Sobre Olhares e Sorrisos


Fazia tempos que não encontrava inspiração para escrever. Correria, muitas tarefas, pouco tempo, muitas preocupações. Minha vida deu um giro de 360° do ano passado pra cá. Tem dias que eu ainda acordo me sentido zonza, catando cavaco com a velocidade dos giros. Não estou reclamando, de forma alguma! Eu só estou constatando um fato: mudanças, surpresas e aventuras, quando muito intensas, são iguais à feijoada de sábado para quem tem estômago fraco: uma delícia, mas difícil de digerir.
Ao longo desse tempo, como é normal acontecer comigo, muitas coisas pequenas me tocaram de maneira particular e quase não tive a oportunidade de olhar para elas com a minha lupa mental. É que as pequenas coisas sempre têm muito potencial de se tornarem grandes, e no geral, embora ainda com aparência de pequenas, elas tornam-se grandes, grandes o suficiente para gerarem terremotos e tsunamis silenciosos em nossas vidas para o bem ou para o mal.
Bons exemplos de grandes pequenezas que têm me tocado ultimamente são os olhares e os sorrisos das pessoas que não sei o nome. É que esperamos olhares e sorrisos das pessoas que conhecemos, mas raramente esperamos isso daqueles que nunca vimos na vida, ou pelo menos que achamos que nunca vimos na vida.
Comecei a reparar isso indo ao supermercado. Não vou sempre aos mesmos, porque meu senso de economia me leva onde estão os melhores preços. No entanto, não vario muito entre as opções por falta de tempo e de ânimo de enfrentar trânsito para comprar pouca coisa. Pois bem, nessas minhas idas às compras, percebi, por exemplo, que os funcionários dos supermercados me cumprimentam. Imagino que a rotatividade de clientes que vão e vem em um local como esse deva ser grande, assim como também a rotatividade de funcionários. Entretanto, sempre que estou perdida, surge uma pessoa sorridente para me ajudar, e no caixa, quando vou pagar a conta, sempre sou cumprimentada como se eu fosse uma amiga de longa data. Obviamente respondo com um belo sorriso acompanhado do cumprimento de volta, afinal de contas, mamãe e papai me ensinaram boas maneiras e “por - favor” e “muito obrigada” são frases chave na vida de qualquer pessoa educada.
O engraçado disso tudo é que quando saio do mercado, após passar por essa experiência de ser cumprimentada e de retribuir o cumprimento, eu mesma já me peguei, mais de uma vez, com um belo sorriso no rosto. Ai a conseqüência disso é que as pessoas que cruzam comigo na saída acabam me retribuindo olhares e sorrisos de amizade, como se aquela rotina de ir às compras fosse algo que dividimos sempre no mesmo bat-local, na mesma bat-hora. Contudo devo confessar que não conheço nem a metade das pessoas que cumprimento silenciosamente nestes momentos.
Outro dia mesmo eu estava subindo a rampa do Super Nosso correndo, porque eu tinha pouco tempo para comprar o pão, mas mesmo assim uma moça me alcançou, sorriu para mim com um olhar de compreensão, me cumprimentou e disse: “Nossa, que vida corrida essa que a gente leva!” Num misto de surpresa e concordância, diminui o passo, retribui o sorriso, o cumprimento e disse: “verdade! Tem horas que eu gostaria de parar uns minutos e andar mais devagar”. Terminamos de subir a rampa juntas, num passo mais lento, com sorrisos e olhares amistosos no rosto. Não sei o nome da moça, nenhuma de nós se voltou para perguntar o nome uma da outra. Simplesmente diminuímos o passo e seguimos até os carrinhos de compras. Depois cada uma foi pra um canto diferente da loja e assim terminou este encontro. As conseqüências dele? Mais sorrisos e olhares amistosos perdidos nessa selva de afazeres que é a vida da gente, como se fossem pequenas epifanias de felicidade, lanternas piscando em alto mar em dias de tempestade, fios de Ariadne nos labirintos da vida... Sorrisos e olhares, coisas pequenas que geram pequenos e silenciosos terremotos e tsunamis de felicidade na minha vida...

Comentários

Mary Joe disse…
Nicole, delicado e suave seu texto. Gostei muito.

Essas pequenas delicadezas é que nos lembram que no fundo no fundo, somos todos humanos querendo a mesma coisa: ser felizes.
Beijo carinhoso
Mary Joe

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