Sobre a Individualidade e o Amor...

Esses dias eu estava rodando os canais na tv quando parei em um programa no qual as pessoas discutiam o amor. Achei a discussão interessante e resolvi parar para acompanhar. Não vi como as coisas começaram, peguei “o bonde andando”; mas no momento em que comecei a assistir ao programa as moças estavam discutindo o porquê da quantidade de casais que se divorciam hoje em dia.

Acho essa coisa engraçada. As moças colocaram que no passado o casamento tinha um outro layout, era um negócio arranjado que não dava espaço para o amor romântico (talvez por isso esse amor sempre tenha sido representado como impossível). Elas disseram também que hoje em dia a gente não tem mais as amarras sociais dos tempos antigos, existe liberdade sexual, liberdade de você escolher quem você quer, quem você ama, e que mesmo assim, tendo atingido esse nível de liberdade, tão desejado no passado, as pessoas estão se divorciando.

Bem... não acho que o divórcio seja por excelência algo negativo. Acho inclusive confortável a sensação de não ser obrigada a me manter em um relacionamento que não tem futuro. Para muitos o divórcio é a melhor solução para uma convivência mais pacifica. Porém, enxergo a coisa também por outro prisma. Quando você se casa (eu sou casada) você e o seu parceiro (ao menos é assim comigo) têm planos de vida em conjunto. Vocês querem começar a construir uma vida em conjunto. Uma das moças disse uma das grandes verdades da vida: casamento, assim como criar filho “dá trabalho”.

Tem gente que acha que a vida é fácil, que basta ser bonito, conquistar e depois ser bom de cama que está tudo bem. Mas se pararmos para pensar, a parte mais fácil do processo é a aproximação inicial. Quando estamos conhecendo alguém não estamos ainda comprometidos, a gente está numa situação confortável de curtir aquela pessoa bonita, simpática e atenciosa – porque todos nós somos absolutamente atenciosos no inicio dos relacionamentos. Nesse primeiro momento o amor romântico parece quase possível, porque a gente ainda não conhece os defeitos e as manias chatas do outro.

Quando a convivência passa do conto de fadas para a vida real, ai sim, é que começa a construção daquilo que talvez possa vir a ser definido como amor. Antes o que se configura pode ter vários nomes, uns diriam paixão, outros, presos ao ideal de primazia do sexo, diriam que são os hormônios trabalhando a favor de uma boa trepada... Talvez uma bela pitada de companheirismo, amizade, mas amor, amor de verdade, desses que te fazem agüentar o ronco da noite, a casa desarrumada, e que mesmo assim, ao olhar para aquela pessoa você tem a certeza de que apesar de tudo você não estaria feliz se fosse diferente, ahhh esse amor é coisa bem mais rebuscada! Na vida a dois, você testa os seus limites o tempo todo: até onde eu vou? Até onde eu agüento? Até que ponto eu consigo ceder para o outro? Nessa vida cheia de obrigações e individualismos, talvez ceder seja uma das coisas mais difíceis do mundo.

Hoje tanto homens quanto mulheres buscam sobreviver nessa selva que o mundo acabou se tornando. Todos precisam ser bonitos, inteligentes, graduados e pós-graduados, e principalmente, bem sucedidos no trabalho. A ditadura do mundo hoje parece ser a da solidão. Ao tentar conquistar tantas coisas ao mesmo tempo, nem percebemos o tipo de pessoa sistemática que a gente se torna, presa dentro de princípios tidos como verdades absolutas, criados por essa dinâmica egoísta de construir o futuro.

O problema dessa dinâmica é que ela não escraviza as pessoas somente no que concerne à beleza física, capacidade intelectual e sucesso profissional. Essa dinâmica nos diz, lembrando aquele ideal de amor romântico do século XIX, que além de conquistarmos a beleza, a inteligência e um bom trabalho, temos também que encontrar a nossa cara metade, nos apaixonar pela pessoa certa, perfeita, sob mediada para nós, para que então possamos constituir família, e como num conto de fadas, vivermos felizes para sempre.

Belo conto da carochinha! O primeiro grande problema desse sonho de amor romântico é encontrar o par perfeito. Às vezes me pergunto o que será que os homens e as mulheres esperam uns dos outros. Que tipo de companheiros essas pessoas procuram? As revistas masculinas dizem que os homens hoje não buscam somente o sexo, eles querem uma boa companheira, que os entenda, que sejam sim, boas de cama, mas não precisam ser o primor da beleza física se forem munidas de atributos mais nobres tais como serem boas mães e esposas.

As revistas femininas também adoram listar esse tipo de informação. Dizem que as mulheres buscam homens sensíveis, bonitos, que lhes inspirem segurança e fidelidade. As mulheres, segundo essas revistas querem homens que cuidem da própria saúde, que pratiquem esportes, que sejam trabalhadores. Agora um outro dado importante nessa lista de desejos é que quanto mais bem sucedida é a mulher, principalmente no lado financeiro, menos ela quer que o seu companheiro se intrometa na vida dela.

É ai que reside o grande problema. A mulher quer se realizar como mãe e esposa, mas não está disposta a abrir a guarda e confiar na pessoa que ela escolheu para estar a seu lado. A grande verdade é que tanto homens quanto mulheres, não obstante suas exigências nobres em relação aos futuros parceiros, estão com medo de perderem a liberdade. Pergunto-me aqui: o que seria não interferir na sua vida? A partir do momento em que você vive junto de alguém, invariavelmente um interfere na vida do outro. Desde a decisão do lado do guarda roupas que cada um vai ocupar, até o lado da cama que prefere dormir, viver junto significa unir as escovas de dentes, mas também valores e planos de vida.

É bom que cada um preserve a sua individualidade, mas honestamente, não existe nada melhor do que baixar a guarda e deixar o outro participar da sua vida. As decisões do dia-a-dia ficam mais leves, os sofrimentos menos sofridos, e obviamente, as felicidades acabam ficando muito mais alegres. Talvez o segredo da convivência equilibrada seja o casal conseguir transformar as divergências de idéias e estilos de vida em denominadores comuns.

Esse é certamente o assunto mais perturbador das uniões, e talvez o que acabe gerando tantas desuniões. É nesse diálogo, nem sempre possível, que está o tal do ceder, e é nesse diálogo absolutamente necessário que se baseia a união e é por isso que casamento dá trabalho, para ser sincera, muito trabalho! Mas quem disse que não vale a pena? O ser humano nasce sozinho, morre sozinho, e durante a sua vida trava uma vã luta contra isso... No mínimo essa luta tem que valer a pena! Nada como um belo cobertor de orelha para os dias de chuva...

Comentários

Mary Joe disse…
Nicole, gostei muito do seu posicionamento. E só posso assinar embaixo de tudo quanto vc disse sobre o relacionamento. E vou além, do alto de quem fará dia 01/06, 12anos de casada. Naõ existe coisa melhor do que amadurecer junto com alguém em quem podemos confiar.

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