Colocando as "Picas" em Dia

Nunca pensei que esse seria o primeiro item da minha lista de coisas para fazer antes dos 30 anos, mas é preciso encarar a realidade. Sim, encarar a realidade. Não pensem em bobagem por causa do título hem! É que os nossos irmãos lusitanos chamam popularmente a injeção de pica, e já que o assunto é demasiadamente doloroso, preferi dar boas risadas dele pegando o vocábulo emprestado. Pois bem: a primeira coisa que devo fazer antes dos meus 30 anos é colocar a carteira de vacina em dia. Vocês vão achar tudo isso vergonhoso. Ok, eu confesso o meu pecado inconfessável: morro de medo de agulhas.
Uma vez eu estava com uma dor de cabeça que parecia que o meu cérebro ia se soltar do resto do corpo. Fui para a emergência do hospital, pelas mãos de meu marido. Ao chegar lá, minha pressão estava alta, segundo o médico, por conta da dor que eu estava sentindo. Ai ele foi categórico: “precisamos fazer uma injeção em você para a dor passar mais rápido”. Imaginem: eu surtei. Acho que a cabeça começou a doer mais do que já estava doendo. O médico olhou atônito para mim quando eu perguntei a ele se a medicação não poderia ser oral: “vai demorar demais para fazer efeito”, disse ele. Eu, envolvida por minha aicmofobia (palavra bonita, né? É o nome chique para quem tem medo de agulhas!) disse ao médico que preferia o remédio por via oral assim mesmo. O resto vocês já podem imaginar: eu com um remédio mega forte para tomar, em casa, em um quarto escuro, com compressas de água gelada na cabeça esperando por horas a dor de cabeça passar ao lado de um marido que embora compreensivo e dedicado, não entendia o motivo daquilo tudo, afinal de contas: era só uma picadinha...
"É só uma picadinha!" É o que todos dizem, mas quando assustamos estamos sendo invadidos por aquele objeto pontiagudo carregado por um liquido que muitas vezes arde mais na hora que entra no nosso corpo do que a picada em si. Morro de dó do meu sobrinho que sofre de febre reumática. Tomará Benzetacil até a sua maioridade. Acho que ele já não deve mais agüentar ouvir a lorota de que tudo trata-se somente de uma picadinha.
Não me perguntem onde essa fobia começou. Lembro-me vagamente que durante a minha adolescência eu não gostava muito de levar furinhos. Uma vez minha irmã e eu decidimos que queríamos colocar um piercing no umbigo. Foi um deus nos acuda convencer a mamãe e o papai da relevância estética da coisa. Por fim, estávamos nós duas lá no estúdio de tatoo para furar o umbigo. Perguntem se a Nicole fez o tão suado furinho? Quando vi aquela agulha bizarra entrando no umbigo da minha irmã não consegui permitir que violentassem o meu belo umbigo daquela forma.
Tirando essa experiência da minha adolescência, que me salta à lembrança, o que posso afirmar com segurança é que o medo se agravou consideravelmente em 2004, quando tive um episódio de pancreatite aguda causado por cálculos biliares. Ficar doente é uma merda, ser internado então nem se fala. A primeira grande sacanagem deste processo todo é você passar dias com uma agulha enfiada na sua veia. Os acessos passaram a fazer parte dos meus pesadelos, principalmente depois que as minhas veias, normalmente muito amigáveis com as enfermeiras, resolveram entrar em greve de furos. Cheguei a um ponto em que meus braços estavam roxos, não tinha mais onde furar, as veias simplesmente tinham sumido. Então, imaginem o misto de gastura e dor que eu sentia quando as enfermeiras experimentavam furar as minhas mãos, os meus pés, e até mesmo a virilha procurando alguma veia caridosa que pudesse abrir mão da greve em nome do meu bem-estar.
Para completar todo esse processo traumático de furos eu ainda tinha que fazer todo santo dia o exame de sangue para medir o nível da amilase. Então, o acesso ficava em um braço, e o outro era diariamente furado para a coleta de material. Não preciso dizer nada! É aquela coisa: você já está num nervo danado porque existe uma agulha dentro de você constantemente, então você ainda precisa diariamente se preparar psicologicamente para as picadinhas da coleta de material... aff! Muito complicado. E não preciso nem dizer que enquanto eu era furada e perfurada eu estava com a dieta suspensa, morrendo de dor, tomando analgésicos fortíssimos de quatro em quatro horas, porque a dor da pancreatite é uma das piores coisas que já vivenciei na vida.
Dessa experiência adiante eu passei a ter muito mais dificuldades para levar agulhadas voluntariamente. Morro de pavor quando preciso ir a um posto de vacinação. Não riam de mim! Sou dessas de suar frio e ter pesadelos só de pensar na picadinha no braço ou na bunda! Outro dia fui acompanhar meu marido em uma maratona de vacinação e eis que quase passo mal por ele. Eu ia tomar vacinas também, mas, como ele mesmo diz: amarelei. Não dei conta.
Já tentei fazer acupuntura também. Mas sempre me vejo mendigando com os acupunturistas a possibilidade de trabalharmos a auriculoacupuntura ao invés da tradicional, com agulhas. Passar a semana com a orelha cheia de sementinhas ativando os pontos de energia é bem menos invasivo do que se imaginar deitado em uma maca com as costas todas espetadas por agulhas. Acho que sou uma tragédia viu! Eu adoraria dizer voluntariamente que quero doar sangue uma vez por mês sem precisar ficar sem dormir um dia antes imaginando o momento em que a tal agulha entrará em meu braço.
Alguém ai tem alguma técnica calmante para esses momentos? Porque estando nos 29, quase nos 30, a gente precisa mudar de fase, não é mesmo? Preciso vencer essa fobia para dar lugar às novas, porque se eu prosseguir com as fobias antigas e adquirir novas à medida que os anos se vão, com o passar do tempo eu me tornarei uma mulher muito difícil de conviver. Portanto, colocarei as picas em dia e esperarei as novas fobias que o futuro me reserva. Afinal de contas, como eu farei quando chegar aos 40 e precisar fazer seções de botox? As agulhas precisarão ficar no passado agora para que aos 40 eu resolva a fobia das rugas...
Até a próxima!

Comentários

Mary Joe disse…
Nicole querida, dei boas risadas de vc e suas picas... Interessante é quando mudamos de lado.
Lembro de mim mesma na primeira aula de primeiros socorros em um posto de saúde aí de BH, escolhendo "Voluntários" para vacinar. Eu tremia tanto que tive medo de errar o braço do candidato.

Mas qdo percebemos que o serviço é simples e rápido fica mais fácil.

Nunca fui fã de tomar injeção e menos ainda de tirar sangue. Mas hoje já vejo com mais naturalidade. Afinal é um procedimento como outro qualquer no fim das contas.
Procure pensar por esse lado... quem sabe ajuda.
Beijokas
Maria José

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