adoro ser admirada, ser cortejada. No entanto, o homem que estiver do meu lado deve saber de início que eu sou suficiente para mim mesma, e que ele está ali do meu lado para ser um companheiro, não o meu dono. Essa história de que as pessoas se completam é a maior balela do mundo! A gente tem que ser suficiente para nós mesmos para que então possamos curtir na plenitude a presença do outro ao nosso lado. Relacionamentos baseados na insegurança, no medo de perder o outro, nos ciúmes não tendem a funcionar.

Morro de preguiça de homem que se acha o rei da cocada preta e que acredita que as mulheres estariam perdidas se não fosse por eles. Uma vez escutei, não me lembro onde, um individuo se despedir de uma amiga dizendo: “nossa, tenho que ir ali assistir televisão com a fulana (namorada dele), porque tenho pena dela lá sozinha...” nossa! Quando ouvi a palavra pena já pensei: o que?? Se o meu marido se sentar para me fazer companhia porque está com pena de mim por eu estar sozinha, eu peço o divórcio na hora. Meu marido precisa estar comigo por amor, precisa estar comigo por tesão, precisa estar comigo por amizade, companheirismo, respeito, admiração... mas pena? Sério??? Pena? Não... a pena eu dispenso.

Ai, eu fico aqui pensando com os meus botões: por que um homem acha que pode matar uma mulher? Por que um homem acha que pode dominar, subjugar uma mulher? Estamos no século XXI e essa cultura do macho alfa, provedor, chefe do lar, não obstante na prática não exista mais, pois muitas são as mulheres hoje arrimo de família, continua a povoar o imaginário das pessoas. Mesmo não sendo o rei da cocada preta na prática, alguns homens se sentem no direito de exigir para eles esse papel.

Termino este texto refletindo ainda sobre uma coisa: certa vez ouvi de uma mulher que ela acreditava que a criação de meninos deveria ser diferente da criação de meninas. Na época, quando ouvi isso achei um absurdo. Hoje, diante dos fatos e das estatísticas de tantas mulheres que sofrem diariamente com ameaças e violências, continuo achando um absurdo. São afirmações como essa que me fazem perguntar até que ponto nós, mulheres, não somos culpadas? Quem cria os meninos para que eles sejam esses machos alfa abomináveis? Quem é que diz que os meninos tem que ser namoradores e as meninas virgens castas? Podem me chamar de feminista, mas enquanto nós, mulheres, continuarmos a alimentar esse imaginário masculino de que eles mandam e nós obedecemos, infelizmente continuaremos a ouvir histórias tristes e catastróficas como essa que está nos jornais agora.

Até a próxima, com a esperança (que nunca morre e nem deve morrer) de que as mulheres irão sair deste estado de letargia e irão acordar para a vida. 

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