Sobre a fé


Hoje vou tratar de assunto espinhoso. Não é fácil falar de fé. Menos fácil ainda julgar uma fé. Portanto declaro de antemão que não pretendo fazê-lo.


Eu nasci católica, mas com o tempo fui buscando conhecer outras religiões, pois o catolicismo passou a não bastar para mim. Chegou um ponto em que a minha crítica começou a ameaçar a fé. Como sou uma pessoa de fé, precisei buscar apoio em outras crenças até que eu conseguisse amadurecer a minha idéia de Deus.

Acho oportuno discutir religião na atualidade. Não sou filósofa e nem tenho pretensão de sê-lo. No entanto acredito que mais do que nunca vivemos em tempos de fragilidade. Quando as pessoas não têm mais a quem recorrer, elas se apegam ao sobrenatural em busca de esperança para continuar a seguir o seu caminho. Mais do que justo. Em um mundo em que a fé no ser humano anda pouca, é necessário que se tenha fé em alguma coisa para que o sentido da vida não se perca.

O problema é exatamente esse. A fé no ser humano é pouca e a fé no sobrenatural é grande. Mas quem representa o sobrenatural? Quem representa Deus? No fundo, no fundo, por mais que exista uma tendência em se considerar tais representantes santos, eles nada mais são do que homens, que possuem dentro de si a dualidade do bem e do mal e o livre arbítrio que nos oferece a possibilidade de escolhermos entre um extremo e outro desta dualidade.

A religião como instituição no mundo não é plena de virtudes e imaculada. Muitos são aqueles que pregam o bem e mais do que falar, o fazem. No entanto existe um número muito grande também de hipócritas que pregam uma coisa e fazem outra: “faça o que eu digo e não o que faço”. Lembro-me agora de minhas aulas de filosofia no colégio, quando eu estudava Nietzsche. Esse filósofo alemão do século XIX é considerado por muitos como o anticristo (nome inclusive de um de seus livros). No entanto creio que ele tenha sido um dos maiores críticos das religiões que o mundo já teve. E sua crítica em muitos pontos procede. Ele veio de família luterana e pela sua criação deveria ter se tornado pastor. No entanto durante a adolescência ele questionou a religião e decidiu tornar-se ateu.

Nietzsche fala que o idealismo religioso apenas mascara a realidade inquietante e ameaçadora. Segundo ele a melhor forma de se viver seria seguindo a moral, fosse ela hegeliana ou kantiana. Segundo o filósofo os sacerdotes seriam hipócritas pois com o intuito de aumentar o próprio poder, estimulavam os fiéis a deixar de lado a visão crítica do mundo para viverem somente de fé.

Ao me lembrar dessas palavras é inevitável pensar no que está acontecendo recentemente no Brasil. Vivemos um momento sério de crise religiosa encabeçada pelo líder da igreja universal do reino de deus, uma das religiões que mais se espalha no Brasil e também no mundo.

Já há muitos anos que o catolicismo tem perdido parte do seu rebanho. Isso tem acontecido por várias razões, mas creio que uma das principais seja a fragilidade humana. Hoje as pessoas possuem muitos problemas. Elas sentem-se angustiadas diante do mundo, amedrontadas diante das responsabilidades que a sociedade lhe impõe. As pessoas são infelizes em seus relacionamentos, mas não têm coragem de sair deles por medo da solidão ou mesmo por convicções religiosas, uma vez que a igreja católica, assim como outras no mercado, não aceita ainda hoje a possibilidade do divórcio.

Diante da angustia das pessoas frente às dificuldades do mundo, e diante do fato de a fé das pessoas não darem conta das suas necessidades em busca da felicidade e de uma vida plena, igrejas como a universal do reino de deus acabam ganhando rebanho.

O que percebo, quando ligo a TV e vejo as transmissões dos programas gravados durante os cultos, são pessoas entrando em estado de delírio religioso. Enquanto nessas condições, as pessoas se entregam cegamente à fé e estão dispostas às maiores loucuras imagináveis para estarem próximas à Deus, que aqui se figura como a única possibilidade de realização e felicidade no mundo. Isso é perigoso, complicado. Não se pode pregar o materialismo inescrupuloso e desenfreado, mas dizer a um fiel que o dinheiro não é bom, dizer a um fiel que ele deve se desfazer de tudo aquilo que possui em nome de Jesus, isso é desonesto, hediondo, errado, inescrupuloso, etc, etc, e tal. Se a pessoa acredita que no além haverá uma vida melhor para ela, tudo bem. Mais do que justo. Mas negar-se a uma vida digna nesse mundo na expectativa de uma realização maior pós morte é exagero, isso fere aos direitos humanos e mais do que isso, fere à dignidade do ser humano.

O que mais me deixa indignada nessa situação da Universal é que esse dinheiro usurpado dos fieis em troca de uma promessa no além não é para mais nada além de saciar a ganância dos pastores, que pregam o desapego aos bens materiais e ao mesmo tempo não se desapegam dos luxos e do amor ao dinheiro. Explorar quem não tem nem mesmo para um prato de comida é um ato criminoso, e uma pessoa realmente iluminada por Deus, a ponto de poder ser chamada de seu porta-voz deveria ao menos ter escrúpulos.

Finalizo esse texto dizendo que rezarei a Deus diariamente para que o discernimento recaia sobre os corações e as mentes dos indivíduos do mundo. A fé só aprisiona a quem se deixa aprisionar. É importante ter fé, e mais importante ainda é se ter a liberdade de questioná-la de vez em quando, para que ela possa se renovar diariamente em nossos corações de forma honesta, digna de uma pessoa que possui conhecimento, crítica e discernimento.

Até a próxima!

Comentários

Mary Joe disse…
Nicole, adorei seu texto (grande novidade, rs). E como vc, nasci católica. Mas naõ consigo me prender a nenhuma religião. Busco em cada uma delas o alento para minha sede de sabedoria e espiritualidade.

Percebo no entanto, que as pessoas adoram a figura do Guru...e quanto mais incautas e desencantadas com a vida, mais cegamente seguirão quem mostrar alguma luz no fim do túnel, ainda que a luz seja artificial.

Hoje penso que entre nós e a divindade naõ precisamos de intermediários. Afinal, a luz é para todos... mas nem sempre fui assim, e confesso a vc que as vezes sinto falta de conseguir me ater a algum grupo.
Beijo carinhoso
Mary
O Profeta disse…
Ah mas esta calmaria aprisionada
Sobe ao celeste um frio arrepio
Entre o mar e as negras pedras
Vive um coração de onde escorre um rio
Onde moram sereias douradas
Onde os peixes falam de amor
Onde as pedras são felizes
Onde as águas lavam o rancor


Boa fim de semana


Doce beijo

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