Daqui a vinte e cinco anos...

Acabei de começar a ler um livro de Clarice Lispector que estava na fila de espera das minhas leituras atrasadas há um tempo. Ele chama-se “Descoberta do Mundo” e trata-se de uma deliciosa compilação com as crônicas que a autora escrevia no Jornal do Brasil entre 1967 e 1973. Passando pela página 33 do livro eis que me deparo com o título “Daqui a Vinte e cinco Anos”, escrito em 16 de setembro de 1967. Fiquei tão perplexa com o que li que rapidamente liguei o computador para comentar aqui a densidade de conteúdo que aqueles dois pequenos parágrafos conseguiram agrupar. Clarice diz o seguinte:

Perguntaram-me uma vez se eu saberia calcular o Brasil daqui a vinte e cinco anos. Nem daqui a vinte e cinco minutos, quanto mais vinte e cinco anos. Mas a impressão-desejo é a de que num futuro não muito remoto talvez compreendamos que os movimentos caóticos atuais já eram os primeiros passos afinando-se e orquestrando-se para uma situação econômica mais digna de um homem, de uma mulher, de uma criança. E isso porque o povo já tem dado mostras de ter maior maturidade política do que a grande maioria dos políticos, e é quem um dia terminará liderando os líderes. Daqui a vinte e cinco anos o povo terá falado muito mais.

Mas se não sei prever, posso pelo menos desejar. Posso intensamente desejar que o problema mais urgente se resolva: o da fome. Muitíssimo mais depressa, porém, do que em vinte e cinco anos, porque não há mais tempo de esperar: milhares de homens, mulheres e crianças são verdadeiros moribundos ambulantes que tecnicamente deviam estar internados em hospitais para subnutridos. Tal é a miséria, que se justificaria ser decretado estado de prontidão, como diante de calamidade pública. Só que é pior: a fome é a nossa endemia, já está fazendo parte orgânica do corpo e da alma. E, na maioria das vezes, quando se descrevem as características físicas, morais e mentais de um brasileiro, não se nota que na verdade se estão descrevendo os sintomas físicos, morais e mentais da fome. Os lideres que tiverem como meta a solução econômica do problema da comida serão tão abençoados por nós como, em comparação, o mundo abençoará os que descobrirem a cura do câncer. (Clarice Lispector. Descoberta do Mundo. Editora Rocco, página 33)

Ahhh Clarice... Que desesperança momentânea eu acabo de sentir. Não se passaram vinte e cinco anos de quando você escreveu isso, mas sim quarenta e cinco! Sim... Quarenta e cinco anos! Dai pra cá tenho a impressão de que pouco ou quase nada tenha mudado! O povo de fato falou mais, mas não o suficiente para liderar os líderes. As pessoas ainda morrem de fome, e o problema no mundo inteiro, e não só no Brasil, tende a agravar-se ainda mais: a população mundial cresce absurdamente e em breve começaremos a não saber mais onde tanta gente irá viver e menos ainda o que todo mundo irá comer.

É triste não? Muito triste perceber que passados tantos anos, tanta história, um texto como este, escrito em 1967 esteja ainda tão atual. O que esperar em vinte e cinco anos? A cura do câncer? Em 1967 Clarice Lispector nem desconfiaria que em 1977 uma obstrução intestinal súbita, causada por um adenocarcinoma de ovário irreversível, lhe tiraria a vida. É Clarice... Ainda tem muita gente morrendo de câncer, muita gente morrendo de fome e muita gente que se cala diante das injustiças e negligencias de nossos líderes. Como você mesma diz: Se não sei prever, posso pelo menos desejar. E o que desejo? Ahhh desejo, desejo que finalmente em algum momento tenhamos conseguido chegar a uma situação econômica mais digna de um homem, de uma mulher, de uma criança. Espero, ardentemente, que o povo efetivamente dê mostras de ter maior maturidade política e por fim, desejo do fundo do meu coração que a fome e doenças do corpo e da alma não façam mais parte de nosso mundo. Quem sabe, quem sabe um dia? Em vinte e cinco anos? Em quarenta e cinco? Quando?

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adorooo essa crônica! e indiquei seu blog pros leitores do meu ler essa crônica :D

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