Sobre as perdas

Si supiera que hoy fuera la última vez que te voy a ver dormir, te abrazaría fuertemente y rezaría al señor para poder ser el guardián de tu alma. (se eu soubesse que hoje seria a última vez que te veria dormir, te abraçaria fortemente e rezaria ao senhor para poder ser o guardião da tua alma) – Gabriel Garcia Márquez

Não existe nada mais incompreensível do que uma perda. Só quem já perdeu algo ou alguém pode vislumbrar a tristeza e a impotência de uma situação como essa. A dor da perda é intensa, seja lá o que é que se tenha perdido. Lembro-me como era dolorido para mim, quando criança, procurar por algum brinquedo de que eu gostava muito, e não o encontrar. Lembro-me também, mais tarde um pouco, quando adolescente, como foi desesperadora a perda do meu primeiro amor. Lembro-me também do quanto devastadores e vazios foram os meus primeiros contatos com a morte.

Quando eu era uma menina, deveria ter assim... uns 8 anos, eu estava tomando banho, quando minha mãe, sem saber muito bem como fazê-lo, me contou que a minha amiga havia morrido em um acidente de carro. Não me esqueço daquele dia. Imaginem só: para mim, uma criança de 8 anos de idade, a morte era algo ligado a pessoas velhas. Não era algo que eu esperaria ver em alguém jovem, menos ainda alguém da minha idade. Eu não soube lidar com aquilo. A morte chegou muito perto de mim. Meus sentimentos estavam desorganizados e eu só conseguia chorar. Briguei com deus naquele dia. Eu não entendia por que ele não havia poupado a minha amiga, que tinha a minha idade, que brincava comigo. Aquele acidente de carro levou não só a minha amiga, como também a avó e a mãe dela. Foi uma perda terrível para todos que conhecíamos a família. Hoje eu tenho uma compreensão melhor do ocorrido, mas às vezes me pego assim, nostálgica, pensando, em como seria se Fernanda ainda estivesse aqui. Que tipo de mulher ela seria... se estaria casada, se já teria filhos, se ainda seriamos amigas...

Aos 12 anos eu me apaixonei pela primeira vez. Sorte a minha: a paixão era recíproca! Esse amor foi das coisas mais singelas que já vivi. Uma garotinha tímida, bonitinha, sonhadora, que amava platonicamente um rapazinho que todo mundo queria namorar. De repente, olhe só: ele também queria me namorar, imaginem que coisa! Vencer a timidez e deixar que ele me beijasse pela primeira vez foi coisa terrivelmente difícil. Eu ficava muda, sem ação, vermelha... As palavras só vinham para mim quando eu estava sozinha. Eu não conseguia conversar com ele, pois a voz não saia. Em compensação, a minha produção literária de poesias daquela época tinha sido absurda! Bons tempos aqueles! No entanto, o garoto em questão, um italiano, colega de escola, um belo dia foi-se embora para a Itália com seus pais, e nunca mais mandou notícias. Só deus sabe o quanto chorei! A perda do primeiro amor é sentimento demasiadamente rebuscado para os pobres corações femininos. Lembro-me hoje, achando graça, que naquele mesmo ano Laura Pausini havia lançado a música La Solitudine. Parecia que ela havia escrito aquela musica para mim. O toca-discos ficou furado e até hoje, muito também graças aos meus alunos de italiano que não deixam esse hit do passado morrer, sei a letra desta musica de cabeça.

Olhem como são as coisas da vida. No final de 2006, inicio de 2007 esse rapaz, graças às maravilhas da modernidade, me descobriu na internet. Conversamos algumas vezes através do Orkut. Lembro-me que me deu uma saudade gostosa daqueles tempos. Foi então que um belo dia, se não me falha a memória, no meio do ano de 2007, uma colega de colégio daquela época me contou que o garoto havia morrido. Fiquei sem ação. Não cheguei a derramar rios de lágrimas, mas lembro-me de ter ficado particularmente chateada. Ele foi uma pessoa extremamente importante para mim no inicio de minha adolescência, e saber que ele tinha ido embora deste mundo foi muito triste. Ele tinha voltado ao Brasil, depois de muitos anos fora. Chegou na terça-feira e morreu na quinta-feira, tendo sido a única vitima fatal de um acidente de carro aqui em Belo Horizonte. Que coisa, né?

Também aos 12 anos tive o meu segundo contato próximo com a morte. Meu avô paterno. De uma hora para a outra adoeceu e se foi. Se não me falha a memória, em menos de 3 dias tudo havia acontecido. Lembro-me que de alguma forma eu sabia o que havia ocorrido antes de eu ter sido informada pelos meus parentes. Com 12 anos, eu ainda pensava se iria ou não fazer a minha festa de 15 anos. Um dia antes do falecimento de vovô, lembro-me de mim, chorando muito durante o banho, perguntando a alguém invisível, quem dançaria a valsa comigo no lugar dele. Sonhei com a partida dele a noite inteira, e no dia seguinte, quando finalmente me contaram o que havia acontecido, demorei alguns minutos para começar a chorar de fato. As lágrimas estavam escassas. Naquele dia, me cortou o coração ver meu pai chorar. Pai não é dessas criaturas que a gente espera ver chorar alguma vez na vida, e eu me vi ali, de repente, sentada no sofá, abraçando o meu pai, sem saber muito como consolá-lo, afinal de contas, até aquele momento, ele tinha sido o meu herói consolador. Superamos esse momento com dificuldades, e no fim das contas, o problema da valsa foi resolvido: não fiz festa de 15 anos, e sim uma viagem.

Lembro-me ainda de muitas e muitas perdas que vivi. Graças a deus boa parte delas bem resolvidas. É aquela coisa: às vezes fecho os olhos e penso como seria se as pessoas que amo e se foram ainda estivessem aqui. No meu casamento, por exemplo, pensei como seria se vovô estivesse lá. Por outro lado, agora, neste momento, penso da felicidade que sinto de saber que várias outras pessoas queridas que se foram nesse meio tempo, depois de meu casamento, estiveram lá comigo. Meu avô Fernando, por exemplo.

Eu o perdi esse ano. Amanhã fazem 5 meses. Eu fiquei muito triste quando perdi o meu outro avô aos 12 anos, mas é que vô Fernando era mais do que avô, ele era pai também. Cresci ali, dentro da casa dele, junto de minha avó e meus tios. Era pra lá que eu corria quando fugia de casa. Era ele quem me entendia quando eu xingava palavrão. Quando eu adoeci, em 2004, e fiquei internada quase um mês no hospital, foi o rosto dele que vi quando acordei da anestesia depois da cirurgia que fiz. Sei que minha mãe estava lá também, mas ele foi a primeira pessoa que vi. Comecei a gostar de vinho com ele, e a família inteira aprendeu a gostar de se aventurar em viagens com ele. Não conheço outro assim. Ele falava besteira com uma maestria, algo bem complicado de ser superado. Sempre dava um jeitinho de conseguir burlar as regras, e se gabava enormemente por isso: fazia meus tios, enormes, dormirem em berços em hotéis para que considerassem que todos os filhos dele eram menores de 5 anos, e pensem vocês: fiquei com ele um domingo no hospital, agora, em abril. Na hora que cheguei ao hospital para acompanha-lo, onde ele estava? Na rua, com a minha tia. Isso porque ele não podia ficar sem acender o cigarro dele. O médico tinha dado a ele uma autorização especial para que ele saísse para fumar e voltasse, é mole? Não é à tôa que o apelido dele era Fodinha. Aliás... a grafia que ele gostava nem era essa, ele cunhou o Phodigna, misturando o ph com som de F do inglês com o gn com som de NH do italiano.

Em janeiro deste ano, minha família tinha me chamado para viajar para Camboriu com eles. Marjorie, minha irmã, dizia que essa seria a sua ultima viagem solteira e que eu deveria ir. No entanto, não pude. Cesar e eu estávamos passando por um momento de mudança de trabalho muito forte. Não dava para sair em janeiro. Vovô e tia Úrsula voltaram mais cedo... era um preludio da tempestade que vinha. Vovô tinha caído no chão e sentido uma ausência. Tinha que ir ao neurologista descobrir o que estava na cabeça dele: era um coagulo ou algo pior? Na cirurgia retiraram a massa estranha da cabeça dele, e descobriram que aquilo ali era uma metástase de um câncer oculto, que depois veio-se a descobrir que estava no pulmão. Não preciso nem dizer que me senti enormemente arrependida por não ter ido à última viagem em família junto ao meu avô...

É... senhor Fodinha era um cara muito forte. Nunca vi alguém tão estrupiado como ele. Tinha problemas na próstata, tinha hérnia, tinha aneurisma, e mais o diabo a quatro. Só o câncer o venceu. Mas ele lutou bravamente, e o fez do jeito que quis: ao lado das pessoas que mais amava. Ninguém poderia ter tirado dele esse direito de escolher onde morrer. Acho que é das coisas mais dignas que um ser humano pode fazer pelo outro. Ficamos ao lado dele até o seu ultimo suspiro. Eu agradeço muito a deus por ter me dado força para conseguir abrir brechas de tempo em meus dias atarefados para estar lá com a minha família. Eu estava ao lado de vovô quando ele se foi, e essa sim, foi a minha experiência mais próxima da morte.

Está bem... tecnicamente o momento em que estive mais próxima da morte foi quando eu adoeci. Tive uma pancreatite e passei o diabo de tanta dor internada no hospital. Mas acho que é diferente a gente quase morrer e a gente ver alguém morrendo. Foi interessante que tristes nós ficamos, mas vovô estava já em uma agonia tão grande, que rezamos muito para que a sua passagem fosse tranquila. Queríamos que ele descansasse em paz, e acho que é o que está acontecendo agora. Fizemos uma oração em volta dele no momento da partida, eu acompanhei a retirada do corpo de dentro de casa, liguei para os parentes e amigos para dar a notícia, e naqueles dias que se passaram, tive muitas dificuldades em chorar, mas daquele dia 31 de maio até hoje, acho que toda semana choro um pouquinho de saudades dele.

Olhando assim, panoramicamente para as perdas, e olha que essas são só as mais significativas, eu penso que com o tempo a gente vai fazendo delas momentos preciosos de exorcismos. Assim as perdas, por mais absurdas que sejam, acabam tornando-se ganhos, oportunidades de crescimento. As perdas fazem com que a gente mude, saia do lugar, olhe pra outras direções. Elas ajudam a gente a ver que a vida continua. Existem alternativas... Na verdade as perdas exorcizam o nosso próprio medo de perder. Com o tempo a gente passa a lidar melhor com a ideia, embora os sentimentos nem sempre correspondam às expectativas que nossa razão tem para a vivência desses momentos.

Vivendo as perdas e me lembrando das pessoas que amo, que estão aqui e que se foram, sinto-me muito feliz por ter tido a oportunidade de demonstrar a eles o quanto significam para mim. Deus foi tão bom comigo que não deixou meu avô ir embora sem que ele soubesse o quanto eu o amo, e disso não vou esquecer nunca, e jamais deixarei de agradecer todos os dias por cada segundo que consegui fazer com que ele desse uma risada em meio a toda aquela situação terrível.


Neste momento, não consigo parar de me lembrar de Gabriel Garcia Márquez outra vez, quando ele diz: Siempre hay un mañana y la vida nos da otra oportunidad para hacer las cosas bien, pero por si me equivoco y hoy es todo lo que nos queda, me gustaría decirte cuanto te quiero, que nunca te olvidaré. (sempre existe um amanhã e a vida nos da outra oportunidade para fazer as coisas direito, porém, se eu estiver errado, e hoje for tudo o que nos resta, eu gostaria de dizer-te o quanto te quero e que nunca me esquecerei de você)

Nesta vida, navegar é preciso, viver é preciso, perder também é preciso, e ainda mais necessário é dizer a quem amamos o quanto os amamos. A vida é curta demais para não dizermos eu te amo todos os dias. Como já dizia Horácio: Carpe Diem Quam Minimum Credula Postero (viva o dia, e não creias no futuro).

Comentários

Ariowin disse…
Que lindo! Fiquei emocionada, rs Movida pela empolgação: eu te amo!! Mas não acostuma com isso não hahahahah

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