Sobre a falta de educação

E no fim das contas o mundo gira... gira... E o problema é sempre o mesmo: falta de educação!

Outro dia estávamos eu e meu marido saindo do Shopping Paragem, na av. Mario Werneck. Bem ali, na saída do centro comercial, tem um sinal para carros e uma faixa de pedestre. No momento em que saíamos, o sinal estava aberto para os carros e, naturalmente fechado para os pedestres. Sabemos que nesse caso, para entrarmos na Mario Werneck em segurança, precisamos dar preferência aos carros que estão subindo a avenida e precisamos também zelar pela segurança dos pedestres (que nessa situação específica devem estar no passeio esperando que o sinal destinado a eles abra para que façam a travessia da avenida em segurança). Pois bem: uma mulher, de mão dada com uma criança, aguardava para atravessar a avenida. Mas não aguardava no passeio, como seria o correto: ela estava abaixo do meio fio, na rua, aguardando o fluxo de carros passar, mesmo o sinal estando aberto para eles.

A mulher em questão estava atrapalhando a nossa saída do shopping e corria também o risco de ser atingida por algum carro que subisse a Werneck. Meu marido buzinou para que ela fosse para o passeio, e ela, munida de arrogância e falta de educação segurou forte na mão da menina que estava com ela e gritou para o meu marido: A PREFERÊNCIA É DO PEDESTRE! Meu marido então insistiu que ela deveria subir para o passeio, pois o sinal estava fechado para pedestres e ela estava obstruindo a passagem dos carros. Mesmo assim ela continuou insistindo que a preferência era dela.

Direção defensiva é algo que deve ser praticado. Se o outro está errado e insiste no erro, o que você deve fazer é evitar um acidente. A essa altura já tinha, atrás da gente, uma fila de carros também querendo sair do shopping. Meu marido então contou com a boa educação dos condutores que subiam a Werneck, que pararam para ele passar, desviou da mulher e da criança e seguiu o caminho.

Eu e meu marido ficamos danados da vida. Como é que uma pessoa se dá ao direito de colocar a sua vida em risco ainda por cima acompanhada de uma criança? A avenida Mario Werneck tem um fluxo de trânsito considerável, e é desaconselhado ser imprudente em lugares como esses. O mundo hoje está cheio de atitudes complicadas e a prepotência é uma delas. Contei essa história do ponto de vista do motorista, mas eu também sou pedestre. Aliás, sou pedestre a maior parte do meu tempo, pois eu e meu marido temos somente um carro que fica quase sempre com ele.

Como pedestre procuro sempre me manter segura nas vias. Vejo muitas pessoas que atravessam fora da faixa, ou que preferem não pegar a passarela para atravessar uma avenida movimentada. Eu, honestamente, prefiro aumentar um pouco o meu percurso a pé do que me arriscar. Existem lugares onde realmente o trânsito é mais intenso e os carros andam mais rápido. Eu não posso colocar o meu pezinho no meio da rua e dizer, diminua a velocidade porque agora eu vou passar, sendo que a lei permite que os carros andem naquela velocidade naquele local (imaginem o anel rodoviário! Lá tem passarela, mas o povo vive sendo atropelado ali...). Se o sinal está aberto para mim, eu vou, se está fechado, espero no passeio. Se tiver faixa para atravessar, mas não tiver o sinal para pedestre, eu espero o fluxo de carros diminuir e atravesso: ai sim, a preferência é minha e se algum carro estiver vindo, ele realmente precisará frear.

Não tem muita conversa não: o problema do trânsito é falta de educação mesmo. Falta de educação por parte dos motoristas, que são imprudentes; falta de educação dos motoqueiros, que não ocupam corretamente o seu espaço na rua; e também falta de educação dos pedestres, que não sabem ou freqüentemente se esquecem de que eles também precisam seguir regras. Todos podemos coexistir no trânsito, basta conseguirmos manter as regras de boa convivência: cada um no seu lugar.

Em países como Canadá, Estados Unidos e Suíça (para não ficar aqui citando outros) uma atitude do tipo avançar sinal vermelho é impensável. Mas isso não é porque a legislação de lá multa impiedosamente, mas sim porque as pessoas são acostumadas a respeitar a legislação. Lei de trânsito existe para que possamos conviver em paz nas ruas, para que a gente não se mate com carros, motos, ônibus, caminhões ou a pé.

A nova lei de transito, implantada em 1997 fez com que todos os indivíduos motorizados voltassem para os cursinhos de legislação e fizessem também o curso de direção defensiva. No entanto, mesmo o novo código prevendo multas para pedestres, o que percebo é que esses últimos acabam se mostrando ou desconhecedores das leis que regem o nosso trânsito ou, quando conhecem as leis, não se preocupam muito em respeita-las, uma vez que, por lei, respeitadas as normas de circulação e conduta estabelecidas neste artigo, em ordem decrescente, os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres. (Lei Nº 9.503, de 23 de setembro de 1997).

Não obstante esse parágrafo do novo código de transito, eu não entendo o fato de os veículos motorizados serem responsáveis pelos pedestres como desculpa para não andar no passeio. Não é porque você é a peça mais frágil de um sistema que você pode simplesmente transgredir as regras que o regem. Se os motorizados precisam ter direção defensiva, pedestre deveria ter trânsito defensivo. Inúmeras vezes eu vivenciei situações em que motoristas desrespeitaram o meu direito de pedestre, e nem por isso eu me coloquei no meio da rua gritando preferência do pedestre. Minha vida em primeiro lugar. Se o outro não é educado, eu posso dar o exemplo de tolerância.

O problema é que existe um resquício de um sentimento nojento e pequeno em alguns brasileiros que é a ânsia de sempre querer se dar bem nas situações usando de malandragem (termo que para muitos não tem uma conotação muito negativa, mas que para mim está longe de ser algo de que se possa vangloriar). Se eu estou com pressa e dirijo uma moto, vou passar pelo meio fio e vou costurando o engarrafamento. Se eu tenho pressa e estou a pé, não vou ficar esperando o meu sinal abrir, vou atravessar a rua na frente dos carros. Se eu estou com pressa e de carro, vou avançar os sinais, vou acelerar mais do que a velocidade permitida do local, vou ultrapassar pela direita o pobre coitado, que por acaso, está respeitando a regra de transito, e assim vai.

Essa falta de respeito, aliada à prepotência e ao costume de dar um jeitinho em tudo é o que cria essa cultura da imprudência. Quando acontece um acidente de transito por conta dessas bobagens dá até vontade de chorar quando vemos os motoristas batendo boca na rua para decidir quem estava certo e quem estava errado: assumir o erro é algo fora de cogitação.

A pedestre, que estava errada na Mario Werneck, parecia estar com pressa, mas o sinal estava aberto para os carros, e não para os pedestres. Assim como essa mulher, existem vários indivíduos que se sentem mais no direito do que os outros. A solução que eu vejo para essa situação é educação e instrução: pedestre também tinha que ter cartilha de legislação para estudar antes de ficar se comportando mal no trânsito. Multar pedestre? Mesmo sendo previsto por lei, é algo complicado. Não existe um mecanismo de controle de pedestres como existe o de veículos motorizados. O ideal mesmo é investir em educação. Quanto mais um pedestre conhecer os seus direitos e também os seus deveres menos atropelamentos vão acontecer na nossa cidade.

E por fim, vale lembrar também que pressa todos nós temos. Todos somos ocupados, cheios de prazos e de compromissos. Então, se você não conseguiu estar no horário relaxa e não desconta no trânsito. Ninguém é culpado pelo fato de você não ter saído mais cedo de casa. Agüente o tranco com respeito e educação, e da próxima vez: saia mais cedo de casa e não fique no meio da rua achando que os carros vão parar, com o sinal verde para eles, para você passar. Sinto muito, eles não vão; mas se pararem pode estar certo de que você terá se deparado com condutores bem mais educados do que você.

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