Aplicações

Esses dias dei um basta nas minhas seções de psicoterapia porque achei que a coisa não estava caminhando como deveria. Uma das coisas que a psicóloga me dizia continuamente e que me incomodavam de forma visceral era sobre a relação homem e mulher em uma sociedade. Foi-me aconselhado que eu passasse a tomar conta da casa (limpar, lavar, passar, cozinhar, etc, etc, e tal) para que eu entrasse numa situação de equilíbrio comigo mesma e me enxergasse esposa. Hoje fico aqui pensando com meus botões: será que o que caracteriza uma esposa é essencialmente a manifestação anos cinqüenta do papel feminino na sociedade? Discordei da psicóloga veementemente depois de perceber, que ao seguir os seus conselhos, eu estava mais nervosa e criando atritos desnecessários com o meu marido. Cheguei a ponto de brigar com ele por ele não ter percebido que o lugar de guardar os sapatos sociais dele havia mudado, e que de lambuja, além de organiza-los em um novo espaço, eu os havia lustrado.

Veja bem, quem me conhece sabe: sempre fui mulher de estudar pra caramba, sempre tive uma atividade intelectual intensa e nunca, nunca na vida gostei de deixar minhas coisas arrumadas. Quando estava estudando, eram pelo menos dez livros espalhados no chão de onde eu estava, e meu quarto vivia de cabeça pra baixo. Dizem que depois do casamento a gente se descobre, e eu de fato me descobri. Com relação às tarefas de casa, a única coisa que percebi que realmente amo fazer é cozinhar. Mas a coisa para por ai: detesto lavar louça e reitero que não gosto de arrumação. Eu parei de brigar com meu marido por causa disso e deleguei a uma faxineira, duas vezes por semana, os cuidados com a casa – ôoo dinheirinho bem aplicado!

Agora estou começando a colocar as coisas nos prumos novamente. Estou precisando voltar a ficar ativa, voltar a estudar para salientar para mim mesma que aqui, nessa carcaça de sexo frágil, existe um ser ativo, pensante e que produz de forma competente e profissional. A afirmação da minha feminilidade não precisa vir acompanhada de vassouras e rodos: ir ao salão de beleza uma vez por semana e comprar umas roupinhas de vez em quando já fazem de mim uma mulher feliz. E de mais a mais, quando eu quero posar de dona de casa, vou pra cozinha, faço pratos maravilhosos, e peço ao meu marido para lavar a louça. Perfeita democracia doméstica!

No fim das contas, a solução dos meus problemas não está na incorporação de uma mulher/ esposa dos anos cinqüenta; mas sim no fortalecimento da mulher inteligente, estudiosa e competente, que foi, diga-se de passagem, a mulher que conquistou o meu marido! – psicólogo? Nesse caso? Ôooo dinheirinho mal aplicado!

[] Nicole.

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