Um grito surdo de indignação!


Bom... meu pai me disse essa semana que eu deveria escrever mais sobre as coisas do mundo. Então, cá estou eu, pensando nas coisas do mundo para escrever.

Ontem os ministros do supremo tribunal federal aparentemente colocaram fim à questão da obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão. Foram oito votos contra um. Suspirando bem profundamente agora eu digo: isso é o meu mundo!

Ralei muito durante quatro anos na faculdade de jornalismo. Deu pra rir, pra chorar, plantar bananeira e me divertir muito. O curso é bacana. Digo com certeza que com toda a bagagem cultural que recebi durante toda a minha educação escolar, que não foi pouca e nem barata, eu hoje não conseguiria ser uma jornalista melhor se eu não tivesse ralado esses meus quatro anos e não tivesse conquistado o meu canudo!

Sou radicalmente a favor da obrigatoriedade do diploma.

Entristece-me muito ver que a nossa tradição jornalística está sendo tão subestimada por uma legislação como essa. Disseram que o diploma é uma afronta à liberdade de expressão, garantida pela nossa constituição de 1988. Bela piada! Hoje em dia, nesse mundo tão cheio de meios de comunicação, qualquer um consegue sem grandes problemas ter o seu direito garantido. Ser jornalista, meus amigos, não significa sair por ai falando pelos cotovelos tudo aquilo que nos vem em mente, protegidos pela tal liberdade de expressão.

Ser jornalista requer técnica. Entrevistar não é fácil, menos fácil ainda arrancar respostas representativas, fazer o entrevistado te dizer aquilo que ele não gostaria que todos soubessem. Ser jornalista é ser conhecedor exímio do idioma pátrio. É ser culto e manter a leitura em dia. Ser jornalista requer perspicácia, para correr atrás daquilo que realmente é a notícia, e não daquilo que nos dizem ser a notícia.

Ser jornalista requer preparo ético para a profissão. Não é somente uma questão de aprender a escrever. Não diz respeito também às falácias arrogantes que dizem que só se aprende a ser jornalista mesmo na prática. Acho importante lembrar que a prática sem a teoria não é válida, e que toda teoria precisa de uma prática como razão de ser.

Os defensores da não obrigatoriedade do diploma vão me dizer que muitos ainda saem da faculdade sem dar conta do recado. Infelizmente terei de concordar: sim, é verdade, muitos jornalistas saem da faculdade sem dominar aquilo que deveriam para exercer sua profissão. No entanto, também não seria justo omitir o fato de que as faculdades de medicina estão cheias de gente que saem dali sem talento para a profissão, e pior: cometem erros contra a vida. Também creio ser oportuno dizer que as faculdades de direito estão coalhadas de profissionais medíocres, que sairão de lá e certamente se tornarão advogados de porta de cadeia. Percebo, meus amigos, faculdades de relações públicas com alunos que chegam ao final do curso sem ter a menor idéia do que vem a ser a profissão que eles escolheram para si. E o que vamos fazer? Tirar a obrigatoriedade dos diplomas?

Ao tratar esse assunto sob esse prisma, a discussão complica ainda mais, pois sendo assim eu serei obrigada a dizer que o problema não é exclusivamente dos jornalistas, e sim da educação no Brasil que é medíocre. Desde o ensino fundamental essa mediocridade é empurrada com a barriga, até que culminamos nos cursos universitários e nos deparamos com profissionais medíocres. É, caros leitores, a bomba educacional custa a explodir, e quando explode, ela detona justamente na cabeça de todos nós personificada na absurda quantidade de profissionais despreparados que saem todos os dias das faculdades.

Um médico tem muita responsabilidade perante a sociedade, e precisa ter uma formação sólida para evitar erros. Um jornalista também precisa de formação sólida, não só no que concerne à redação e todas as questões técnicas inerentes à profissão, mas eu diria que a principal formação que um jornalista necessita é a ética.

Formação moral, gente, é uma coisa, formação ética é outra, e é importante não confundi-las. A moral a gente aprende em casa. A palavra vem do latim mos/mores e diz respeito aos costumes e tradições de um indivíduo. É o conjunto de normas ou regras adquiridas por hábito culturalmente. Já ética é algo mais rebuscado. A origem da palavra vem do grego Ethos e significa “modo de ser” ou “caráter” enquanto forma de vida adquirida ou conquistada pelo homem.

Lembrando-me agora de minhas aulas de filosofia e ética ministradas no curso de jornalismo, lembro-me de Marilena Chauí que explica que ética é uma parte da filosofia dedicada à análise dos valores e das condutas humanas. A ética indaga sobre o sentido de tais valores e condutas, busca sua origem seus fundamentos e finalidades. A ética define a figura do agente ético que é um ser racional, consciente, que sabe o que faz. O ser ético é livre e sabe decidir, escolher o que faz e se coloca como responsável diante de suas ações e se prontifica a responder por elas. Uma ação ética, considerando essa definição de Marilena Chauí, é uma ação consciente, livre e responsável. Que será virtuosa se realizada em conformidade com aquilo que é bom e justo. Para que uma ação seja ética, não pode haver pressão externa sobre a decisão que o agente irá tomar.

Sendo assim, o jornalismo, assim como tantas outras profissões, que são regulamentadas por lei, exige uma formação ética específica.

Não consigo imaginar como um indivíduo, recém saído do ensino médio, tenha competência para lidar com as agruras do cotidiano jornalístico. Digo isso, porque quando estava no primeiro período do curso, eu consegui um estágio, e honestamente: eu estava longe de estar preparada para aquilo, mas ao menos eu tinha onde me apoiar. Mesmo um indivíduo que vem de outra formação precisaria de se adequar à rotina e às decisões que um jornalista precisa tomar diariamente. Um médico se não trabalha dentro de suas diretrizes técnicas e éticas, pode matar um paciente. Um jornalista, sem as suas diretrizes técnicas e éticas, destrói a vida de um indivíduo. Não preciso nem citar os crassos erros jornalísticos de nossa história que já destruíram vidas e reputações.

Acredito na liberdade de expressão. Amo-a, defendo-a com unhas e dentes, do contrário, eu não poderia me considerar uma jornalista de coração. E é porque assim me vejo que hoje digo que o Brasil deu um passo para trás. O nosso país precisa agora mais do que nunca de responsabilidade diante das informações que são passadas adiante. Nós jornalistas somos responsáveis por formarmos opiniões, somos nós quem mostramos os fatos àqueles que nos lêem, assistem ou escutam. Como uma pessoa sem formação conseguirá entender a dimensão desta responsabilidade? Onde estará a ética deste profissional, que não conhece os meandros da comunicação?

Sinto-me triste, impotente e infelizmente, extremamente descrente neste momento...

Que Deus nos ajude, pois não sei onde nossa comunicação irá parar!


Comentários

Gabriel Castro disse…
Parabéns pelo texto, concordo totalmente.
Essa decisão não é só uma falta de consideração com a profissão em si, é um total desrespeito com o próprio país.
Ricardo Bello disse…
Concordo, afinal, o exercício da profissão de jornalista não é apenas escrever. Na faculdade aprendemos embasamento teórico, psicologia e uma série de coisas que complementam a profissão.

Se é escrever por escrever qualquer menino que faz redação falando do sítio do avô pode ser jornalista então. Mas aí qualquer um pode ser médico, motorista, engenheiro...tudo pode ser, só basta acreditar ( como diz a música da Xuxa).

Deveria ter uma regra clara para a resposta de quem se sentiu prejudicado com a matéria.Seja na tv, no jornal impresso, revista, enfim...ter o direito de resposta do mesmo tamanho e divulgado o mesmo número de vezes em que foram as acusações.

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